Vera durante caminhada em São Carlos (SP) Foto Romerito Pontes

Enquanto fechávamos esta edição, as pesquisas apontavam a possibilidade de que a candidatura Lula-Alckmin vença as eleições no primeiro turno. Muito mais do que uma real expectativa do que viria com um governo do PT, o que predomina é o profundo rechaço a Bolsonaro.

A candidatura Lula-Alckmin reforça a campanha pelo que chamam de “voto útil”, como forma de derrotar Bolsonaro. Qual o problema desse discurso? Não será votando em Lula-Alckmin que iremos derrotar Bolsonaro e a ultradireita para valer, muito menos resolver os problemas da classe trabalhadora. Nem os problemas mais imediatos, como os 33 milhões de brasileiros que passam fome, muito menos o desemprego, produto desse sistema de exploração e opressão, centrado no lucro e na acumulação de capital.

O “mal menor” é decepção logo adiante

A entrada do banqueiro Henrique Meirelles, ex-diretor do BankBoston, na campanha de Lula-Alckmin provocou uma alta na Bolsa de Valores, indicando a aprovação do mercado financeiro. Tão logo anunciou sua adesão à chapa, Meirelles disse o que o futuro governo deveria fazer para resolver a crise: “reforma administrativa rigorosa” (leia-se atacar serviços públicos), privatização e ajuste fiscal.

Não chega a ser uma novidade. Meirelles era presidente do Banco Central no governo Lula quando foi aprovada a Reforma da Previdência do setor público, ainda em 2003. Quase 15 anos depois, no governo de Michel Temer, encabeçou, então como Ministro da Fazenda, a Reforma Trabalhista, que alterou em mais de 100 pontos a CLT e retirou inúmeros direitos. O resultado, nós conhecemos muito bem: não só não foram criados novos postos de trabalho, como o desemprego avançou e a precarização deu um salto.

Ou seja, se lá no início da campanha Lula chegou a flertar com uma crítica à Reforma Trabalhista, o que chegou a servir como justificativa para a adesão do PSOL, agora abraça um de seus principais mentores.

Muitos até dizem: “Não tenho nenhuma expectativa no futuro governo Lula, mas, diante da barbárie do governo Bolsonaro, vale tudo para tirá-lo de lá”. Qual o grande problema deste argumento? É achar que se pode derrotar a ultradireita por meio do voto e com um governo aliado aos banqueiros, às multinacionais e ao agronegócio, e deixar para depois a construção de uma alternativa de independência de classe, socialista e revolucionária. Isso porque, ao ser eleito e não resolver os principais problemas do país (ao contrário, por essa política econômica que vem apontando, eles só vão piorar num cenário de aprofundamento da crise capitalista), um eventual governo Lula-Alckmin não terá outro caminho a não ser atacar a classe trabalhadora, manter esse sistema de tremenda desigualdade, gerar decepção e desmoralização. Ou seja, engrossar o caldo de cultivo para a manutenção e até fortalecimento do bolsonarismo.

No 1º turno, temos que fortalecer uma alternativa da classe trabalhadora, revolucionária e socialista, que possa ajudar no avanço da consciência, da organização e da luta da nossa classe. Fortalecer uma alternativa para enfrentar a extrema-direita pela raiz; ou seja, enfrentando também os bilionários, a “Faria Lima” (avenida de São Paulo símbolo do poder capitalista), seus governos, a “ricocracia” corrupta de sempre e esse sistema capitalista. Esse é o caminho para realmente acabarmos com a fome, o desemprego, a vergonhosa desigualdade social e conquistar soberania para o país.

Fortalecer uma alternativa socialista

Bolsonaro e a crise se derrotam com organização e luta

Para enfrentar e derrotar Bolsonaro, o bolsonarismo e resolver os principais problemas que afligem a grande maioria da população, como o desemprego, a carestia, a queda da renda e a precarização, é preciso avançar na organização independente da classe trabalhadora e lutar.

E isso é assim por uma razão bem simples: é impossível resolver as necessidades mais imediatas, como a fome, até as mais estruturais, como o desemprego ou a Saúde e a Educação, sem atacar os lucros, os privilégios e as propriedades dos super-ricos e dos bilionários. Daquela ínfima parcela que controla as 100 maiores empresas e que, juntas, dominam mais de 60% da nossa economia.

Não existe essa história de derrotar Bolsonaro e a ultradireita sem resolver a crise econômica e social que nos empurraram para esse inferno. O bolsonarismo não é um raio num céu azul, mas resultado do aprofundamento de uma longa crise e de décadas de retrocessos. É expressão do retrocesso do país comandado pelo imperialismo, e administrado por sucessivos governos, que visa entregar o Brasil de vez, reprimarizar nossa economia (ou seja, reduzi-la ao papel de exportação de produtos primários, como os agrícolas e minerais) e impor, como vem impondo, um novo padrão de exploração.

