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No último dia 5, em reunião com Sindicato dos Metalúrgicos de São José dos Campos e Região (filiado à CSP-Conlutas), a direção da montadora chinesa Caoa Chery anunciou a paralisação da produção de veículos em Jacareí (SP), onde produzia os modelos Tiggo 3x e Arrizo 6 Pro. A desculpa utilizada é de que vai remodelar a linha de produção para a fabricação de veículos elétricos, atualizando sua gama de produtos.

A Caoa Chery, desde 2014, quando a fábrica se instalou no Brasil, vem logrando significativo crescimento em sua produção e venda no país. Os números de 2021, que vem sendo mantidos em 2022, representam um grande avanço por parte da empresa. Enumeramos os principais:

– Foram 39.746 emplacamentos em 2021. A Caoa Chery atinge 2% do mercado e se consolida no Top 10 das montadoras no mercado brasileiro. Passando de 1,03% para 2,01% do total de emplacamentos.

– Esse número representa um crescimento de 97% em relação a 2020.

A montadora emprega 637 funcionários na fábrica de Jacareí e vem lucrando anos com todas as isenções de impostos recebidas nos últimos anos. A fábrica tem capacidade para produzir até 150 mil carros por ano.

Mesmo com o recorde de vendas, com o aumento dos lucros, com as isenções garantidas pela prefeitura municipal e pelo governo do Estado de São Paulo, a Caoa Chery decidiu paralisar a produção na cidade paulista e concentrar a produção na fábrica de Anápolis (GO). Um estudo realizado pelo Sindicato dos Metalúrgicos de São José dos Campos e Região e pelo Instituto Latino Americano de Estudos Sócio Econômico (Ilaese) mostram o real motivo do fechamento da montadora e o impacto causado por esta decisão.

O estudo foi coordenado por Gustavo Machado, com base nos dados disponíveis na Federação Nacional da Distribuição de Veículos Automotores (Fenabrave), Relação Anual de Informações Sociais (RAIS) do Ministério do Trabalho e Previdência (TEM) e Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged).

O lucro acima de tudo

A Chery Automobile é uma empresa chinesa fundada em 1997. Em 28 de agosto de 2014, inaugurou a primeira fábrica fora da China, na cidade de Jacareí (SP). Ela é uma das dezenas de empresas chinesas do setor e tem como especificidade fato de ser uma das únicas empresas automotivas integralmente estatal na China e de capital fechado.

Mas sua estratégia é a mesma das demais – em regra geral, são estatais de capital misto em associação com outras gigantes do setor – está preocupada é com o lucro e superexplorar os operários chineses e brasileiros.

2017: união Caoa e Chery

Em 2017, o Grupo Caoa compra 50,7% das operações da chinesa Chery. Isso levou a um salto expressivo nas vendas entre 2017 e 2019 e, também em 2021. Em 2022, temos a manutenção dos mesmos índices, como pode ser notado na quantidade média mensal de emplacamentos, conforme gráfico abaixo:

Os números contundentes reforçam a pergunta: por que da estratégia da Chery de fechar sua unidade em Jacareí?

Um elemento importante para responder a essa pergunta foi essa aquisição parcial da Chery pelo Grupo Caoa, que também distribui as marcas Subaru e Hyundai no Brasil.

Por meio dessa centralização das três empresas em um só grupo, os veículos da Chery passaram a ser produzidos, também, no Distrito Agroindustrial de Anápolis, em Goiás, onde são montados modelos da Hyundai. Apesar disso, a produção em Jacareí seguiu uma tendência crescente em todo o período, com exceção do ano de 2020, conforme aponta a média mensal de emplacamentos de veículos oriundos unicamente da planta localizada na cidade paulista:

Concentrar a produção para maximizar os lucros

Mesmo com o avanço da produção em Jacareí, é possível notar que a maior parte de sua produção migrou para Anápolis. Desde 2019, a empresa vem migrando a produção paulatinamente para sua planta no estado de Goiás.

Esta transferência de uma planta para outra, como indicado pela própria empresa, tem um objetivo claro. Em nota, a Caoa Chery divulgou que “passará por mudanças para adequação dos processos produtivos que permitirão a introdução de novos produtos concebidos a partir de plataformas de última geração, equipados com propulsores híbridos ou 100% elétricos”.

A empresa tem o objetivo de introduzir a produção de carros elétricos no Brasil, tendência que já avança a todo vapor no interior do próprio mercado automobilístico chinês, por isso, definiu fechar a planta em Jacareí, modernizá-la, para reativá-la anos depois.

A montadora poderia implementar tal modernização concomitantemente com a produção de veículos em Jacareí. Sobretudo, porque esta planta possui uma capacidade instalada inicial de 50.000 unidades por ano e uma capacidade total potencial de até 150.000 veículos/ano. A planta possui, portanto, plena capacidade de ser modernizada concomitantemente ao seu uso. Apesar disso, a empresa adotou a estratégia arbitrária de utilizar a planta de Anápolis para dar continuidade a suas operações, demitindo, assim, trabalhadores em massa com profundos impactos econômicos para toda a região.

