A ameaça bonapartista de Jair Bolsonaro

Brasília - Deputado Jair Bolsonaro fala com a imprensa sobre ter virado réu no STF, pela sua declaração que "Não estupraria Maria do Rosário porque ela não merece" (Fábio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil)

A diferença entre “bonapartismo” e “fascismo”

O combate à candidatura Jair Bolsonaro coloca-se como uma tarefa prioritária para a classe trabalhadora no atual momento em função do cenário de autoritarismo que ela projeta, no sentido de possíveis mudanças qualitativas (e não meramente quantitativas) na atividade repressiva do Estado. Mais do que um endurecimento do regime, coloca-se a hipótese de um novo regime. No entanto, é necessário que haja precisão nessa análise, coisa que falta à maior parte da esquerda, que não só banaliza o termo fascismo, como muitas vezes hostiliza caracterizações distintas no que diz respeito ao candidato do PSL. Cumpre, pois, ir além das banalidades, além da superfície, pois como dizia Marx em “O capital”, “toda a ciência seria supérflua se a forma de manifestação e a essência das coisas coincidissem imediatamente”.

Bolsonaro é fascista?
O fascismo é o partido da contrarrevolução por excelência. Ele pressupõe um movimento conduzido por uma organização centralizada, disciplinada e rigorosa com seu programa ultrarreacionário. Trata-se de um tipo de movimento que se engaja nas ruas, que se propõe a combater as organizações dos trabalhadores e que se impõe pelo terror sobre os oprimidos. Quando assume o poder, realiza aquilo que Trotsky descrevia na obra “Revolução e contrarrevolução” como uma “fascistização do Estado”, ou seja, a tomada direta e indireta de todos os órgãos e instituições de dominação, como o aparato administrativo e o exército, as municipalidades, as universidades, as escolas, a imprensa etc.

Para promover essa “fascistização”, o fascismo emprega um modelo de Estado máximo, um supremo intervencionismo econômico, um capitalismo monopolista de Estado que beneficia o capital financeiro centralmente, atirando algumas migalhas, em contrapartida, para os pequenos proprietários. Ao mesmo tempo, suprime ou neutraliza os organismos do proletariado em nome da unidade absoluta da nação. Para se definir como tal, o fascismo deve se apresentar como um nacionalismo elevado à última potência, invocando um conteúdo místico sobre a unidade da nação e propondo, com ares de idolatria pagã, a consagração dessa unidade na figura do poder estatal e de uma substância mística de unificação popular (a pureza do sangue ariano, a ascendência romana etc.).

Todo fascismo surge como reação a um ascenso revolucionário, como uma tentativa desesperada das classes dominantes de destruir o movimento de massas, reduzi-lo a uma substância amorfa, desprovida de organicidade. Essa tentativa, portanto, é produto de situações revolucionárias frustradas, que não levaram a cabo a tomada do poder pelo proletariado, tal como se verificou no caso da revolução alemã.

Uma autêntica movimentação fascista significa, para Trotsky, a utilização de massas pequeno-burguesas enfurecidas, de bandos de desclassificados e de lumpen-proletários desmoralizados, por parte da burguesia, como ponta de lança de uma contraofensiva brutal, uma resposta definitiva a um processo revolucionário. No entanto, na medida em que a organização fascista possui certa autonomia, e na medida em que ela serve de ponte entre o grande capital e a pequena-burguesia decadente, ela traz um programa de tipo “misto”, apresentando uma composição entre as linhas-mestras da política do capital financeiro e algumas reivindicações vitais para os pequenos proprietários.

Por tudo isso, logo se percebe que o “fenômeno Bolsonaro” é de natureza distinta do fascismo. O capitão reformado, longe de expressar um movimento sólido e orgânico com consistência programática, já transitou por oito partidos em sua carreira política, atuando como um parlamentar convencional. Se Bolsonaro fosse fascista, ele não negociaria sua participação eleitoral nas legendas nos termos convencionais: sua atuação seria no sentido de formar uma nova agremiação partidária que primasse pela defesa de um programa propriamente fascista e pela criação de um braço paramilitar de repressão (elemento indispensável ao fascismo enquanto partido organizado da contrarrevolução, a exemplo dos frei korps alemães e dos camisas negras italianos).