Votar num projeto socialista e revolucionário

A pressão pelo chamado “voto útil” é uma forma de chantagem para nos deixar reféns das mesmas alternativas de sempre. A única forma de resolver essa dramática crise econômica e social, como também a causada pelas ameaças às liberdades democráticas, sob o ponto de vista da classe trabalhadora e da maioria da população, dos negros, das mulheres, dos indígenas e da juventude, é avançando em organização, mobilização e numa estratégia independente e socialista.

Nestas eleições, cada voto em Vera e Raquel Tremembé é um tijolo na construção dessa alternativa. Cada voto é um passo adiante na derrota, para valer, do bolsonarismo, da ultradireita e, também, das mazelas que, há 500 anos, nos condenam a uma vida sob a exploração e a opressão. O verdadeiro voto útil, para a classe trabalhadora, é o voto no projeto socialista e revolucionário. É o voto 16.

Útil é expropriar os bilionários para gerar emprego e acabar com a pobreza

16 medidas dos trabalhadores para enfrentar a crise capitalista

1 Redução da jornada de trabalho, sem redução dos salários, até atingir o pleno emprego; trabalho para todos e todas com plenos direitos e carteira assinada.

2 Plano de obras públicas para gerar empregos e suprir as necessidades básicas, como infraestrutura, moradia e saneamento.

3 Aumento geral dos salários, rumo ao mínimo do Dieese (R$ 6.298,91).

4 Auxílio Emergencial de um salário mínimo para todos os desempregados, enquanto não houver pleno emprego.

5 Revogação integral das reformas Trabalhista e Previdenciária

6 Educação, Saúde e serviços públicos de qualidade para todos. Estatização da Saúde e da Educação privadas e sua incorporação no sistema público.

7 Reforma agrária radical sob o controle dos trabalhadores; apoio e suporte à produção familiar.

8 Em defesa do meio ambiente e dos povos originários. Fim do Marco Temporal, demarcação e titulação das terras indígenas e quilombolas e expropriação do latifúndio.

9 Fim de todas opressões. Combate ao racismo e defesa de reparações históricas. Fim do extermínio e do encarceramento em massa da juventude negra pela polícia, desmilitarização da PM e extinção da Lei Antidrogas. Combate à LGBTIfobia. Contra o projeto Escola Sem Partido, por educação sexual nas escolas e criminalização da LGBTfobia! Combate ao machismo. Legalização do aborto, reversão dos cortes e aumento das verbas destinadas ao combate à violência contra a mulher

10 Isenção de taxas e tarifas públicas para os desempregados; cancelamento das dívidas dos assalariados, desempregados e pequenos empresários. Crédito barato ao pequeno empresário.

11 Isenção do Imposto de Renda até 10 salários mínimos.

12 Imposto sobre as grandes fortunas, mas também imposto fortemente progressivo sobre a grande propriedade, renda, lucros e dividendos do grande capital.

13 Suspender o pagamento da dívida pública aos banqueiros e realizar uma auditoria, redirecionando esses recursos para acabar com a escandalosa dívida social existente no nosso país.

14 Proibir a remessa de lucros dos bancos e multinacionais para fora do país.

15 Reestatização de todas as empresas privatizadas, sob o controle dos trabalhadores e trabalhadoras. Petrobrás 100% estatal, sob controle dos trabalhadores, para a produção, a preço de custo, de combustível e gás de cozinha para a população, sem descuidar do meio ambiente.

16 Expropriar os 62 bilionários e as 100 maiores empresas, colocando-as sob controle dos trabalhadores e da maioria da população.

Governo socialista dos trabalhadores

Para acabar com a pobreza, expropriar os bilionários

Para acabar com a pobreza e a desigualdade, e derrotar de vez a ultradireita, é necessário enfrentar os super-ricos e não governar com eles e para eles.

Para a Faria Lima, o que importa é controlar cada governo e, quando o descontentamento com o sistema cresce, eles ou apelam para saídas autoritárias ou buscam compor governos, que apenas deem uma aparência de mudança, para que tudo continue igual.

É por isso que nós, da classe trabalhadora, devemos dizer “Fora Bolsonaro”, mas, também, que aliança Lula-Alckmin-Meirelles não é uma solução. Pois as medidas necessárias, básicas e simples, para mudar o país e derrotar a extrema-direita nunca serão conquistadas em aliança com a Faria Lima, sem luta, através de um governo de aliança com banqueiros, ruralistas, grandes empresários ou, ainda, administrando essa ricocracia e um sistema capitalista corrupto.

O desemprego, a pobreza, a carestia e a extrema desigualdade são perpetuados por esse sistema capitalista que alia um aumento cada vez maior da exploração à entrega e à desnacionalização do país. Para mudar de verdade, é preciso retomar o que é roubado dos trabalhadores e trabalhadoras, expropriando as 100 maiores empresas e colocando-as sob controle operário, para que funcionem de acordo com as necessidades da população e não para o lucro de poucos.

É preciso parar de pagar a falsa dívida pública aos banqueiros, redirecionando o que vai para o bolso dos megainvestidores para setores como emprego, saúde e educação.

O que precisamos é de um governo socialista dos trabalhadores, que governe através de conselhos populares e se apoie na mobilização unificada dos trabalhadores e da maioria do povo.

Voto útil no 1º turno é o que fortalece essa alternativa.