Luiza Trajano, cotada a vice de Lula em 2022

Em seu texto-homenagem na revista “Time”, para saudar Luiza Trajano como uma das “100 pessoas mais influentes do mundo”, Lula também não poupou adjetivos e salamaleques para apresentar a dona da Magalu como símbolo do “capitalismo de cara humana”, particularmente em relação à pandemia, e, também, como uma verdadeira combatente na luta contra as opressões, em especial o machismo e o racismo.

Quando a COVID-19 chegou ao Brasil (…) o Magazine Luiza ajudou as pequenas empresas a adaptarem-se ao comércio digital, fornecendo-lhes uma plataforma para vender e entregar os seus produtos. Num momento em que o governo federal brasileiro estava minimizando o risco que a pandemia representava, Luiza falou corajosamente da urgência da vacinação. Ela também foi uma defensora vocal da igualdade, criando o programa ‘Mulheres do Brasil’, um grupo não partidário de mais de 95.000 mulheres que trabalham para construir uma sociedade melhor, e apoiar as vítimas de violência doméstica. E, em finais de 2020, num esforço para promover a inclusão no Magazine Luiza, lançou um programa de estágios que oferece oportunidades aos afro-brasileiros”, escreveu o ex-presidente petista.

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Em relação à pandemia, em primeiro lugar, principalmente diante da política negacionista e genocida de Bolsonaro, ficar jogando confetes em alguém que não fez nada mais que sua obrigação ao defender a vacinação é um tanto ridículo. Isso sem falar que, inclusive, não existem dados sobre o contágio pelo vírus na empresa ou sobre a efetividade das tão alardeadas medidas preventivas.

Como também é um disparate celebrar uma empresa que contabiliza seus lucros em saltos bilionários por ter doado, no início da pandemia e com enorme alarde publicitário, míseros R$ 10 milhões para a compra de respiradores artificiais, leitos, colchões e travesseiros para equipar hospitais públicos e filantrópicos.

E, na verdade, a preocupação de Luiza Trajano com o contágio do coronavírus foi pra lá de relativa. Em 31 de março de 2020, anunciou o fechamento de 1.100 de suas 1.301 lojas. “Mais uma vez, fomos os primeiros a fechar e não deveremos ser os primeiros a reabrir”, declarou o filho de Luiza e atual presidente da rede, Frederico Trajano, ao jornal “Folha de S. Paulo”, sem esconder, contudo, que esta foi uma decisão “fácil”, já que 50% do faturamento vêm do “e-commerce”.

Além disso, Frederico elogiou as “medidas poderosas” do governo Bolsonaro para proteção do emprego, reclamando apenas que “a suspensão de contrato ou redução de jornada com algum nível de remuneração, não saiu da maneira ideal.”

E, mesmo assim, a promessa não foi cumprida. “Apesar do Brasil estar em sua pior situação sanitária desde o início da pandemia, com várias cidades registrando colapsos em seus sistemas de saúde e com os números de mortes e de contaminados batendo sucessivos recordes, o Magazine Luiza está com menos lojas fechadas do que aquilo que foi registrado no ano passado, quando, durante alguns dias, 1.300 lojas não abriram”, destacou  o portal Suno, em 19/03/2021, lembrando que apenas 823 de suas lojas estavam fechadas.

Investindo nas plataformas digitais e engolindo as pequenas e médias empresas

Ao contrário do que Lula nos quer fazer pensar, nada disto teve qualquer coisa a ver com “filantropia” (que, ao pé da letra, que dizer “amor à humanidade”). Os Trajanos, como todo o resto da burguesia, estavam mais preocupados com a saúde de seus negócios. E, naquele momento, fechar as lojas e investir pesado no “e-commerce” lhes pareceu o melhor remédio.

Na média, sabemos que não estamos num momento positivo por conta da pandemia. Nesse contexto, é possível encontrar bolsões de prosperidade. A minha forma de raciocinar é enxergar as oportunidades, enxergar o copo meio cheio”, declarou Frederico Trajano, em entrevista ao portal “Exame”, em 17/03/2021.

