Arte de Otoniel Oliveira

Maio acabou e é um mês emblemático e muito importante para o povo negro brasileiro, descendente da Diáspora Africana e daqueles e daquelas cujos corpos foram escravizados no continente americano, em particular, no Brasil. Em maio, dia 13, data de uma abolição sem reparações, completaram-se 134 anos da assinatura da lei Áurea, feita, a peso de uma pressão internacional em especial da Inglaterra, pela Princesa Isabel. Uma lei que, na prática, não garantiu condições concretas e dignas com políticas consistentes para negras e negros.

Por isso, o 13 de maio não é uma data para se comemorar. Ao contrário. É uma data de denúncia nacional do racismo, que só no ano de 2022, no estado de São Paulo, registrou denúncias de injúria racial e racismo, de janeiro a abril, que superaram as que foram feitas em todo o ano de 2021, segundo a Ouvidoria da Secretaria Estadual da Justiça e Cidadania. Foram 174 denúncias de discriminação racial no primeiro quadrimestre deste ano ante 155 registrados durante todo o ano passado.

Maio é também um mês marcado por tragédias e violências raciais que ceifaram a vida de negros, no Brasil e no mundo. Foi em 25 de maio de 2020, no auge da pandemia do Coronavírus, que George Floyd um afro-americano de 47 anos, foi estrangulado por um policial branco que se ajoelhou por 9 minutos em seu pescoço, sem o deixar respirar, por conta de uma abordagem policial violenta. A morte de Floyd foi filmada para o mundo todo ver, e a frase que ele proferiu: “Não consigo respirar”, causou dor e revolta que se materializou em protestos e manifestações de rua que varreram o planeta. Dois anos depois, exatamente num 25 de maio, outro crime bárbaro, filmado, praticado por agentes de segurança, choca o Brasil e o mundo. A morte de Genivaldo Jesus dos Santos.

Genivaldo, homem negro, 38 anos, casado e pai de um filho, tinha esquizofrenia e tomava remédio controlado há cerca de 20 anos. Foi morto por três agentes da Polícia Rodoviária Federal de Sergipe, numa das violências policiais mais brutais já flagradas e vistas no Brasil. Ele foi imobilizado, agredido por 30 minutos e asfixiado, dentro de um camburão de uma viatura que serviu como câmara de gás. Uma barbárie tão cruel e violenta como foram as mortes de Floyd, DG, Claudia, Amarildo e tantos outros. A ação dos agentes da PRF choca, entre outras coisas, por remeter aos métodos de tortura praticados por militares na época da Ditadura e relembrar os horrores das vítimas do Holocausto Nazista, que morreram no campo de concentração de Auschwitz.

Esse foi o mês também da Operação Policial mais letal da história do Rio de Janeiro. Em 2021, o Massacre na Favela do Jacarezinho deixou como saldo 28 mortos. Por outra coincidência trágica, no último dia 24, numa operação da Polícia Militar do Rio de Janeiro, em conjunto com a PRF e a Polícia Civil, na Vila Cruzeiro, 23 pessoas foram mortas. A polícia alega que a maioria das vítimas eram suspeitas de envolvimento com o tráfico. Entre os mortos, uma cabeleireira atingida por bala perdida dentro da própria casa e um menor. A pena de morte institucionalizada pela Polícia Militar, ainda que não oficial, segue abatendo corpos pretos. O Genocídio Negro segue gritante num país cujo mito da Democracia Racial nunca foi tão falso, está morto junto aos corpos tombados no Brasil onde a carne mais barata do mercado, continua, 134 anos depois, sendo a negra.

Como se já não bastasse essa onda de violência e mortes contra corpos pretos, impetradas pelo Estado racista brasileiro, numa conjuntura de crise econômica e sanitária, num governo cujo presidente racista declarado impõe ataques de conjunto à classe trabalhadora e aos setores oprimidos da mesma, Negros, Mulheres, LGBTI’s, recebemos a triste notícia, neste 30 de maio, da morte de uma referência negra na Cultura Brasileira e nas Artes. A morte de Milton Gonçalves, 88 anos, em decorrência de complicações de um AVC que sofreu em 2020. Um dos maiores artistas negros do Brasil. Milton, contrariando as estatísticas raciais e sociais, deu voz e corpo à personagens importantes na dramaturgia que expressavam representatividade e consciência, no Cinema, Teatro e Televisão.

