Lula, Freixo e outros setores de esquerda discutem frente ampla Foto Ricardo Stuckert

No decorrer dos sete artigos anteriores dessa série, tratamos de explicar e polemizar com as diferentes propostas que constituem o programa dos partidos e correntes que se autodenominam “progressistas”.

Procuramos demonstrar que propostas tais como distribuição de renda, justiça social, tributação dos ricos, inclusão dos oprimidos, capitalismo racional, “viver bem”, solidariedade dos países ricos com os países pobres e outras, podem ser bem-intencionadas, mas são ilusórias, precárias, temporárias e, portanto, não solucionam a situação dos trabalhadores e explorados quando aplicadas no interior do sistema capitalista mundial, caracterizado pela exploração e opressão.

Leia os artigos anteriores

Agora, no artigo final desta série, vamos analisar a natureza do chamado “campo progressista”, no Brasil e no mundo, e explicar o que é a “teoria dos campos” que fundamenta essa proposta política.

O “campo progressista”, segundo seus próprios componentes, é formado por partidos de esquerda (como o PT, PC do B e PSOL), outros partidos que são de esquerda no nome, mas que na verdade são burgueses (como o PDT e o PSB); centrais sindicais, movimentos sociais (como o MST, MTST, CMP, Marcha de Mulheres, Coalizão Negra), ONGs e setores da burguesia liberal.

Campo progressista hoje

Hoje em dia, o “campo progressista”, liderado por Lula defende uma Frente Ampla com as forças de “centro-direita”, ou da direita “civilizada” ou direita “democrática” (seja lá o que isso signifique) para derrotar Bolsonaro. Essa Frente Ampla incluiria até o PSD de Gilberto Kassab, Alexandre Kalil, prefeito de Belo Horizonte (MG); Rodrigo Maia, Eduardo Paes; setores do MDB como Renan Calheiros, José Sarney, Roberto Requião e outros.

A justificativa para essa aliança, segundo o deputado Marcelo Freixo – que recentemente deixou o PSOL para aderir ao PSB e, segundo ele, ser o candidato dessa Frente Ampla ao governo do Estado do Rio de Janeiro – é que se trata de uma luta entre a “civilização” e a barbárie, representada pelo “fascismo” agrupado em torno de Jair Bolsonaro.

Unidade de ação pra derrotar Bolsonaro

Vamos analisar esses argumentos, um por um. Em primeiro lugar, não temos dúvida que Bolsonaro é a cara mais brutal da barbárie capitalista por tudo o que representa: a política genocida em relação a pandemia; o “negacionismo” da ciência; os ataques aos trabalhadores e aos setores oprimidos (mulheres, negros, indígenas, LGBTs), e os ataques às liberdades democráticas.

Também está claro que o projeto de Bolsonaro é implantar uma ditadura militar no Brasil, se conseguir reunir condições para isso. Por tudo isso, estamos de acordo em que é preciso derrotar Bolsonaro. Isso é URGENTE e imediato. Estaremos juntos com qualquer setor ou organização que esteja disposto a mobilizar, a lutar para defender as liberdades democráticas e a derrubar esse governo. Fora Bolsonaro e Mourão!

Mas, a partir daí, aparece uma primeira divergência. A principal forma de derrotar Bolsonaro não é nas eleições que são daqui a um ano e meio, mas sim colocá-lo para fora, JÁ, e isso só pode ser feito com mobilizações de massa, nas ruas, a exemplo dos atos de 29 de maio e 19 de junho, intensificando essas lutas e combinando-as com uma greve geral sanitária.

Ato em São José dos Campos Foto Roosevelt Cassio
Tragédia

A barbárie é o capitalismo

Mas, a tarefa dos trabalhadores e dos setores populares não termina com o fim desse governo nefasto. Bolsonaro é uma cara brutal da barbárie, mas é só uma expressão dela. A verdadeira barbárie é o capitalismo. A pandemia revelou em forma aguda o que hoje é um fato evidente: o capitalismo está conduzindo a humanidade para o abismo.

A crise sanitária, o verdadeiro genocídio que atinge milhões de pessoas que não tem acesso às vacinas e ao sistema de saúde; a crise econômica e social, o desemprego, a fome, a precariedade laboral; a destruição da natureza e o aquecimento global; a violência e a repressão de governos cada vez mais autoritários, tudo isso mostra que ou acabamos com o sistema capitalista ou o capitalismo vai terminar de empurrar o gênero humano e todo o planeta para a barbárie.

A classe trabalhadora, unida a todos os setores explorados e oprimidos, é a única que pode acabar com esse sistema porque não tem propriedades nem riquezas a perder com seu fim.

A burguesia, ou seja, a classe proprietária das multinacionais, das grandes empresas industriais e comerciais e dos grandes bancos de todo o mundo, aliada com os militares, funcionários privilegiados e políticos corruptos, luta para manter essa situação às custas da exploração dos trabalhadores. Para isso, usa os governos e as forças armadas para reprimir quando os explorados e oprimidos se insurgem contra essa situação e se levantam contra ela.