E, na verdade, os copos e taças da família Trajano transbordaram durante a pandemia. Segundo a Associação Brasileira de Comércio Eletrônico (ABComm), em 2020, o crescimento nas vendas no setor foi de 68% na comparação com 2019, fazendo com que faturamento real do “e-commerce”, descontada a inflação, avançasse em 37% em relação àquele ano, totalizando valor um recorde de R$ 224,7 bilhões.

E, mais uma vez, a Magalu foi uma das que teve as maiores “conquistas”. Segundo seu próprio balanço interno, a rede teve um crescimento de 148% nas vendas digitais no 3º trimestre de 2020, na comparação com o mesmo período de 2019.

E dizer que a rede “ajudou” as pequenas empresas a se adaptarem ao comércio digital é uma distorção rasteira da realidade. A Magalu, na verdade, tem se aproveitado da crise pra engolir os “peixes menores”.  Segundo o portal da “Exame”, entre o início da pandemia e abril de 2021, a rede comprou 17 pequenas e médias empresas do setor.

Dentre elas, além da já mencionada KaBuM, a rede comprou a plataforma e o acervo de livros da “Estante Virtual”; a Sode, uma plataforma de entregas por motocicletas; a Hub Fintech (aplicativo de finanças e serviços, como recarga de celular e vale-transporte); AiQFome, GrandChef e ToNoLucro (entrega de refeições); a plataforma de mídia da Inloco, o site de notícias de tecnologia Canaltech e a Jovem Nerd, maior plataforma multimídia voltada para o público “nerd” e “geek”; ou seja, gente ligada no mundo digital, cinema, séries televisas.

O significado da Frente Ampla de Lula diante das opressões

Lula não é o primeiro petista que tenta apresentar Luiza Trajano como um símbolo das “conquistas das mulheres”, nem cortejá-la para compor um possível governo. Em 2014, Dilma Rousseff e a empresária promoveram o primeiro encontro do chamado “Grupo Mulheres do Brasil”, reunindo cerca de 100 empresárias, diante das quais, Dilma vez questão de ressaltar que já havia convidado Luiza (duas vezes) para assumir um ministério.

Lula citou o grupo e suas ações pontuais como exemplos da preocupação de um setor da burguesia em criar “uma sociedade melhor”, enfatizando, não por acaso, o tema das opressões. E essa é uma farsa que precisa ser desmascarada, particularmente no momento em que estamos vivendo, quando a combinação da crise sanitária, socioeconômica e ambiental tem escancarado que o capitalismo é um sistema cada vez mais decadente e destrutivo.

E um dos sintomas mais evidentes desta degradação é o acirramento de discursos e práticas opressivas, algo que se acentuou particularmente a partir da crise econômica de 2008/2009 e de forma catastrófica com a pandemia.

Primeiro, oprimir mais para explorar ainda mais é uma das leis da burguesia. O machismo, o racismo, a LGBTIfobia, a xenofobia e demais formas de opressão são utilizados para alienar (“separar”) ainda mais os setores historicamente marginalizados da sociedade (quando comparados com o conjunto da classe trabalhadora) do meios de produção, das riquezas, da política, do conhecimento e de sua própria humanidade. E, pra começas, isto contribui de forma profunda na redução de salários e manutenção de um exército permanente de desempregados, o que, inclusive, ajuda no rebaixamento salarial e no confisco de direitos do restante da classe trabalhadora.

Além disso, as opressões estimulam a divisão no interior da classe e dos “de baixo” para enfraquecer seu potencial de unidade e suas lutas, ao infectar até os “de baixo” com as ideologias que tentam inferiorizar, “coisificar” ou diminuir aqueles e aquelas que são discriminados.

O problema, para a burguesia, é que o acirramento das opressões também têm despertado uma crescente reação por parte dos movimentos e incendiado rebeliões. Jovens sem perspectivas para o futuro, imigrantes, indígenas, mulheres, negros e negras, LGBTIs não só têm protagonizado lutas em todos os cantos do mundo em torno de suas bandeiras específicas, como também têm participado ativamente das lutas globais, nas mobilizações contra o desemprego, a fome, o impacto da pandemia etc. Algo que também tem acontecido no Brasil, o que, evidentemente, tem provocado respostas por parte da burguesia.