De trabalhador gráfico a estrela das Artes Cênicas

Milton Gonçalves era mineiro de Monte Santo e começou a carreira na cidade de São Paulo. Ele trabalhava como gráfico quando, um dia, ao assistir uma peça de teatro chamada “A Mão do Macaco”, a convite de um colega que era ator, saiu encantado com o ofício e resolveu entrar para um clube de Teatro Amador. Logo depois, entrou para o Grupo Profissional. Milton fez parte de um momento histórico do Teatro Nacional e de um dos movimentos artísticos mais importantes da Dramaturgia: O Teatro Arena. Foi Augusto Boal, diretor, quem o convidou para interpretar um Preto Velho na peça “Ratos e Homens”, peça baseada num livro de John Steinbeck, de 1937, que conta a trágica história real de trabalhadores rurais da Califórnia na Grande Depressão. Milton era filho de trabalhadores rurais e foi pequeno com a família para São Paulo. Além de gráfico, foi alfaiate e aprendiz de sapateiro.

Foi no Teatro Arena de São Paulo que Milton conheceu outros artistas importantes do Palco, com quem viria a trabalhar outras vezes: Gianfrancesco Guarnieri, Flavio Migliaccio e Oduvaldo Viana, entre outros. O Teatro Arena foi uma verdadeira escola para Milton, que tinha apenas cinco anos de escolaridade. Lá estudou, além da história do Teatro, filosofia, impostação da voz (Milton tinha um vozeirão), arte e política. Foi autor de quatro peças. Participou de outro movimento importante, o Teatro Experimental do Negro (TEN), que surgiu em 1944 no Rio, fundado por Abdias do Nascimento que tinha como foco a valorização social do Negro e da Cultura Afro-Brasileira por meio da educação e arte. Milton diria que no Teatro Experimental do Negro, aprendeu tudo o que sabia e que o TEN teria sido fundamental, para a sua compreensão do mundo.

Entretanto, foi no Cinema e especialmente na Televisão, que Milton ficou conhecido do grande público e teve papéis marcantes que ficaram na memória do país. Milton foi o primeiro ator contratado da TV Globo, em 1965, antes de a emissora ser oficialmente fundada. Na década de 70, como um dos primeiros funcionários do elenco de atores da Rede Globo, participou de uma das novelas mais importantes da Teledramaturgia Brasileira: Irmãos Coragem, como Braz Canoeiro. Participou nesta década também de outras novelas importantes e em “O Bem Amado”, novela de Dias Gomes que falava de um político corrupto que vivia numa cidade pequena. Milton conquistou o público com o personagem Zelão das Asas, o homem que queria voar numa clara alusão ao mito de Ícaro que queria deixar a Ilha de Creta, voando com seu pai, mas acabou morrendo ao voar muito alto, próximo ao Sol. Diferente da tragédia grega, Zelão voa no final da novela em uma cena comovente onde a cidade para assistir o homem voando sobre eles. Uma clara metáfora à liberdade do homem, em plena Ditadura Militar.

Milton Gonçalves como Zelão das Asas, em O Bem Amado

Milton, além de ator, foi diretor e sempre defendeu que negros tivessem papéis importantes nas tramas televisivas, para servirem de exemplo para gerações mais novas. Falou sobre isso com a autora de novelas Janete Clair, depois de ter pedido a Dias Gomes, que escreveu para ele o personagem Dr. Percival, um médico no grande sucesso “Pecado Capital’, em 1975”. Nessa trama, Milton enfrentou o racismo do público que não aceitava o romance do personagem dele com a personagem da atriz Teresa Mayo, uma mulher branca. Em Sinhá Moça, na segunda versão de 2006, ele emocionou o público ao viver as dores de um Preto Velho escravizado, Pai José, que na trama tem muitos filhos porque era o escravo reprodutor da Fazenda e sonhava com a liberdade. Por esse papel, Milton foi o primeiro ator brasileiro a ser indicado ao Emmy Internacional por sua atuação e chegou a apresentar a Premiação ao lado da atriz Susan Sarandon.

