Foto TVBand/Divulgação

No dia seguinte ao primeiro debate entre os “presidenciáveis”, promovido pelos canais Bandeirantes e Cultura, o portal da UOL e o jornal Folha de S. Paulo, em 28 de agosto, muitos destacaram os  temas que ou estiveram completamente ausentes da discussão ou entraram nela de forma totalmente “atravessada”, em especial, o racismo e o machismo.

O tema racial, inegavelmente importante no país que tem a maior população negra fora da África e registra, cotidianamente, casos dos mais diversos de marginalização e violência, sequer foi abordado. Já a opressão das mulheres, que lamentavelmente inunda o noticiário com casos de feminicídio e discriminação, só ganhou destaque graças aos costumeiros ataques ultramachistas por parte de Bolsonaro. E a LGBTIfobia, como sempre, foi completamente invisibilizada.

Isto já seria inaceitável em qualquer situação, considerando o que Bolsonaro tem significado em relação a estes temas. Mas, como muito gente comentou nas redes sociais, a ausência dos temas, particularmente do racismo, chamou ainda mais a atenção em uma eleição que têm dois candidatos negros concorrendo à presidência e que sequer foram convidados: Léo Péricles (Unidade Popular) e Verá (PSTU). Sendo que nossa candidata ainda tem uma indígena, Raquel Tremembé, como vice.

Quando tanto o “berro” quanto o silêncio dizem muito

Obviamente, estes não são os únicos temas urgentes que foram “esquecidos” por Ciro Gomes (PDT), Felipe D’Avila (Novo), Bolsonaro (PL), Lula (PT), Simone Tebet (PMDB) e Soraya Thronicke (União Brasil). Dentre outros, a questão indígena e a tragédia ambiental e humana que atinge as matas e campos do país foram igualmente deixados de fora.

No que se refere às opressões, o que temos visto (e o debate foi só um exemplo disto), não pode ser limitado ao tema da “representatividade”. O problema é programático e estratégico.

Por maior que seja a distância entre esbravejar preconceitos e se silenciar diante deles, os candidatos e candidatas presentes no debate esbarram num denominador comum que é um gigantesco obstáculo para que se apresente qualquer projeto que possa atacá-los frontalmente: a defesa da sociedade capitalista, que alimenta as opressões, para, ao mesmo tempo, superexplorar e dividir a classe trabalhadora e a juventude.

Neste sentido, Bolsonaro, assim como Trump, Putin (Rússia) ou Erdogan (Turquia) são exemplos extremos da excrescência que brotou do aprofundamento da crise do sistema e de uma ultradireita, conservadora e a reacionária, que trata negros(as), mulheres, LGBTIs, migrantes e povos originários como inimigos declarados, exatamente porque têm consciência de que, para explorar mais (e, consequentemente, manter as margens de lucros de seus comparsas) é preciso intensificar, ainda mais, o discurso de ódio.

A maioria dos demais candidatos se enquadra na perspectiva que a burguesia liberal, pressionada pelas intensas lutas, passou a adotar: a tentativa de, supostamente, se colocar ao lado destas lutas com o único objetivo de mantê-las nos marcos da democracia burguesa e do capitalismo, vendendo ilusões como a possibilidade de superar a discriminação através da ascensão social, do acesso ao consumo ou de parcerias com empresários e banqueiros.

Uma ilusão que tem se esfacelado em função da própria crise do sistema; mas que, infelizmente, tem se renovado e sobrevivido pelas mãos do PT e seus aliados “reformistas”, já que eles partem da mesmíssima perspectiva: pregar o combate às opressões através da conciliação de classes, apenas recheando seus discursos com teses “pós-modernas” ou supostamente radicais, como a do “racismo estrutural”, cuja essência não vai além da defesa da farsa de que a luta contra a opressão passa pela conquista de “espaços de poder e prestígio” na sociedade capitalista.

Racista e machista

Bolsonaro e seu ‘show de horrores’

No debate, o conhecido ódio d Bolsonaro pelos setores oprimidos ganhou forma numa provocação asquerosa à jornalista Vera Guimarães, da TV Cultura.

“Acho que você dorme pensando em mim. Você tem alguma paixão em mim.”, esbravejou Bolsonaro, fugindo da questão levantada por Vera, em relação à baixa cobertura vacinal durante a pandemia.

Lamentavelmente, a “resposta” a Bolsonaro ficou por conta das duas mulheres presentes, o que também não deixa de ser um insulto à luta das mulheres. Tebet (MDB) é exemplar neste sentido, já que toda sua carreira vai na contramão da luta antimachista.

Filha e representante de latifundiários e do agronegócio no Mato Grosso do Sul, Tebet é, por exemplo, contra o aborto (para além daquilo já previsto na legislação); votou a favor das reformas da Previdência e Trabalhista, que atacaram de forma cruel mulheres, negros(as) e os setores mais explorados da população e defendeu a PEC do Teto de Gastos, que minou as verbas para a Educação e a Saúde.

Já Soraya Thronicke (União Brasil) carrega em seu currículo o fato de ter sido eleita, também pelo Mato Grosso do Sul, em 2018, como “a senadora do Bolsonaro”, barca que ela só abandonou, em abril de 2021, quando o genocídio provocado pelo governo federal já havia ceifado quase 500 mil vidas.

Os demais candidatos presentes, contudo, não só se mantiveram calados diante do ataque como não disseram uma palavra sobre o porquê das mulheres, particularmente as negras, as periféricas, as indígenas e quilombolas, têm sido as mais direta e cruelmente atingidas pela crise do capitalismo.