Os setores mais reacionários, conservadores e fundamentalistas, como Trump, Bolsonaro e similares, tentam impor mais do mesmo, cada vez com maior violência: opressão, repressão e ataques. E, lamentavelmente, é preciso lembrar que Lula e o PT têm flertado até mesmo com representantes do baixo escalão desta gentalha. E não é de hoje.

Discutimos este tema no artigo E no terreno da luta contra as opressões, como foram os governos petistas?”, mas, para entender até que ponto Lula pretende levar sua “frente amplíssima”, vale lembrar o lamentável episódio do encontro com o pastor, sargento e deputado Isidório, do Avante, da Bahia.

Durante a viagem ao Nordeste na qual se reuniu com representantes do Centrão, do pior da burguesia coronealista e, inclusive, da base bolsonarista, o petista posou abraçado com um inimigo declarado das LGBTIs, que se define como ex-gay, defende a “cura-gay” (ou seja, práticas ineficazes e cruéis de tortura psicológica e, muitas vezes, físicas), se orgulha de ter como principal projeto na Câmara a proposta de criação do “Dia do Hétero, afirmando que a homossexualidade é uma escolha, provocada pela “safadeza”, pelo estímulo da mídia ou pelo fato dos pais terem desejado um rebento do sexo oposto durante a gestação.

E, para quem não lembra, Isidório tem seu passado cruzado com as negociadas e alianças espúrias do PT, que sempre abriram brechas para que os conservadores atacassem nossos direitos, como aconteceu com a proibição da circulação do “kit anti-homofobia” e o engavetamento do PL 122, em função de acordos de Dilma fez com a bancada evangélica. Na época, Isidório, que era deputado estadual pelo PSB, foi membro ativo da tropa de choque do também pastor Marco Feliciano, quando este assumiu, graças ao PT, a presidência da Comissão de Direitos Humanos da Câmara.

Mas, aqui, é preciso refletir sobre como aquilo que eles chamam de “burguesia progressista”, da qual Luiza Trajano é dada como exemplo, tem se localizado diante desta crescente polarização.

Luiza Trajano: “Se queremos que tudo continue como está, é preciso que tudo mude”

A citação acima é do livro “O leopardo” (1953), do italiano Tomasi di Lampedusa, que narra a história de uma família de nobres decadentes no final dos anos 1800, quando, no processo de unificação da Itália, a burguesia estava se consolidando definitivamente no poder.

A frase é símbolo de uma postura adotada pela aristocracia no século 19 e, posteriormente, muitíssimo bem assimilada pela burguesia, particularmente em momentos de crise e intensificação dos conflitos: achar caminhos e atalhos para a “persistência do passado”, para a conservação de seus privilégios, mesmo diante de profundas mudanças sociais.

No livro, a solução é forjar um casamento. Na vida real, o PT se especializou em cortejar a burguesia. Em ambos os casos, o objetivo é o mesmo: apaziguar os conflitos através da conciliação de classes e, por tabela, cooptar os setores que ameaçam os privilégios da classe decadente.

E se esta é uma tática que, em termos mais amplos, tem orientado a formação de “frentes amplas” e  governos de Frente Popular (como na África do Sul, no Brasil petista e vários países latino-americanos); no campo das opressões não tem sido muito diferente: a burguesia tem se desdobrado nos esforços para intervir em temas como o machismo, o racismo, a LGBTIfobia etc., com o objetivo descarado de manter as reivindicações destes setores nos limites da democracia burguesa e do sistema capitalista.

Adotando uma postura um tanto distinta da lógica do “mito da democracia racial” – que tentava negar, por completo, a existência de conflitos de raça, mas, também de identidade de gênero e orientação sexual etc. –, setores da burguesia têm investido em propostas baseadas na igualdade de oportunidades (sem descartar a defesa da “meritocracia”; ou seja, do esforço pessoal “pra chegar lá”) que se desdobram em políticas como “parcerias”, “empreendedorismo”, “empoderamento individual” e suas muitas variantes.

Exemplo lamentável disto aconteceu depois João Alfredo foi brutalmente assassinado dentro de uma loja do Carrefour, em Porto Alegre, na véspera do “Dia da Consciência Negra” de 2020. Diante da enorme repercussão, a rede multinacional francesa se apressou em lançar um programa de “Tolerância Zero”, criando uma cláusula antirracista nos contratos com fornecedores, uma ouvidoria, campanhas de combate ao racismo e fomento ao empreendedorismo negro, além da contratação, em São Paulo, de 18 candidatos negros num tal “Programa de Estágio Afirmativo 2021”.