Ao contrário do que se vê no referencial fascista, Bolsonaro não tem nenhuma consistência programática, e está pronto para trocar de cartilha política conforme as necessidades do jogo eleitoral. Não à toa, o representante da caserna realizou um giro de 180 graus nos últimos anos para se tornar uma candidatura competitiva e atraente para o mercado. Daí a sua migração de um nacionalismo militar capitalista, ao estilo da ditadura de 1964-1988, para um ultraliberalismo privatizante, ao estilo Escola de Chicago, sem qualquer tipo de autocrítica, e por critérios puramente eleitorais. O contraste é tão grande que o Bolsonaro do passado chegou a defender o fuzilamento de FHC por conta das privatizações nos anos 1990, sendo que, atualmente, o seu projeto é extremamente privatista no tocante à economia – um projeto que, para a versão jovem do capitão, justificaria o fuzilamento de Paulo Guedes e de sua própria versão madura! E de modo talvez ainda mais curioso, o candidato recentemente propôs a criação de um décimo terceiro pagamento do benefício “Bolsa Família”, a grande vedete dos governos petistas, indo na contramão do conservadorismo tradicional.

Isso demonstra que o tal “mito” é tão oportunista no quesito programático como todos os políticos tradicionais, já que se dispõe a incorporar a linha do adversário para subtrair votos. Seria possível imaginar Hitler e Mussolini agindo dessa maneira? Certamente não. De fato, o populismo de extrema-direita bolsonarista é bastante reacionário e tem um viés bonapartista, mas não deixa de ser populista na acepção clássica do termo (e que encontra raízes remotas na fase republicana anterior à ditadura militar).

É preciso alertar, portanto, que “extrema-direita” e fascismo não são sinônimos, tampouco adjetivos que se possa usar para insultar alguém ao bel-prazer. Extrema-direita é gênero, fascismo é espécie, uma dentre outras tantas, mas muito peculiar. Um boçal que faz comentários repulsivos na internet pode até ser simpático a uma parte do repertório fascista, mas o que o define como tal é a sua inserção num movimento real desse tipo. Da mesma maneira, um falastrão qualquer pode fazer juras de amor ao socialismo, mas seu discurso é vão se não se materializa em coerência programática, estratégica e organizativa. No caso de Bolsonaro, o que se tem é um populismo de extrema-direita que, sob certas condições objetivas (das quais falaremos mais adiante), pode dar origem a um regime bonapartista.

Não se pretende, com essa discussão, apenas fazer uma crítica meramente terminológica – e pedante – à leitura dominante na esquerda. O que se coloca para o momento, justamente por sua gravidade, é a necessidade de uma leitura sóbria a respeito de Bolsonaro, que nos impeça tanto de subestimar quanto de superestimar o que ele representa, e que também nos proporcione melhor condições de entendimento sobre a dinâmica do processo em curso. Para tanto, é indispensável examinar com rigor o que o candidato traz em seu programa e em seu discurso, identificando os interesses de classe que se associam a eles.

O programa e o discurso de Bolsonaro
Não é casual que certos setores burgueses apostaram mais na candidatura Bolsonaro do que em outras. Vale dizer que uma parte do bloco burguês pró-Bolsonaro somou-se de última hora, com alguma relutância, vencendo sua própria incredulidade quanto ao cenário político do país. Mas alguns empresários se aproximaram dessa candidatura já no seu início, a começar pela camada mais rentista e imediatista do mercado financeiro, representada pelo próprio Paulo Guedes.

