Após a decisão de apoio à chapa Lula-Alckmin e a conformação de uma federação partidária com a Rede Sustentabilidade, grupos e militantes individuais têm rompido com o PSOL. No último dia 6, uma carta de ruptura coletiva foi divulgada na internet com assinaturas de dezenas de militantes, entre eles, a do economista, professor aposentado e editor-geral do portal Contrapoder, Plínio de Arruda Sampaio Júnior.

O Opinião Socialista conversou com o Plínio sobre esse processo de ruptura do PSOL e os desafios da esquerda socialista brasileira, frente à necessidade da afirmação de um projeto de independência de classe para combater Bolsonaro e seu projeto de ditadura, bem como, o projeto de conciliação de classes capitaneado pelo PT, abraçado pelo PCdoB e o PSOL.

A carta de ruptura coletiva afirma que direção adaptou o PSOL aos parâmetros da institucionalidade burguesa e banindo a defesa do socialismo. Como se deu esse processo?

Plínio – A crise do PSOL é uma crise quase que permanente. Foi um partido criado como uma alternativa ao PT, contudo, desde o início o debate para a superação do PT foi bloqueado. Então, o PSOL que se pretendia como uma superação do PT terminou sendo, na sua existência, uma espécie de balsa de náufragos do PT, que se organizavam em forma de federação de conveniências de estratégicas e políticas no dia-a-dia.

Esse bloqueio ao debate começou a mudar a partir da crise institucional de 2016 com a deposição da Dilma. A partir daí, o PSOL começou a sofrer uma forte pressão para não fazer o debate e se reenquadrar na órbita do PT.

O primeiro movimento disso foi a entrada do Boulos já com a missão de ser candidato a presidente em 2018. Esse processo foi se aprofundando e culminou com a decisão da direção do partido de fazer uma aliança, já no primeiro turno, com Lula e o Alckmin e a formação de uma federação com a Rede Sustentabilidade, organização que o próprio nome já diz o que ela é: uma tremenda farsa.

Esses duas decisões foram o estopim para a ruptura com o PSOL?

Sim. Foi a pá de cal. Porque, a partir dessas duas últimas decisões, o PSOL perdeu por completo sua capacidade de intervir na política brasileira com independência de classe. Isso precipita uma crise profunda dentro do partido. Esta crise está só começando. Ela já vinha de antes, mas ela muda de qualidade, porque os militantes que têm compromisso com a revolução socialista e com os interesses estratégicos e imediatos da classe trabalhadora começam a ficar desconfortáveis dentro do partido.

Essa mudança de qualidade do partido leva a que?

No fundo, o que estamos assistindo é o início da crise do PSOL como um partido socialista. É o início do fim, digamos assim, que se desdobrará em várias diásporas, que vão saindo do PSOL de maneira desigual no tempo.

Vocês travaram uma luta interna contra essa mudança de percurso. Como se deu esse embate?

Quando percebemos que já tinha uma decisão tomada pela direção do partido de compor uma aliança, logo no primeiro turno, com Lula e Alckmin, organizamos uma carta intitulada ‘PSOL na Encruzilhada’, que recebeu quase mil assinaturas. Foi uma carta de diálogo com a militância, já que toda a decisão da direção era a revelia de um debate interno.

A carta alertava sobre a importância de termos uma candidatura própria, como único meio de termos uma voz nas eleições – uma voz que fizesse um contraponto à esta ofensiva imensa do capital sobre o trabalho – e alertando sobre o significado da aliança com a Rede Sustentabilidade, da Marina Silva.

A ruptura vem na sequência desse embate?

Sim. Rompemos e lançamos uma carta de saída coletiva, que está circulando e já tem cerca de 250 assinaturas. O mais importante desse processo é o debate que esta carta está provocando dentro do partido. Porque todas essas decisões tomadas no PSOL foram de cima para baixo, sem debate. A ideia era criar o debate e este debate está criado. Há uma grande efervescência na esquerda do partido, mas não só. Mesmo os setores que estão, digamos assim, na ala direita do partido tem militante assinando a nossa carta. Internamente, tem muita gente insatisfeita. A militância está, depois de muito tempo, discutindo os rumos do PSOL. Esse era o nosso principal objetivo com a carta.

Qual a perspectiva pós-ruptura?

A perspectiva é primeiro fazer uma crítica profunda à experiência do PSOL, para entendermos o que houve. Para isso, estamos organizando seminários, sem prazo de tempo de encerramento dos debates, porque o objetivo não é escrever um documento logo em seguida, mas buscar ter uma compreensão coletiva de porque o PSOL teve a trajetória melancólica que teve.

A partir deste movimento, clarear o que fazer. Desta turma que sai do PSOL, uma parte vai se dirigir ao Polo Socialista Revolucionário, como uma primeira instância de acolhimento e ação política. A outra parte reluta ainda em tomar qualquer outra decisão e vai discutir um pouco mais para onde ir. Uma parte sai muito escaldada, pois a experiência com o PSOL, principalmente no último período, foi muito traumática. Foi um golpe atrás do outro.

Há dúvida sobre o que fazer, para onde ir. Pois ainda não há um espaço de organização da esquerda revolucionária em uma ação coletiva, que é a ideia do Polo Socialista Revolucionário. Mas não podemos hoje pedir ao Polo, mais do que ele pode dar. Ele é o início, é uma iniciativa em construção.

Você acha que esses que romperam com o PSOL vão vir para o Polo e votar na Vera?

Todos que romperam olham com muita simpatia para a campanha da Vera. Ela é uma militante revolucionária com muita simpatia pela esquerda. Provavelmente, todos votam na Vera, mas uma parte reluta em fazer qualquer outra experiência antes de ter uma noção mais clara sobre o que aconteceu com o PSOL.

A tarefa de reorganizar o movimento comunista é uma tarefa grande e urgente. Não é uma tarefa só brasileira é uma tarefa mundial. Eu sou, particularmente, muito simpático ao projeto do Polo Socialista Revolucionário. Estou na coordenação do Polo e acho que ele deve ser um espaço para que permita este tipo de debate, de maneira aberta e fraterna.

Para isso, temos que enfrentar o capital e fazer uma revolução. O desafio é grande, porém, acho que as organizações hoje estão aquém ao tamanho do desafio. Isso temos que começar a pensar com muita coragem e firmeza.

Você vai fazer campanha pra Vera? Vai votar na Vera?

Eu vou chamar o voto na Vera. Vou votar na Vera. Já votei na Vera antes. Mas vou seguir pregando a unidade da esquerda. Sou defensor de uma frente de esquerda, porque acho que esquerda tem que estar unida, para termos uma força mínima para podemos entrar em campo.

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