Tudo isso como resultado de conversas e, acima de tudo, com a legitimação, de um “Comitê Externo de Diversidade e Inclusão”, do qual participaram ativistas e movimentos negros como Silvio de Almeida (autor do livro “O que é racismo estrutural”), Celso Athayde, fundador da Central Única das Favelas (Cufa), e Maurício Pestana, diretor da revista Raça Brasil, que, de quebra, aproveitaram para lançar uma tal Frente Nacional Antirracista (FNA), com o objetivo de levar essa discussão a outras empresas e esferas da sociedade.

Algo que começaram a fazer reunindo-se nada mais nada menos com a famigerada Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), dirigida por um bolsonarista de carteirinha, Paulo Skaf, que, hipocritamente, lançou, em 11/12/2020, um “comitê antiracista”, com o endosso e participação da FNA.

Ações muitíssimo semelhantes têm sido adotadas por empresas no Brasil e mundo afora, mesmo quando a pandemia fez desmoronar muitas das ilusões criadas por estas soluções “por dentro do sistema”, já que são nos momentos de crise que fica ainda mais evidente que a burguesia não quer e não pode resolver questões como a das opressões, a não ser de forma parcial, temporária e, geralmente, distorcida. Basta lembrar o esfacelamento de “empreendimentos” negros, de mulheres e LGBTIs nos últimos anos, a permanência e aumento do genocídio negro, do feminicídio e da violência doméstica e LGBTIfóbica.

Tão falsa quanto a fachada das lojas

Um dos maiores problemas da atualidade é que esta ilusão está sendo subsidiada e alimentada por setores dos movimentos negros e demais setores oprimidos, a maioria deles, não por acaso, defensora da “saída” Lula 2022, através de teses reformistas e pós-modernas, como o do “racismo estrutural” e sua visão de que a “luta” contra o racismo e a marginalização por identidade de gênero e orientação sexual passa por alcançar “locais de prestígio e poder” nas instituições do Estado e no setor privado. Mas, este é um tema para outro artigo.

Por ora, é preciso dizer que Luiza Helena Trajano é um exemplo bastante bem acabado desta arapuca para a qual Lula, seu texto e sua política de conciliação de classes estão tentando atrair a juventude, a classe trabalhadora e, particularmente, seus setores mais oprimidos e marginalizados.

Exemplo disto é seu programa de contratação de apenas negros e negras como “trainees” (estagiários), com o polpudo salário de R$ 6,6 mil, que, futura e supostamente, poderão assumir cargos de gerência, supervisão ou coordenação de áreas.

A proposta, evidentemente, foi atacada por racistas e defensores da estapafúrdia tese do “racismo reverso” (contra os brancos), a começar pelo capitão-do-mato de Bolsonaro, Sérgio Camargo, que tentou vetá-lo na justiça. Contudo, é preciso entendê-la como uma variante rebaixada da lógica mencionada acima: mudar muitíssimo pouco, pra não mudar nada.

Primeiro, a empresa cresceu, sem culpas ou remorsos, dentro da lógica da Casa-Grande. Foi isso, por exemplo, que fez com que a Magalu chegasse até aqui com um quadro de funcionários composto por 53% de pretos e pardos (ou seja, “negros”), mas apenas 16% deles ocupando cargos de liderança, como noticiado pelo portal “Pequenas Empresas & Grandes Negócios”, em 19/09/2020. E além de não ser difícil imaginar em que postos está localizada essa maioria negra de trabalhadores, não temos ilusão alguma de que estes números mudarão de forma significativa com um “programa de trainees” e, muitíssimo menos, que qualquer mudança na “estrutura” da empresa irá significar uma conquista para o povo negro de conjunto.

E também neste caso é preciso mencionar o papel nefasto de setores do movimento negro. O programa foi fruto de uma parceria com a “Indique Uma Preta”, o “Instituto Identidades do Brasil”, a Faculdade Zumbi dos Palmares e o “Comitê de Igualdade Racial de Mulheres do Brasil”.