Jair Bolsonaro propõe uma farra para o capital financeiro, tanto nacional, beneficiando os investimentos de curto prazo, quanto estrangeiro, abrindo ainda mais a economia do país para o imperialismo. Não é a finança tradicional, preocupada com a dominação burguesa no longo prazo e com o seu próprio espaço num futuro próximo. Não é o Itaú, o qual, percebendo a profundidade da crise política, decidiu criar um partido “Novo” para dar início a um processo de recomposição institucional. A parcela do capital financeiro que se sentiu mais atraída por Bolsonaro é a dos investidores com os ativos mais voláteis, dos jogadores do “capitalismo-cassino”. Não lhes importa a instabilidade representada pelo presidenciável: só o que conta é o lucro rápido, imediato, o lucro de quem pode saltar de um país em crise a outro com seu dinheiro com extrema agilidade – sendo que isso se dá a partir de investidores individuais também, mas principalmente a partir de fundos concentrados e sediados nas nações imperialistas.

O programa de privatizações de Bolsonaro vem justamente para ampliar a participação do capital privado na extração da riqueza e para liberar ativos a serem entregues no curto prazo para os agentes da finança. De acordo com o plano de Paulo Guedes, a receita oriunda das privatizações seria usada para cobrir o déficit público. Mas essa medida, supondo que gere arrecadação suficiente, poderia eliminar o déficit apenas por um ano. Antes mesmo do término de um eventual governo Bolsonaro, o endividamento já estaria recomposto, e desta vez com menos meios de obtenção de recursos. Logo, o cerne desse programa não é a estabilidade das contas públicas, e sim uma transferência monumental de fundos nacionais para o capital privado. Eis aí um típico modelo neoliberal de “Estado mínimo” no domínio econômico, e que é muito diferente do estatismo capitalista do fascismo.

Bolsonaro também se apoia nas bancadas do “Boi”, da “Bala” e da “Bíblia”, ou seja, nos ruralistas, na indústria armamentista e em alguns mercadores da fé. A defesa do porte individual de armas como solução para o problema da segurança alinha-se diretamente, ainda que a título de pretexto, com as necessidades práticas dos latifundiários, que já se utilizam de milícias clandestinas contra os trabalhadores rurais e que precisam de ainda mais margem de manobra repressiva para manter o padrão de exploração no campo. E como é evidente, os fornecedores só têm a ganhar com isso, convertendo o postulante à presidência e de seus filhos, todos da mesma laia, numa equipe de garotos-propaganda de seus produtos.

Muitos veem nesse fato um elemento fascista, o que é bastante falso. A cultura do armamento individual, da defesa da vida e da propriedade feita pelo próprio indivíduo com uma arma em punho, é uma cultura essencialmente liberal, e que sintomaticamente viceja com desenvoltura nos Estados Unidos da América. Pode parecer chocante que certas pessoas, em plena “democracia”, digam abertamente que gostariam de ter uma arma de fogo para não apenas repelir uma ameaça, mas para matar o agressor, mesmo que ele represente mais uma ameaça à propriedade pessoal do que à vida. Essa concepção que muitos tomam como aberrante e monstruosa, digna da alcunha do fascismo, é originária da Inglaterra do século XVII, do liberalismo de John Locke. Segundo esse fundamental representante da concepção burguesa de mundo, um assaltante entra em “estado de guerra” com sua vítima, negando não só a propriedade que ela tem sobre seus bens, mas também a propriedade sobre si mesma, sobre sua própria vida, o que a autorizaria moralmente a revidar de forma letal, mesmo que o ladrão não tenha atentado contra sua integridade física. Seria Locke um fascista avant la lettre? De modo nenhum: o que se tem aí é a apologia da violência privada dos indivíduos proprietários, uma violência saída das profundezas mais ocultas da tradição liberal, tão romantizada nos dias de hoje.

Finalmente, Bolsonaro também se ampara em certas ramificações religiosas, particularmente em algumas igrejas evangélicas que funcionam mais como empresas do que como instituições religiosas, gerando os seus próprios chefes capitalistas. O caso mais emblemático é o apoio de Edir Macedo, líder da Igreja Universal do Reino de Deus e proprietário do Grupo Record. Essa aliança nada sagrada, que também se dá no tocante a outras igrejas, provê toda uma capilaridade social ao bolsonarismo, e que também beneficia a orientação adotada por essas instituições religiosas. Num país em crise, sem perspectivas, sem esperança, a religiosidade evangélica renasce, nas palavras de Marx, como “o suspiro da criatura oprimida, o ânimo de um mundo sem coração”. A falência da política oficial abre caminho para um conteúdo religioso portado, muito convenientemente, por um salvador da pátria, um messias disposto a reafirmar certos valores familiares em meio ao desarranjo de um mundo que não se consegue compreender.