Em 2008, Milton dividiu opiniões e causou polêmica no Movimento Negro ao interpretar o político corrupto Romildo Rosa, na novela “A Favorita”, de João Emanuel Carneiro, que está sendo reprisada agora pela Rede Globo, no horário da tarde. Chegaram a insinuar que o personagem “atrapalharia” candidaturas negras nas eleições daquele ano e prejudicaria os candidatos, inclusive a candidatura do então senador na época, Barack Obama, que estava disputando a presidência dos EUA. Milton rebateu na hora as acusações e críticas, dizendo trata-se de “sandice”. E falou: (…) o negro está associado ao mal quando ele ocupa o lugar dele na sociedade. Mas se fotografarmos o Congresso, o Senado, os ministérios, não vemos negros. Não é um personagem esporádico na teledramaturgia que atrapalha. “O que atrapalha é a falta de visão, a falta de estudar melhor a história do Brasil”, enfatizou.

No Cinema, Milton Gonçalves interpretou papéis importantes que discutiam a questão de classe e dialogava com os setores oprimidos. No fim dos anos 60, Milton fez parte do elenco de “Macunaíma”, de Joaquin Pedro de Andrade, adaptado do livro homônimo de Mário de Andrade. Filme protagonizado por Grande Otelo e Paulo José em cima de uma história polêmica sobre um Anti-Herói Negro, nascido no sertão que vira Branco e vai morar na cidade. Na película, Milton faz o personagem Jiguê, irmão do protagonista.

Em 1974, Milton fez o filme “A Rainha Diaba” de Antonio Carlos da Fontoura, onde interpreta um homossexual e chefe de uma quadrilha de traficantes. Por esse papel, ele ganhou quatro prêmios cinematográficos: o Troféu Candango, do Festival de Brasília, o Air France, a Coruja de Ouro e o Governador do Estado. Em 1981, um dos seus papéis mais marcantes da história do Cinema é em um dos filmes mais importantes da Cinematografia Nacional: Milton foi o operário Bráulio, no clássico “Eles Não Usam Black Tie”, adaptação da peça homônima de seu amigo e parceiro Gianfrancesco Guarnieri, dirigida por Leon Hirzman.

Cena de ‘Eles não usam black-tie’

Milton protagoniza neste filme uma cena antológica, quase no final: a morte de Bráulio, no meio de uma greve de trabalhadores que estão lutando contra a patronal por melhores salários. Numa cena clássica, dramática e muito bem filmada num confronto entre trabalhadores e policiais, o personagem de Francisco Milani inflama os trabalhadores a irem pra cima, enquanto Bráulio, personagem do Milton, pede calma e que não haja violência. É nesse momento em que um dos seguranças bate-pau da patronal, orientado por outro que diz para ele atirar no “Crioulo”, mata Bráulio com dois tiros. A morte de Bráulio no filme simboliza a combinação trágica entre a opressão racial e exploração sobre a classe, bem como retrata como o racismo divide os trabalhadores e como os negros, especialmente no Brasil, são alvos fáceis da violência do Estado e seus agentes. Qualquer semelhança com a realidade, não é mera coincidência.

Militância Negra e os limites da luta contra o Racismo no Capitalismo

Milton, como um homem consciente de seu papel como artista e que, convivendo com gente como Gianfrancesco Guarnieri e Francisco Milani, sofreu a influência comunista marcada na militância desses artistas e de outros, tornou-se também um militante no combate ao racismo e para que os negros ocupassem outros espaços, sobretudo nas Artes, que não fosse ao lugar da subalternidade. Chegou a dizer em entrevistas que sabia de sua importância e do que tinha conquistado, mas que não estava sozinho. Gostava de contar a história de quando criança, em São Paulo, a Avenida Paulista era cheia de mansões e ele um dia, passeando por lá, ouviu de um Guarda que lá não era lugar para negro passear. Milton dizia que esse episódio racista, ficou na sua cabeça por muito tempo e o alimentou para lutar pelos direitos dos Negros e Negras.

