Marginália: depoimento de um “marginal” militante

Um pouco da história do movimento símbolo da contracultura no Brasil

Num post que escrevi sobre uma das últimas escrotices do “coiso” – “estes marginais vermelhos serão banidos de nossa pátria” –, fiz uma menção ao trabalho de Hélio Oiticica (“Seja marginal, seja herói”). Como sou “marginal” orgulhoso e militante, em relação ao sistema cujo “centro” é a desumanidade, a exploração e a opressão, e, também, como o “professor em mim” é infernalmente persistente e, ainda mais, adoro a maioria das coisas que este povo fez, vão aí algumas histórias sobre o movimento da “Marginália”, aberto com estes trabalhos, em 1968, e que resistiu até a primeira metade dos anos 1970, meio que se mesclando com a Tropicália.

Primeiro, um pouco sobre Oiticica e seu conceito de “marginal”. Ele é geralmente conhecido pelos seus parangolés (arte “pra vestir”) e instalações (inclusive a que deu nome à Tropicália), mas sua relação com a “marginalidade” fez com que seu trabalho resultasse no símbolo do movimento (a imagem acima), uma das expressões mais radicais da contracultura brasileira, naquela época.

O corpo estendido no chão é de um bandido conhecido como “Cara de Cavalo”, acusado de matar um policial e transformado em uma das primeiras vítimas, em 1964, dos nefastos esquadrões-da-morte (as forças paramilitares da ditadura, avós das milícias e encapuzados por trás das chacinas e que muitos dos seguidores do “coiso” querem transformas em política “oficial do Estado” – mais ainda do que já é).

Frequentador assíduo do morro da Mangueira, Oiticica circulava para lá de tranqüilo em meio à malandragem da época e defendendo (como muita gente na época) uma visão ultra-idealizada de todas e quaisquer formas de marginalidade, vistas, sempre, como uma forma de transgressão dos valores burgueses e fruto das contradições da sociedade capitalista (no que, convenhamos, não estava nada equivocado). Nem é necessário dizer que Oiticica foi acusado e perseguido por fazer “apologia ao crime”.

De qualquer forma, no decorrer dos anos, o próprio  conceito de “marginalidade” foi ampliado ou relido por artistas de distintas áreas e a “Marginália” fez brotar algumas das coisas mais interessantes produzidas durante o período mais sanguinário e sombrio dos anos de chumbo (correspondente ao governo do canalha do Médici).

O chamado “Cinema Marginal” produziu preciosidades como “Câncer”, de Glauber Rocha (1968), “A Margem”, de Ozualdo Candeias (1967), e “O Bandido da Luz Vermelha”, de Rogério Sganzerla (1968). A “Imprensa Marginal” virou porta-voz de todos os marginalizados histórica e socialmente, em publicações como “O Pasquim”, “Flor do Mal”, “Presença” e “O Verbo Encantado”.

Na literatura e na poesia surgiram alguns dos nomes mais interessantes de nossa história, a maioria deles agrupados na chamada “Geração do Mimeógrafo” (em função da divulgação do ancestral equipamento utilizado para fazer cópias). Dentre eles estão nomes como Décio Pignatari, os irmãos Augusto e Haroldo Campos, Waly Salomão (conhecido pela autoria de “Vapor Barato”, mas autor de uma vastíssima obra, como a impagável “Me segura que eu vou dar um troço”, de 1972), Torquato Neto (nosso sensacional “Anjo Torto”, autor, por exemplo, de “Geléia Geral”, a música símbolo da Tropicália e, também, título de uma coluna semana no jornal carioca “Última Hora”).

Estes dois últimos editaram a “Navilouca”, em 1973, uma espécie de almanaque da “Marginália” que foi publicado logo depois do suicídio de Torquato Neto, que selou o fim do movimento (evidentemente também em função dos ataques da ditadura). Outro nome importante da época foi Roberto Piva, apesar de que ele traçou um caminho todo dele, inclusive pelo forte homoerotismo de sua obra, influenciada por Sade, Pasolini, Rimbaud e os surrealistas.

Capítulo à parte e todo especial desta história foi o “trosco” Paulo Leminski, autor de uma vasta obra poética e de maravilhosas biografias, como a de Trotsky, “Paixão segundo a revolução” e de Cruz e Sousa)

E, na música, onde os “marginais” foram conhecidos como “malditos” (uma denominação que, como eles, eu adoro), a lista é uma sucessão de gente da melhor qualidade, como Jards Macalé, Sérgio Sampaio, Capinan, Jorge Mautner e Luiz Melodia.