Esta ligação entre igreja e política já apareceu no fascismo, seja de forma mais diplomática, como na Itália, seja de forma mais orgânica e ideológica, como na Espanha franquista. Mas esse contato entre o mundo político e o mundo religioso pode se dar em todos os espectros políticos, inclusive na esquerda. A apropriação de um discurso pretensamente religioso, no sentido da afirmação da família tradicional, não é suficiente para que se possa falar em fascismo. O apelo a esse conteúdo consiste, na tática bolsonarista, em fazer mobilizar as convicções mais íntimas e arraigadas das pessoas comuns por meio de notícias falsas que criam a imagem de um inimigo inexistente, de um monstro social disposto a desrespeitar ou mesmo aniquilar as crenças religiosas. Mas a busca por esse manancial de eleitores é prática comum na democracia burguesa, e o próprio PT sempre tenta, sem sucesso, criar um elo com essa camada da população nos períodos eleitorais.

Aliás, os valores da família burguesa também não podem ser tidos como fascistas, embora o fascismo venha a potencializá-los em algum momento. A família como a conhecemos remonta ao padrão vitoriano da Inglaterra liberal, ainda que com algumas adaptações decorrentes da proletarização direta de todo um contingente feminino. O machismo e a homofobia em sua expressão capitalista, e que resultam dessa fórmula familiar vitoriana, inclusive produzindo agressões e mortes, são também oriundos de elementos liberais da sociedade burguesa.

De todo modo, há de se reconhecer que sim, em relação aos oprimidos, o discurso de Bolsonaro assume uma dimensão protofascista ao situá-los abaixo dos “direitos democráticos”: ao assemelhar negros quilombolas a um tipo de gado, ao dizer que pessoas que “não pesam mais do que sete arrobas” não servem “nem para reproduzir”, o candidato os trata como seres inferiores aos animais, o que traz um sentido profundo e diferenciado de barbárie.

Até agora, falamos mais sobre o que Bolsonaro não é do que sobre o que ele é e o que pode vir a ser a depender da conjuntura política. Era importante limpar o terreno e afastar as confusões recorrentes, mas já é tempo de avançarmos para uma caracterização precisa.

O bonapartismo em germe de Bolsonaro
Bolsonaro constitui uma liderança pessoal, com ares de bonapartismo, que independe da organização partidária à qual se filia. Foi a sua candidatura que alavancou o PSL, e não o oposto. É o contrário do fascismo, no qual o duce/führer adquire toda uma proeminência, mas apenas na medida em que encarna os ideais obscurantistas do partido.

Bonapartismo e fascismo, e é bom que se diga desde logo, são duas manifestações diferentes de autoritarismo. O primeiro é menos repressivo do que o segundo, menos totalitário, já que ele não promove a fascistização do Estado e das instituições. Para se implantar, o fascismo exige a unificação contrarrevolucionária da burguesia contra a ameaça proletária, sobretudo nas situações de duplo poder. No bonapartismo, o cenário é reverso com relação à burguesia: só pode surgir um árbitro sobre as frações da classe dominante, um “Bonaparte”, quando elas estão drasticamente divididas, quando não conseguem compor uma governabilidade minimamente estável.

Como é evidente, um Bonaparte não surge do éter, não é simplesmente plasmado pela realidade. Ele precisa ser construído em algum momento, geralmente ao longo da crise política e social colocada, sendo projetado como sujeito redentor quando as forças políticas em confronto se encontram extenuadas e impotentes. E para cumprir esse papel de árbitro do conflito, de potência que paira sobre os contendores, ele precisa de poderes institucionais especiais; ele precisa que, em algum momento, a democracia liberal seja desfigurada de maneira golpista (outro termo levianamente banalizado na nossa época), por meio de uma adulteração do mecanismo de equilíbrio da separação de poderes em prol do Executivo.

