Encontro de Lula com parlamentares do PSOL, 05 Outubro.

O congresso do PSOL, realizado neste ano em forma “híbrida”, jogou luz em importantes mudanças que este partido está vivendo.

Uma delas, organizativa e que vem de algum tempo, é a confirmação de que o partido é cada vez mais uma organização de filiados e menos de ativistas e militantes engajados. Com 220 mil filiados aptos a participar das discussões, somente cinco mil estiveram presentes nos múltiplos debates virtuais entre as diversas correntes e blocos que se formaram no período congressual. Ou seja, pouco mais de 2%. No entanto, na votação presencial, e em urna, apareceram 50 mil pessoas para votar.

A movimentação da maioria da direção do PSOL atuou de forma nítida em separar o momento da discussão e o da votação, concedendo a todo aquele que tem a carteirinha do PSOL o direto de ir votar, independentemente de ter participado ativamente do congresso, de ter ouvido os múltiplos argumentos existentes. Ou seja, tem direito de decidir sobre o partido não os militantes ativos do dia a dia, mas a massa de filiados com pouca ou nenhuma obrigação ou compromisso como o partido.

Essa mudança, ou melhor, a consolidação da mesma, diz muito sobre o futuro do PSOL. Ao deixar de tomar decisões em reuniões e assembleias e passar a toma-las em plebiscitos, o que ocorrerá, também, será a consolidação dos grupos que tem mais condições para “mover” os eleitores até a urna. Quem possuir mais carros, mais gente, enfim, mais recursos, inevitavelmente terão melhores condições para competir pela direção e os rumos do partido.

Esses recursos estarão nas mãos daqueles que tem mais mandatos e, também, dos que dominam o aparato interno do partido.

O Congresso avança em direção à Frente Ampla com o PT

Junto à consolidação dessa mudança, o congresso também tomou uma decisão politica bastante importante. A de que não existe, até o momento, qualquer pré-candidatura a presidente da república pelo partido, desautorizando a proposta do lançamento de Glauber Braga pela esquerda do PSOL. Há claros indícios de que não haverá candidato a presidência da República no próximo ano. Inclusive, a candidatura de Boulos ao governo do estado de São Paulo não ficou definida como algo irrevogável.

Toda a politica votada no congresso indica para que o PSOL busque construir uma “frente ampla” com o PT, independentemente das forças que esse partido junte ao seu redor para ganhar as eleições de 2022.

Essa decisão é transcendental para este partido que surgiu a partir da conclusão de que o PT estava morto para as transformações sociais, nas palavras de ninguém menos que Juliano Medeiros, e que era necessário construir outro partido.

Esta conclusão veio da decisão do governo Lula de levar adiante a primeira reforma da previdência que atingiu, em 2003, os funcionários públicos federais. Desde então, os ataques do PT aos trabalhadores em várias instancias só aumentou, bem como sua “abertura” às forças conservadoras, como bispos evangélicos do perfil de Marcos Feliciano ou Malafaia.

No Rio, com Freixo?

Essa politica de frente ampla no Rio de Janeiro vem se expressando há muito tempo por Freixo. O deputado estadual, e uma das mais importantes figuras públicas do partido, não apenas vem defendendo uma proximidade com o PT, mas, desde pelo menos o início da pandemia, em 2020, tem demonstrado uma vontade de construir uma frente com todos os que estão contra Bolsonaro. Não por acaso, uma de suas frases de efeito predileta é que “a disputa no Rio não é entre direita e esquerda, é entre o crime e a democracia”.

Freixo saiu do PSOL no início desse ano e foi para o PSB e, desde então, vem exercendo uma campanha politica frenética para conseguir aliados por todos os lados. Ninguém ficou de fora, da família Garotinho em diante todos são interlocutores deste candidatíssimo, que já acenou também para Maia e Paes, em busca de alianças.

A verdadeira dúvida sobre Freixo, recai no fato de que o PT é capaz de tudo, como tem demonstrado as declarações dos petistas André Ceciliano e Washington Quaquá, que acenam desavergonhadamente para o atual governador do estado, Claudio Castro, um bolsonarista assumido.

O que fará a esquerda do PSOL?

Enquanto isso, no PSOL, inclusive a sua ala esquerda, guarda um ensurdecedor silêncio sobre o que o partido fará nas próximas eleições. Freixo é, sem dúvida, a materialização mais genuína na politica de frente ampla no Rio de Janeiro. A água corre para esse moinho.

Neste contexto, a esquerda do PSOL tem readequado seu discurso. Em primeiro lugar, partido de um dado real, de que tiveram em torno de 44% dos delegados ao congresso nacional desse partido, esse setor tem minimizado a derrota que sofreu a politica de candidatura própria já. Na verdade, alguns inclusive ensaiaram anunciar que foi uma vitória, já que não se votou frente com o Lula no primeiro turno já, por parte da ala majoritária.

Aqui vale um parêntese, todos sabem o porquê a ala majoritária não votou frente com Lula já. O motivo foi ter tempo pra negociar melhor essa adesão ao petista.

O segundo movimento que a esquerda faz é o de dizer que a verdadeira batalha se travará na conferência nacional deste partido, onde, aí sim, poderá sair vitoriosa a politica de uma candidatura própria do PSOL para disputar o primeiro turno das eleições de 2022 e, dessa maneira, buscar manter viva a campanha de Glauber Braga à presidência.

No geral, as correntes organizadas na esquerda do PSOL apresentam a proposta de que, no primeiro turno, esse partido se lance a construir uma frente de esquerda com o PSTU, o PCB e a UP.

Um setor da esquerda do partido, o MES, já ensaia uma nova retirada ao dizer que a batalha decisiva será a de que o PSOL não pode entrar num futuro governo Lula, e que seria isso uma ruptura com o projeto do partido e não um apoio a Lula no primeiro turno, cenário cada vez mais provável.

Outros setores optam por uma tática mais cuidadosa, de não dizer o que fazer caso se concretize o que já está anunciado. O que farão essas correntes se o PSOL resolver apoiar o a candidatura de Lula no primeiro turno? O silencio dessas correntes sobre isso, como se tal hipótese não existisse e não fosse a mais provável nos próximos meses, é a demonstração mais importante das contradições em que elas se batem.

A mesma pergunta pode ou deve ser feita em nível estadual, qual será a politica da esquerdado PSOL se, ao final, a candidatura de Freixo se impor no estado do Rio?

Com a palavra, a esquerda do PSOL.