E vale dizer que a assimilação pela empresa do discurso formulado pelo movimento é mais que evidente. “Acreditamos que uma empresa diversa é uma empresa melhor e mais competitiva (…). Queremos desenvolver talentos negros, atuar contra o racismo estrutural e ajudar a combater desigualdade brasileira”, afirmou Patrícia Pugas, diretora executiva de gestão de pessoas da rede, em entrevista a CNN Brasil, em 18/09/2020.

A ineficácia e lógica empresarial da empresa em suas políticas de inclusão também já foram denunciadas em relação ao tão alardeado programa de combate à violência doméstica durante a pandemia. Na verdade, a história é bizarra, de tão esdrúxula. A ação consistiu na instalação de um “aplicativo” no celular que, ao invés de permitir à mulher fazer uma denúncia silenciosa da agressão, simulava uma ação de compra na empresa e, depois, a encaminhava para o número 180. Ou seja, primeiro se fazia propaganda, depois se tratava da violência.

Um Brasil melhor? Para quem?

Apesar de tudo isso, Lula vê a presidente do Conselho do Magazine Luiza como parceira ideal, dentro ou fora do governo, para a construção de um país mais justo, igualitário e livre. “Em um mundo onde bilionários queimam fortunas em aventuras espaciais e iates, Luiza se dedica a um tipo diferente de odisseia. Ela assumiu o desafio de construir um gigante comercial e ao mesmo tempo construir um Brasil melhor”, escreveu o petista na “Time”.

Contudo, a única “odisseia” feita por Luiza Trajano foi a caminho de um patrimônio bilionário e completamente distante da realidade da gigantesca maioria dos brasileiros, particularmente de nossas mulheres. E, ainda, sem encarar obstáculos ou perigos, como acontece nas histórias de heróis e heroínas.

Luiza é parte de grupo seletíssimo e ultra-privilegiado de mulheres brasileiras. Ela é uma das 60 mulheres dentre os nossos 315 bilionários, segundo a lista da “Forbes”, em 2021. E o fato das mulheres serem apenas 19% dentre os super-ricos é indício inegável de que o machismo também corre solto no “andar de cima”. Mas, daí, concluir que estas burguesas são aliadas ou têm qualquer coisa a ver com aquelas que penam para sobreviver, lutam pela moradia e se desdobram para criar filhos e agregados é praticamente um insulto.

Assim como seus sócios e comparsas do sexo masculino, estas mulheres têm enriquecido ainda mais quando o resto do mundo naufraga no desemprego, na miséria, na fome e nas penúrias provocadas pela pandemia.

E Luiza Trajano, em particular, está longe de pretender reverter sua “odisseia” em direção à concentração de capital e ao enriquecimento ilimitado. Hoje, por exemplo, a Magalu é uma das principais interessadas (ao lado da Amazon, da DHL e da FedEx) na privatização dos Correios, um profundo ataque aos trabalhadores e trabalhadoras do setor, além de um poço sem fundo de lucros para os que investem no varejo e no “e-commerce”.

Por esta e muitas outras, não causa espanto que Luiza Trajano tenha se derretido com os elogios de Lula. “Eu achei que foi muito bem escrito. Eu realmente sou aquilo que ele escreveu. Não senti nenhuma coisa diferente do que eu sou”, declarou a empresária, em 17 de setembro, acrescentando, com um cinismo irritante que convive “com mulheres de comunidades que deveriam estar essa lista (…), que bom que eu posso abrir uma porta dessas”.

Lula pode até tentar fazer com que acreditemos nesta ladainha. Mas, a verdade é que as mulheres trabalhadoras, como também os homens, negros e negras, LGBTIs, indígenas, quilombolas, o povo da periferia e do campo só terão suas portas abertas para um “Brasil melhor” quando chutarem os Trajanos, seus pares e tudo o que eles significam para fora do poder.

Taxar suas enormes fortunas, coisa que Lula se nega, seria apenas um primeiro passo. Contudo, o ponta-pé definitivo só pode ser dado, mesmo, através de uma revolução socialista, que tire esse punhado de privilegiados do poder e coloque o povo trabalhador, pobre e oprimido no governo da sociedade, suas riquezas e meios de produção e distribuição, através de conselhos populares, compostos com toda a diversidade de nossa classe.

Aí, sim, a gente “vai ser feliz”!