Por óbvio, a concretização desse bonapartismo depende não da vontade de Bolsonaro ou de seus eleitores, mas antes de fatores objetivos, como o rumo das disputas no parlamento, a maior ou menor docilidade do Judiciário perante o governo e, principalmente, as relações entre o chefe do Executivo e as forças armadas. E ao considerarmos esses fatores, a hipótese de uma guinada bonapartista do regime apresenta-se com um grau de probabilidade muito maior do que em outros contextos, senão vejamos.

Bolsonaro terá pela frente um Congresso Nacional mais fracionado do que nunca. A ascensão vertiginosa de seu partido, que se tornou a segunda força parlamentar, não muda o cenário de fragmentação, antes o recrudesce. O PSL surgiu como uma potência partidária emergente, rivalizando com o PT, mas ainda há pelo menos sete partidos com representação parlamentar de “tamanho médio”. Quanto às agremiações burguesas menores, na medida em que elas sobreviveram à cláusula de barreira, é de se presumir que elas continuarão a se organizar congressualmente no famigerado “centrão”. Logo, um eventual governo Bolsonaro não teria uma vida fácil, ele teria que lidar com as mesmas adversidades que Temer e lidar com elas da mesma maneira, isto é, com um loteamento de cargos e muitos favores políticos.

Com o esgotamento desses recursos, um governo Bolsonaro se veria paralisado em questão de tempo. Ao contrário, porém, do que se pode imaginar de Haddad (que provavelmente cairia como Dilma Rousseff), ou daquilo que foi o governo tampão de Temer (uma gestão improvisada que poderia se dar ao luxo de vegetar por um período), um presidente de perfil autoritário e militarista, em circunstâncias como essas, poderia arriscar uma aventura bonapartista. Poderia desistir das negociações com o parlamento e simplesmente passar por cima dele, servindo-se das boas relações que desenvolveu com a cúpula militar no último período, e graças à articulação promovida pelo general Heleno.

Fechar o parlamento, ou ao menos enfraquecer seu poder de forma unilateral, é uma medida tipicamente bonapartista, e que se verificou em todos os regimes dessa natureza. Mas o que é próprio do bonapartismo não é a pura e simples investidura do coturno, e sim uma fachada civil de poder, concentrada no Executivo e quase que pessoalizada no chefe de Estado. O que é comum nesse padrão, assim, é a prevalência desmedida do Poder Executivo sobre os demais, inclusive sobre o Judiciário. Assim, quando o general Mourão fala abertamente na possibilidade de um “autogolpe”, e quando Bolsonaro propõe, com todas as letras, inserir de uma só vez dez ministros correligionários no STF, transformando a corte constitucional do país num mero órgão de chancela judicial, o que se tem é a ameaça real de uma mudança de regime: não a ditadura militar em seu modelo “clássico” latino-americano, mas um bonapartismo muito semelhante, por maior que seja a ironia, ao que é praticado hoje na Venezuela.

Cabe acrescentar ainda que os regimes bonapartistas, em regra, surgem em momentos caracterizados não apenas pela divisão interburguesa, mas igualmente por um descontrole nas ruas, isto é, por enfrentamentos intensos entre grupos que refletem, de modo mais ou menos distorcido, os antagonismos da luta de classes. Nesses confrontos, a autoridade bonapartista serve-se do poder repressivo do Estado para conter seus adversários, mas não raro se utiliza de uma turba arregimentada para esse combate, muitas vezes recorrendo ao “lumpen-proletariado”. A polarização se agudiza, os combatentes se mostram mais audazes, com todas as desigualdades de ritmo que se pode esperar a partir de uma análise concreta – até porque polarização significa uma concentração de energias em regiões opostas, significa acirramento dos ânimos, nunca um idealizado estado de equilíbrio ou de paridade entre as forças em choque.