Mais do que deslizes

Os ‘deslizes’ de Lula e outras declarações deploráveis

Aliás, lembrando que o PT se arvora do fato de ser oposto pelo vértice aos discursos preconceituosos de Bolsonaro, só se pode qualificar como lamentáveis algumas das posturas que Lula vem adotando na campanha. Seu projeto de conciliação de classes também implica em alianças que são verdadeiras arapucas para os setores oprimidos.

Alckmin, membro da ultraconservadora Opus Dei, dispensa comentários. O flerte com o extremamente LGBTIfóbico e defensor da cura gay Pastor Isidório de Santana (Avante-BA) é exemplo da “flexibilidade” de suas convicções. Assim como o fato de que o PT fez circular nas igrejas evangélicas uma mais “tímida” da “Carta ao Povo de Deus”, lançada por Dilma, em 2010, na qual também defende o respeito aos “valores familiares e cristãos” para se descomprometer particularmente com as pautas das LGBTIs.

E, se não bastasse, Lula não se cansa de cometer “gafes”. Em 28 de agosto, em discurso no Vale do Anhangabaú (SP), o petista disparou: “Quer bater em mulher? Vá bater em outro lugar, mas não dentro da sua casa ou no Brasil, porque nós não podemos aceitar mais isso”.

Posteriormente, o ex-presidente tentou se desculpar pelos “atos falhos”. Contudo, acreditar que eles se resumam a isto é tão ingênuo quanto crer que Alckmin é apenas “um mal necessário”.

Ciro Gomes

Os discursos opressivos também estiveram nas bocas d outros candidatos. Em conversa com seus amigos da Federação das Indústrias do Rio de Janeiro, no dia 31 de julho, Ciro Gomes, escancarou todo seu elitismo e preconceito de classe, ao afirmar que o encontro foi um “comício para gente preparada” e que seria um “serviço pesado” abordar os mesmos temas em favelas.

Já em 31 de agosto, no Piauí, o candidato ao governo pela União Brasil, Sílvio Mendes, iniciou uma resposta para a jornalista Katya D’Angelles com uma frase que, no mínimo, deveria levá-lo para a cadeia: “Você que é quase negra na pele, mas você é uma pessoa que é inteligente”.

Racismo

Não há espaço para negros e negras na ‘democracia dos ricos’

O simples boicote da mídia aos candidatos negros (como também a completa ausência de jornalistas negros no debate) é exemplar do racismo brasileiro que, por trás do já muito desgastado “mito da democracia racial”, tem como uma de suas bases a permanente tentativa de exclusão de negros e negras de todos aspectos da vida social, ao mesmo tempo que nos mantém acorrentados aos piores indicadores sociais.

Afinal, somos 56% da população do país. Mas, segundo o “Atlas da Violência 2021”, somos 75,8% das vítimas de homicídios (2,6 vezes mais chances de ser morto do que uma pessoa branca) e, numa demonstração escandalosa de que este é um sistema que nos nega o direito ao futuro, jovens negros e negras entre 15 e 19 anos são 81% das vítimas da violência letal.

Além disso, somos 79% das vítimas das “intervenções policiais”. E nossas mulheres, além de serem 61,8% das vítimas de feminicídio, concentram os piores índices de qualidade de vida. Só para dar um exemplo, durante a pandemia 41,5% daquelas que se declaram “pretas” perderam seus empregos. Um índice muito superior ao das mulheres brancas (28,2%).

É verdade que da parte de Bolsonaro, só podemos esperar mais do mesmo. Ou, ainda, coisa muito pior, basta lembrar a campanha de sua esposa Michele, associando as religiões de matriz africana às “trevas”. Contudo, também é preciso dizer que Lula e o PT têm pouquíssima autoridade neste campo.

Afinal, os petistas ainda precisariam explicar o porquê, durante seus 13 anos de governo, por mais que tenham discursado e sido forçados a adotar medidas pontuais, muito em função da pressão das lutas e dos movimentos negros, não houve uma reversão significativa desses índices. Pelo contrário.

Na edição de 2017 do “Atlas”, foi constatado que, entre 2005 e 2015, de cada 100 vítimas de homicídio no país, 71 eram negras e, como demonstração de que as políticas assistencialistas do PT foram ineficazes para a população mais explorada e oprimida, neste mesmo período, enquanto houve um crescimento de 18,2% na taxa de homicídio de negros, a mortalidade de indivíduos não negros diminuiu 12,2%, o que significou que, na média nacional, essa diferença contra os negros aumentou em 34,7%.

Foto: Romerito Pontes/Divulgação
#QueroVeraNoDebate

Vetar Vera é uma tentativa de silenciar uma saída socialista

A presença de Vera nos debates seria a garantia da reafirmação, como já disse Malcolm X, de que “não há capitalismo sem racismo”, machismo, LGBTIfobia ou xenofobia. Seria o resgate dos versos de Solano Trindade, lembrando que mulheres, LGBTIs ou “negros que são amigos do capital” não são nossos irmãos.

Seria colocar em rede nacional a defesa intransigente de que não há como combater a opressão sem lutar contra a exploração capitalista, como ela tem feito, ao lado da Raquel, nas ruas, nas portas de fábricas, na periferia e todos os cantos por onde tem passado. Seria fazer com que milhões de negros(as), mulheres, LGBTIs e indígenas tomassem conhecimento da única forma de varrer a opressão e a exploração para o lixo da História: a organização e a luta por uma sociedade socialista. E, exatamente por isso, Vera tem sido vetada.