Civis abrigados sob uma ponte em Kiev Foto Міністерство внутрішніх справ України / Wikimedia Commons / CC BY 4.0

Em sua entrevista à revista Time, Lula afirmou que a guerra é tanto culpa da Rússia quanto da Ucrânia. Assim, o ex-presidente dá uma passada de pano grande em Putin, se aproximando de posições como a de Maduro e Ortega, que dizem apoiar totalmente o presidente russo. Também se aproxima curiosamente da posição de Bolsonaro, que se negou a visitar a Ucrânia e se aproximou de Putin no início da guerra. Inclusive, vários setores da ultradireita, incluindo Trump, Salvini, Le Pen e Orban, sempre gostaram e tiveram fortes relações políticas com Putin.

O que Lula parece não levar em conta é que a Ucrânia foi invadida. Quem tomou a ação bélica foi a Rússia. Dizer que ambos são responsáveis pela guerra é dizer que o agredido é responsável pela agressão. Além disso, a Rússia é o país mais forte e a Ucrânia o mais fraco, inclusive com a Rússia cumprindo um papel opressor por muitos séculos. O objetivo da guerra é que a Rússia quer impor à Ucrânia sua vontade e interesses políticos e econômicos, ferindo assim a soberania ucraniana.

A argumentação de Lula é curiosa. Ele diz que Zelensky deveria ter cedido. Ou seja, para não ter invasão da Rússia, a Ucrânia tinha que ter atendido os desejos da Rússia. Mas isso seria entregar a decisão sobre a política ucraniana para a Rússia. É um ataque à soberania e autodeterminação da Ucrânia. Imaginem se os EUA ameaçam uma guerra contra o Brasil pelo Brasil fazer um acordo qualquer com a China, seria soberano um país decidir seus acordos em base a ameaça militar de outros?

A Ucrânia querer entrar na OTAN ou na UE não é nada progressivo, nem atende aos interesses dos trabalhadores. Na verdade, atende aos interesses do imperialismo e dos capitalistas ligados à burguesia destes países. É claro que, tanto Zelensky quanto os governos da União Europeia e dos EUA, não representam os interesses do povo ucraniano. Mas tampouco a Rússia é garantidora dos interesses dos trabalhadores. Mesmo na época da União Soviética com Lênin, o respeito e o direito à autodeterminação dos povos foi a base sobre a qual foi construída a relação entre os Estados que tinham derrubado suas burguesias.

A Rússia não é a União Soviética e atende aos interesses da sua burguesia e do seu bloco burguês. Inclusive, não só grupos burgueses, mas organizações de ultradireita tem de todos os lados. A diferença desse conflito burguês com outros é que, no meio disso há um povo, uma população, há trabalhadores, há uma nacionalidade sendo massacrada por uma invasão militar de outro país. É parte do programa dos trabalhadores defender o direito à soberania dos países oprimidos e o direito à autodeterminação dos povos.

Putin é o responsável pela guerra por ter invadido um outro país para impor sua vontade política. Quem deve definir o que faz a Ucrânia são os ucranianos, e não qualquer outro país seja ele Rússia, EUA ou UE.

Qualquer posição sobre a guerra que não parta disso, ou seja, que não se coloque do lado da resistência do povo ucraniano contra o invasor russo, serve ao país invasor. Igualar o opressor com o oprimido, o invasor com o invadido, o fraco com o forte, é uma posição que defende o lado do opressor, do forte e do invasor.

A política imperialista e militarista da UE e dos EUA também precisam ser derrotadas. Assim como o governo Zelensky também não é digno de confiança e quer entregar a soberania da Ucrânia ao imperialismo. Mas nada disso justifica ou minimiza o papel nefasto da invasão militar russa.

Nesta guerra é preciso ter lado, e este é junto com a resistência do povo ucraniano. A posição em defesa da paz pode ter vários significados. A paz que a Rússia quer impor significa o massacre dos ucranianos, anexação de territórios e imposição da sua vontade política. Esta é a paz do cemitério, não interessa ao povo ucraniano. A paz deve significar a derrota dos russos para que seja garantido o direito à autodeterminação da Ucrânia. Por isso, a unidade militar com a Ucrânia para derrotar os tanques e armas russas é fundamental para a paz. Silenciar sobre isso, ou igualar ambos é ser conivente ou tentar suavizar o massacre promovido pela Rússia.

Leia mais

Dois meses de resistência do povo ucraniano ao carniceiro Putin