E por mais que tente impor brutalmente a estabilidade, o bonapartismo é ele próprio um fomentador de crises. Trata-se do regime mais suscetível a perturbações relacionadas a circunstâncias subjetivas: a passagem de um governo a outro, por exemplo, depende sobremaneira de atributos individuais do Bonaparte e de seu sucessor (capital político pessoal acima de tudo); há um déficit na impessoalidade do poder de Estado, e que consiste, aliás, numa das marcas mais pronunciadas da forma política estatal capitalista. Basta que se veja, na Venezuela, o recrudescimento da instabilidade com o governo Maduro: manteve-se o mesmo regime após a morte de Chávez, mas o novo governo, sendo mais fraco, imediatamente fez sentir o estremecimento das instituições. Ao fim e ao cabo, o Bonaparte não pode ser substituído sem transtornos, e quando se pensa em Bolsonaro, sabe-se que ninguém além dele, nem mesmo o general Mourão, poderia cumprir o mesmo papel perante as massas e, por conseguinte, perante a institucionalidade.

No plano das ideias, o bonapartismo é portador de um discurso de salvação nacional, mobilizando a esperança de que um homem, um “herói” – seja ele um paladino da justiça ou um vingador – possa encarnar a virtude e purgar todos os males da nação. Ora, isso ocorre não em função das qualidades pessoais do Bonaparte – muitas vezes inexistentes, como era o caso do medíocre sobrinho de Napoleão –, e sim por conta da desesperança das massas, do seu desencantamento com a realidade política, da sua credulidade desesperada na figura de um sujeito heroico, que possa pairar acima das contradições existentes. Daí o quadro absurdo, mas ainda assim compreensível, que se desenha diante de nós: um parlamentar acomodado, inepto, dotado dos refinamentos de um troglodita psicótico, porta-voz do obscurantismo, deixa de ser representante de um nicho e absorve para si um séquito de desiludidos, alargando surpreendentemente sua área de influência, avançando para muito além do espaço que lhe seria reservado em circunstâncias ordinárias. É precisamente por isso que pouco importa a inépcia de Bolsonaro para os seus eleitores que não são de extrema-direita. Defendê-lo é puramente um ato de fé, uma crença messiânica. Poucos sabem o que ele propõe de fato, inclusive para combater a corrupção, mas acreditam piamente em sua honestidade, na sua aura mágica de salvador da nação, numa imagem que se sustenta em mensagens apócrifas de aplicativos de celular, e que valem mais, nesse imaginário social de uma era de irracionalismo, do que as reportagens identificadas dos veículos da imprensa – as quais, mesmo não sendo a fonte pura e lídima da verdade em todas as ocasiões, ao menos trazem consigo certo grau de respeitabilidade.

Por outro lado, a força eleitoral de Bolsonaro também se expressa, distorcidamente, numa camada da população, sobretudo da classe trabalhadora, que já não tolera o retorno do PT em nenhuma hipótese, que está empenhada em castigar esse partido em função de toda a sua degeneração, e que anseia por uma renovação imediata, sem se dar conta do perigo da alternativa da qual se aproximou. Esse setor, assim como o anterior, também não é fascista ou nazista, e é um grave erro tratá-lo como tal, lançando-o numa vala comum. É de extrema importância que mantenhamos um diálogo paciente com esse setor, até mesmo porque, caso Bolsonaro vença, precisaremos dele para derrotá-lo nas ruas, precisaremos da sua fúria e indignação, que em algum momento irão se voltar contra esse impostor. De qualquer modo, é fundamental que se entenda que, desgraçadamente, o pesselista tem capitalizado de forma mais efetiva um sentimento anti-PT que, para os trabalhadores, é bastante compreensível e justificado. E se isso aconteceu, foi em grande parte porque a imensa maioria das organizações atuantes no movimento de massas desperdiçou a oportunidade apresentada pela ruína do petismo, não só permitindo que ele se recompusesse (ainda que muito parcialmente), como entregando de bandeja a oposição radical ao PT nas mãos de um facínora. Há de se reconhecer que foi apenas uma ínfima minoria no interior da esquerda que lutou pela ruptura total com a frente popular, recusando-se a cumprir um papel de linha auxiliar do petismo decadente, ou de “puxadinho”, nos momentos mais críticos.