A existência de vários negros e LGBTs entre eles, com certeza, não é coincidência. E a falta de referências femininas (apesar da importância de atrizes como Helena Ignez) é uma daquelas coisas que só o machismo pode explicar.

Uma das características essenciais do movimento foi a estabelecimento de um vínculo ultra-complexo entre Arte, cotidiano e as violentas metrópoles brasileiras, o que resultou no uso da rua, do espaço público, das intervenções e “happenings” (peças relâmpagos nas ruas, no transporte coletivo etc.) palcos e veículos para a expressão dos artistas.

Apesar de “acusados”, inclusive pela esquerda (cujas concepções artísticas e culturais se encontravam lamentavelmente contaminada pelo conservadorismo reacionário do stalinismo) de “alienados” ou como mera expressão de um “desbunde”, centrada na subjetividade e na individualidade, a Marginália, no entanto, foi um importante grito de rebeldia contra a repressão, o conservadorismo e a falta de liberdades que corriam soltos pelo pais.

Além disso, o caráter “antropofágico” (a história de se alimentar de várias influências) do movimento foi fundamental, inclusive na “retomada” do mínimo de liberdade artística, a partir da derrubada da ditadura, no início dos 1980.

Além disso, a postura dos artistas – fincada no “princípio” de que a arte (particularmente a poesia) é pra ser vivida, não simplesmente “escrita” (pintada, filmada etc.) – carregava um forte questionamento em relação à postura aos papéis da Arte e dos artistas na sociedade capitalista, uma ideia que Torquato Neto esboçou em um de seus textos mais contundentes, “Pessoal e intransferível”: “Escute, meu chapa: um poeta não se faz com versos. É o risco, é estar sempre a perigo sem medo, é inventar o perigo e estar sempre recriando dificuldades pelo menos maiores, é destruir a linguagem e explodir com ela (…). Quem não se arrisca não pode berrar.”

Essa opção pela “marginalidade”, inclusive, tem uma de suas raízes no modernista Mário de Andrade quando este defendia que “o intelectual verdadeiro (…) sempre há de ser um homem revoltado e um revolucionário, pessimista, cético e cínico: fora da lei”, recusando-se a se curvar diante das sociedade burguesa, cujos objetivos, em relação à Arte e à Cultura, são, simultaneamente, manter os “intelectuais” (assim como os artistas) na maior miséria possível e tentar “comprá-los” para que sirvam como condutores servis e “pregador das gloriolas capitalistas, fomentador das pequenas sensualidades burguesas, instrumento de prazer”

Enfim, conhecer esta história, acredito, tem muito a ver com o momento atual. Afinal, todos e todas os “de baixo” há séculos são “marginais” em relação ao sistema. A bandidagem em si e a criminalidade são decorrentes disto. E não de uma suposta “gana assassina e criminosa”, que seja característica e “natural” no povo pobre, negro, periférico etc. É uma expressão da violência que caracteriza o próprio sistema e o Estado Capitalista, que sempre teve as polícias, as  forças armadas e os grupos paramilitares como seus cães de guarda.

Sabemos, Bolsonaro e seus seguidores-militantes (que já estão colocando suas patas e garras pra fora) são, “apenas”, as versões mais escrotas e autoritárias desta característica da burguesia. Mas, se não nos calamos no passado, não vai ser agora que isto irá acontecer.

Muita água ainda irá rolar nos próximos dias e, principalmente, depois das eleições. Mas, o importante mesmo, é que, desde agora, nos preparemos pra, a partir das margens, apoiados “nos de baixo”, “ocupar” o centro da História. Eu, sinceramente, tenho orgulho de ser um “marginal” com longa ficha-corrida (corticeiro, negro, gay e comunista, só pra começar) em relação a este sistema.

E estou convicto de que, mais uma vez, as “margens” irão se levantar, até que sufoquemos, principalmente nas lutas, aqueles que transformaram o “centro” da sociedade num obscuro poço e lamaçal, preenchido pela corrupção, a repressão, o assassinato de ativistas, o racismo, o machismo, a LGBTfobia, a xenofobia e tudo o que há de mais criminoso na sociedade capitalista.

E, por isso mesmo, conhecer a história daqueles que se levantaram contra a ditadura militar, de todas e qualquer forma, é fundamental neste momento. Inclusive para, assim como Torquato, o “medo” que assombra muita gente hoje seja transformado em criatividade (política, artística e social) na escolha das formas de luta. Que os riscos que, certamente iremos correr caso o coiso seja eleito, se transforme em um berro de rebeldia.

Wilson Honório da Silva, da Secretaria Nacional de Formação do PSTU