Presidente da Câmara dos Deputados, Arthur Lira - Agência Câmara

No dia em que o Brasil resgistrou mais um recorde de mortes por COVID-19, com 3.950 óbitos em 24 horas, o presidente da Câmara dos Deputados, Arthur Lira, anunciou que irá acelerar um projeto de lei que permite empresários comprarem vacinas, furando a fila do SUS.

Nós estamos numa guerra, e numa guerra vale tudo para salvar vidas“, declarou o líder do centrão. Faltou dizer que o vale-tudo serve apenas para quem tiver dinheiro.
A decisão de Lira se dá, inclusive, após uma reunião do deputado com os empresários bolsonaristas Luciano Hang, o “velho da Havan” e Carlos Wizard. Por ironia, dois negacionistas que sempre defenderam o tal “tratamento precoce”, mas que agora querem se vacinar.

A Câmara aprovou uma lei, há apenas duas semanas, que abre a possibilidade de aquisições de vacinas pela iniciativa privada, mas que obriga a doação de todo o produto ao SUS para sua disponibilização ao Plano Nacional de Imunização (PNI), até a vacinação dos grupos de risco. Após isso, a medida obriga a doação compulsória de 50% das doses adquiridas, sendo livre a aplicação dos outros 50%.

Como era de se esperar, porém, essa iniciativa tinha por objetivo apenas de “abrir a porteira” para empresários e endinheirados furarem a fila. O projeto apresentado pelo deputado Hildo Rocha (MDB-MA), não só permite que empresários comprem vacinas via importadoras, até mesmo aquelas ainda não aprovadas pela Anvisa, como possibilita que o gasto com os imunizantes seja abatido do Imposto de Renda. Ou seja, querem furar a fila para se vacinarem e fazer ainda com que você pague a conta.

Segundo a colunista da Folha de S. Paulo, Mônica Bergamo, a reação causada pela dedução das vacinas do IR teria feito com que Lira apoiasse um substitutivo apresentado pela deputada Celina Leão (PP-DF), que tira o abatimento do Projeto de Lei, mas mantém a possibilidade dos empresários furarem a fila. O texto da deputada desobriga qualquer doação ao SUS, desde que o empresário vacine seus funcionários.

O projeto fura-fila para vacinar os ricos apoiado por Lira amplia ainda mais o fosso que separa os pobres dos endinheirados. A grande maioria das vítimas por COVID-19 no país tem classe e cor. Da mesma maneira que a população mais pobre, dentre ela a maioria da população negra, tem menos possibilidade de manter distanciamento social e menor acesso à saúde, também é excluída da vacinação. Dados tabulados pela Folha de S. Paulo mostram que, entre as pessoas que já foram vacinadas, a porcentagem de brancos (38%) é quase o dobro da de negros (21%).

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Enquanto Lira e os empresários trabalham para furar a fila, a vacinação para a população se arrasta, enquanto as mortes tem crescimento exponencial. Neste dia 31 de março, o ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, anunciou a redução pela metade do número de vacinas a serem distribuídas em abril. Dos 47 milhões previstos inicialmente para apenas 25,5 milhões.

Bolsonaro, por sua vez, contrariando aqueles que pensavam que a crise o faria mudar de discurso, continua investindo contra qualquer medida de distanciamento social. “Não é ficando em casa que vamos resolver o problema“, disse logo após o final da primeira reunião do Comitê de Crise fake que montou para passar a impressão que está fazendo alguma coisa contra a pandemia.

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