Finalmente, e como mais um elemento que se encaixa, cumpre lembrar que Bolsonaro vem construindo nos últimos anos a sua própria versão da “Sociedade 10 de Dezembro”, fundada por Luis Bonaparte e composta, na descrição de Marx em “O 18 de Brumário de Luis Bonaparte”, por “roués [rufiões] decadentes com meios de subsistência duvidosos e de origem duvidosa, rebentos arruinados e aventurescos da burguesia”. É uma coalizão de forças parlamentares e extraparlamentares que gira em torno de seu líder bonapartista, e que aglutina toda uma escória de vendilhões dos templos, “xerifes” que mais se parecem com milicianos, aristocratas tropicais e até mesmo de estrelas do mundo pornográfico. A diferença é que a “Sociedade 10 de Dezembro” dissimulava-se como instituição beneficiente, ao passo que a corja no entorno do presidenciável sequer precisa vestir tal roupagem, já que se nutre de toda uma rede de fake news, da decadência civilizatória do capitalismo e, claro, dos erros reiterados do PT e seus satélites.

Por tudo isso, a tarefa mais urgente colocada para a classe trabalhadora brasileira é retardar por todos os meios essa tendência de bonapartização do regime, o que passa também por um combate eleitoral a Bolsonaro. Mas qualquer que seja o resultado das eleições, a polarização social seguirá aguda, provocando as reações de barbárie que temos testemunhado nos últimos dias Em adendo, mesmo não sendo fascista propriamente, a candidatura do PSL na atual conjuntura permite que agrupamentos minoritários protofascistas, ou mesmo indivíduos adeptos de outras variantes de obscurantismo (misóginos, monarquistas, fanáticos religiosos e outros), se sintam mais à vontade para intimidar os(as) explorados(as) e oprimidos(as). Urge também, portanto, a organização da autodefesa dos explorados e oprimidos, para que as forças nefastas que saíram de seu covil sejam detidas, para que a extrema direita seja duramente repelida e obrigada a rastejar de volta para a fossa da qual jamais deveria ter saído.

É evidente que, de todas as tarefas colocadas, a busca de unidade para lutar, a construção de uma frente única para a luta e a preparação da autodefesa de classe por parte do proletariado são as mais importantes. No entanto, na medida em que uma vitória eleitoral de Bolsonaro traria mais rapidamente o encontro entre as condições objetivas e as condições subjetivas (o Bonaparte, sua cáfila e seus laços estreitos com o generalato) para o bonapartismo, também se apresenta a necessidade tática de se votar no adversário do pesselista. Há que se fazê-lo, com todas as denúncias cabíveis contra o PT de Haddad e sem em nenhum momento aderir à exaltação de sua figura ou de seu programa burguês. Enquanto construímos prioritariamente as principais barricadas para repelir o bolsonarismo, por meio dos métodos e organismos de luta do proletariado, devemos chamar o voto no “13” para ganhar mais tempo, por pouco que seja, e para passar aos trabalhadores, também por esse meio, uma mensagem sobre o risco nada menosprezável de um regime mais autoritário do que o atual. Porque se é verdade que as eleições, por si mesmas, não definem nenhuma mudança de regime, também é verdade que, do ponto de vista das tendências do bonapartismo, Jair Bolsonaro é o vetor mais apropriado para que elas possam se concretizar no período próximo. Diante disso, os esforços mais singelos não substituem os mais robustos, mas também não devem ser negligenciados.

Por último, não se deve esquecer que, como em tudo, a luta de classes dará a última palavra. Por mais nefasta que seja, essa ameaça que assombra o proletariado brasileiro pode ser enfrentada e derrotada pela organização, pelo trabalho de base e pela luta direta. Um eventual bonapartismo bolsonariano pode sim ser combatido e até mesmo derrubado pela ação coletiva classista, pela greve geral, por uma necessária rebelião contra a ordem existente e contra os seus mais sinistros representantes.

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