Esta estratégia tem como objetivo economizar com todos os custos oriundos de sua planta em Jacareí, concentrando-os em Anápolis, enquanto a primeira é modernizada. Ao fazê-lo, deixa inoperante em planta com capacidade de produzir 50 mil automóveis, demitindo centenas de trabalhadores.

Como se pode ver, apesar de se tratar de uma empresa estatal chinesa, a Chery atua orientada unilateralmente a produção de lucros e não hesita em descartar massas de trabalhadores se julgar adequado segundo suas estratégias de expansão e maximização dos lucros.

O impacto da Caoa Chery em Jacareí

Caoa Chery vai suspender a produção de carros na planta de Jacareí por três anos, o que pode acarretar na demissão de 480 trabalhadores que hoje estão sob acordo de lay off. Serão mantidos na empresa durante este período apenas os trabalhadores responsáveis pela manutenção da planta.

O gráfico acima mostra que a Caoa Chery elevou, em 2021, significativamente o total de trabalhadores empregados. A suspensão anunciada, portanto, terá um custo caro para o município. A massa salarial desses trabalhadores corresponde a cerca de R$ 40 milhões anuais, que ao deixarem de serem pagos enquanto salários e benefícios teriam, também, impacto em todos demais setores da região: comércio, serviços, …

Essa massa salarial, no entanto, é apenas uma parte do problema, já que a montadora carrega atrás de si toda uma cadeia de produção. Em base a média nacional de empregos correlatos no setor de fabricação de automóveis, camionetas e utilitários e fabricação de peças e acessórios para veículos automotores, de 2019 a março de deste ano, a planta da Chery de Jacareí representou 30% dos empregos gerados nacionalmente no setor de autopeças.

Apenas em Jacareí essa massa salarial associada diretamente a Chery e ao setor de autopeças é de R$ 53 milhões de reais anuais (gráfico abaixo), podendo abarcar outros R$ 45 milhões de reais nas demais cidades da região que atuam como fornecedores da Chery.

Desindustrialização do Brasil

De 2020 ao mês de março de 2022, foram produzidos na planta de Jacareí 5.545 unidades do Sedã Arrizo 6. Arbitrariamente, a Caoa Chery anunciou a decisão de importar o modelo a partir de agora e não mais fabricar em território nacional. Isso significa que a capacidade produtiva da planta de Jacareí será desprezada, para que, segundo a empresa, seja realizada obras para modernização.

Vejamos que a força de trabalho de quase 500 operários será subutilizada, junto a isso mais centenas de trabalhadores poderão perder o emprego, já que é grande o impacto na cadeia produtiva que a Chery carregava consigo.

Esses fatos dizem muito sobre o que tem acontecido no Brasil nas últimas décadas. Em primeiro lugar, a burguesia brasileira e os seus representantes, desde os gestores federais aos municipais, não fazem nada para impedir que o país retorne à sua condição de semicolônia. A desindustrialização relativa que acontece nas últimas décadas é uma das razões que explicam a pauperização da classe trabalhadora.

A Chery recebeu investimentos do Estado para se instalar na cidade, obras de infraestrutura foram realizadas no entorno da fábrica com recursos públicos. Por quase 8 anos a empresa vem utilizando a força de trabalho e recursos naturais brasileiros, além de muito lucrar com o mercado consumidor nacional. Seria correto, simplesmente anunciar que um dos modelos mais vendidos serão importados? Caso o Brasil fosse quintal da China, poderíamos receber de cabeça baixa os desmandos das empresas. Porém não somos e somente os trabalhadores organizados podem transformar essa situação.

As multinacionais instaladas no Brasil não demonstram nenhum compromisso. A economia brasileira está à serviço das grandes empresas multinacionais, que usufruem como bem quer, da nossa posição geográfica estratégica, do mercado consumidor brasileiro e da mão de obra qualificada. Por isso, a importação do Arrizo 6 é um regresso na condição da indústria brasileira. Reflete relações comerciais, que tanto aumenta no país, e que só benéfica um lado, dado que o aumento de faturamento das empresas estará garantido.

Os trabalhadores brasileiros não podem ficar subordinados às estratégias de mercado das multinacionais. Essas empresas se instalam no país, recebem isenções bilionárias, exploram nossas riquezas naturais e humanas e quando querem, deixam as regiões amargando o desemprego e a falta de recursos básicos para a subsistência.

Por isso, o PSTU está ao lado da luta dos operários da Caoa Chery, junto com o Sindicato dos Metalúrgicos de São José dos Campos e Região, em defesa dos empregos e da permanência da fábrica em Jacareí. Caso a empresa insistir na política de fechamento, defendemos exigir que o governo federal estatize a fábrica e que o Brasil passe a produzir carro nacional.

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