Quando entrou para o Teatro Arena, Milton era o mais pobre e as diferenças de Raça e Classe apareciam, visto que ele era o único ator Negro da Companhia. Infelizmente, por conta do papel contrarrevolucionário que cumpriu o Stalinismo no combate às opressões, além de outros problemas internos como o racha do Arena, afastaram Milton de uma militância mais orgânica. A conjuntura da época também não favorecia. Era 1964 e o medo e a crítica de setores conservadores com o avanço do “comunismo”, a ameaça do Golpe Militar se aproximava.

Milton era próximo ao PCB e chegou a ser convocado para proteger o antigo prédio da UNE, no Rio de Janeiro, de uma invasão pelos militares. Ele foi e quase morre junto ao amigo Haroldo de Oliveira, outro ator negro,  que foi alvejado por 2 tiros, no famoso ataque ao prédio da entidade estudantil. Era 1° de abril.

Milton não vira um Militante Comunista, mas segue, nas Artes, no seu ofício de ator, a militância por mais negros com papéis de destaque na TV. Faz política de outro jeito e acaba cedendo à ilusão de depositar esperanças na Democracia Burguesa, ao se lançar candidato ao governo do Rio de Janeiro, em 1994, pelo então PMDB (atualmente, MDB), partido de raposas como Michel Temer e Jáder Barbalho. Ele obteve 278 mil votos que correspondia a 4,52% do eleitorado. Quem ganhou a eleição naquele ano foi Marcello Alencar (PSDB), derrotando Garotinho (PDT).

Chegou a concorrer à presidência do Clube de Regatas Flamengo, uma de suas paixões, e ocupou cargos públicos como a Superintendência Regional da RadioBrás Setor Sul (de 1985 a 1986) foi membro do Conselho de Cultura do Estado do Rio e do Conselho de Artes do Paço Imperial. Em 2017, mesmo eleito como novo Presidente da Fundação do Theatro Municipal do Rio, foi exonerado do cargo duas semanas depois por “conflito de interesses”.

Milton enquanto Artista e Militante tentou ocupar os espaços de poder por acreditar na questão da “Representatividade” como forma de “reparar” a ausência de Negros na política. Chegou a dizer em entrevista que o que faltava no Brasil era um presidente negro, que isso o deixaria alegre. “No dia em que nós tivermos um presidente negro, aí eu vou dizer: nós batalhamos”, afirmou.

Barack Obama foi eleito em 2008 como Presidente dos EUA e reeleito depois. Apesar de toda a alegria e esperança que viveu o povo afro-americano e outros negros ao redor do mundo, inclusive no Brasil, com sua eleição, isso não significou uma mudança de fato, na vida de negras e negros. Nem acabou com o Racismo lá, pelo contrário. O Presidente era negro, mas a Casa continuou Branca, pois os interesses que Obama defendia, era os da classe dominante, burguesa, branca e racista.

Mesmo Milton acreditando que um Presidente Negro no Brasil seria uma vitória para o povo Negro Brasileiro, isso só seria se estivéssemos numa outra sociedade que não a Capitalista. No Capitalismo, há limites na luta contra o racismo e todas as demais formas de opressão porque elas alimentam o sistema e são combinadas de forma desigual, com a exploração. Portanto, a representatividade também serve aos interesses da classe dominante. Só acabando com o Capitalismo e toda a forma de opressão e exploração, é possível, numa sociedade socialista, criar as condições de possibilidades para que enfim, tenhamos uma Representatividade, de fato, da classe, que é negra, feminina, com LGBTI’s e diversa.

Dito isso, Milton Gonçalves, mesmo com todas as limitações, foi um dos maiores artistas desse país. Sua luta e seu ativismo pela representação negra nas Artes, foi fundamental para uma geração de atores e atrizes negras deste país e seguirá para as gerações futuras. Se existe “Medida Provisória”, como filme, é por causa de Milton Gonçalves. Um exemplo, um Mestre, que agora, cumprida a missão, ancestralizou, voou para o Orum.

Obrigada, Mestre!