Para os socialistas, a sociedade capitalista se divide em classes e as principais são a burguesia e a classe trabalhadora. Existem dois campos de classe. Em um campo, burguesia, incluindo todos os setores inclusive os liberais e o imperialismo. No campo oposto, estão o proletariado, os setores populares, camponeses e todos os explorados.

Há uma luta de classes permanentes entre esses dois campos. Esse é o verdadeiro enfrentamento. Isso é o que explica todos os conflitos e lutas em todo o mundo. Mas, se a luta é entre classes, onde fica o tal “campo progressista”, ou sua versão atual, a tal Frente Ampla?

Colaboração de classe

O que é o “campo progressista”?

A “teoria dos campos” toma como base a ideia de que a sociedade não está dividida em campos de classe, mas sim entre um “campo reacionário” formado pela burguesia reacionária, pelos fascistas, pelos golpistas, etc, e por um “campo progressista” onde estariam os partidos de esquerda, as organizações do movimento popular, a burguesia liberal e o imperialismo “democrático”.

Essa “teoria” não é nova, já tem mais de um século. Os mencheviques defenderam um “campo progressivo” para derrotar o Czar, durante a Revolução Russa. Em 1935, no VII Congresso da Internacional Comunista, o stalinismo elevou a teoria dos “campos” ao âmbito internacional com a política adotada da Frente Popular, que deveria unir em um mesmo campo todas as forças “democráticas e progressistas” (inclusive o imperialismo “democrático”, inglês, francês e norte-americano) para enfrentar o fascismo. Também defenderam formar frentes com a burguesia “nacional” nos países periféricos.

Limites

O problema é que o “campo progressista” é um campo de clara defesa de sistema capitalista porque, na medida em que a burguesia participa, impõe um limite claro: respeito à propriedade privada, ao mercado, ao lucro, respeito às instituições do Estado burguês e repressão a qualquer luta que se dirija contra qualquer um desses pilares do capitalismo.

Uma Frente ainda mais Ampla, defenderá sem dúvida políticas neoliberais tais como a Reforma da Previdência, Reforma Trabalhista, Lei das Terceirizações e as privatizações. Esse é claramente o programa de figuras como Rodrigo Maia, Gilberto Kassab, Eduardo Paes e outros.

O “campo progressista” e, mais ainda uma Frente Ampla, é uma frente de colaboração de classes entre a burguesia e os partidos e organizações oportunistas de trabalhadores. Ou seja, uma frente comum de colaboração política com o inimigo de classe com o único objetivo de impedir ou desviar as lutas dos trabalhadores e dos setores populares que possam se aproximar da revolução socialista.

Projeto de governo

O papel reacionário do “campo progressista” se acentua ao máximo quando este chega ao governo porque passa a ser o líder do “campo” capitalista já que exerce o poder do estado burguês e o defende.  A longa experiência de 13 anos dos governos de Lula e Dilma, mostram isso com clareza: políticas neoliberais na economia, envolvimento com a corrupção, atrelamento do movimento sindical e popular e reformas mínimas que nem mesmo se consolidaram.

No entanto, diante das barbaridades do governo Bolsonaro muitos companheiros que querem derrubá-lo perguntam: não seria correto formar uma Frente Ampla com todos os que estão contra Bolsonaro, até mesmo os burgueses, para vencer as eleições de 2022? Isso é, derrotar primeiro o “fascismo”, unindo todos os “democratas”? Uma Frente da “civilização” contra a barbárie, como alega Marcelo Freixo?

O problema é que o “campo progressista” ou uma Frente Ampla para as eleições de 2022, não se limitará a derrotar Bolsonaro. Será, principalmente, um projeto político burguês para governar durante 4 anos. E esse projeto será necessariamente neoliberal.

Alguém acha que Rodrigo Maia, Kassab, Renan Calheiros ou Kalil vão enfrentar a barbárie e lutar por uma missão “civilizatória” ou, ao contrário, vão defender de unhas e dentes as contrarreformas neoliberais que já vem aplicando?

Luta de classe

Independência de classe para preparar o caminho da Revolução Socialista

Detalhe do 19J em São José dos Campos Foto Roosevelt Cassio/SindmetalSJC

Existem atritos e choques entre diferentes setores burgueses, mas a classe operária deve aproveitar essas contradições para fortalecer sua luta e sua independência e não para apoiar um campo burguês, por mais que esse se coloque como “progressista”.

Às vezes esse enfrentamento entre setores burgueses pode chegar até a um enfrentamento armado, como um golpe militar ou um movimento fascista. Um partido socialista revolucionário pode lutar em unidade de ação junto ao setor burguês que está contra o fascismo ou o golpe. Mas, sempre deve ter claro, e alertar os trabalhadores, que os dois campos são burgueses e, portanto, contrarrevolucionários e depois de derrotar o fascismo será preciso enfrentar o campo “progressista”.

Uma organização socialista revolucionária que abandona a política de independência de classe e termina por apoiar uma frente de conciliação de classes com nossos piores inimigos acaba adotando a teoria dos campos como base da sua política. No Brasil, esse perigo está colocado mais que nunca com a constituição da Frente Ampla encabeçada por Lula. Rejeitar essa frente de colaboração de classes será o desafio e uma prova para as organizações revolucionárias no próximo período.