A rapsódia boêmia de Freddie Mercury

Longa mostra trajetória do lendário grupo de rock Queen

Ainda que não seja completamente fiel aos fatos, há qualidades incontestáveis no longa Bohemian Rhapsody, a cinebiografia da banda Queen e de seu vocalista Freddie Mercury. O filme, dirigido por Bryan Singer e Dexter Fletcher, é um presente para os fãs. Mostra todo o vigor do repertório criado pela banda entre as décadas de 1970 e 1980, bombardeando o espectador com um hit atrás do outro.

Não por acaso, sua exibição tem arrancado inevitáveis aplausos e comoções em muitas salas de cinema, embora tenham sido relatadas vaias de alguns bolsominions revoltados com as cenas gays de Freddie Mercury. Mais uma vez, agem com violência, preconceito e estupidez. E pagam ingresso para fazer isso!

Esse é mais um motivo para assistir a Bohemian Rhapsody e aplaudi-lo de pé. A dantesca realidade brasileira já trouxe os músicos Roger Waters e Bono Vox (U2) para as linhas da resistência contra Bolsonaro. Agora é a vez Freddie Mercury se tornar uma bandeira de luta contra toda forma de opressão.

A interpretação do ator de ascendência egípcia, Rami Malek, é um espetáculo à parte. Ele consegue personificar e encarnar todo o magnetismo de Mercury, sua explosão no palco e na vida pessoal. Malek mostra como Mercury conseguia “apanhar o mundo inteiro na palma da mão dessa maneira”, como descreveu Peter Freestone, assistente pessoal do vocalista. Algo que fica nítido em mais de 20 minutos em que é reproduzido o show Live Aid, que aconteceu no Estádio de Wembley, em Londres, em 12 de julho de 1986, quando o espectador é literalmente levado para o meio do show.

A história da sua majestade
Formada em 1970 por Brian May (guitarra), Mercury (vocal e piano), John Deacon (baixo) e Roger Taylor (bateria), o Queen mesclava toda a sonoridade de bandas como The Beatles, Led Zeppelin e The Who com rhythm and blues, música negra e a chamada música clássica. Com integrantes influenciados por estilos diferentes, a banda conseguiu combinar estilos e emplacar o seu maior sucesso em 1975, como o disco A Night at the Opera, que tem como música principal “Bohemian Rhapsody”. A canção extrapolava os limites do rock, interpondo partes de ópera, coros com poderosos solos de guitarra e variações rítmicas. A letra de Mercury, sobre o drama de um homem que confessa à sua mãe que cometeu um assassinato e se prepara para ir ao inferno, é uma óbvia metáfora, como atestam alguns biógrafos, sobre sua separação de Mary Austin, com quem conviveu por seis anos, e a aceitação de sua homossexualidade.

Nos anos seguintes, a banda emplacou dezenas de outros sucessos, como “Another One Bites the Dust”, que até hoje põe abaixo qualquer balada; “Crazy Little Thing Called Love” e seu rock and roll dos anos cinquenta; “Under Pressure” (1981), em que a colaboração entre dois colossos, Mercury e David Bowie, proporcionou um dos maiores duelos vocais da música pop.

Também inovou ao incorporar as multidões que iam aos seus shows. “We will rock you”, por exemplo, é um rock de estádio criado pela banda para que o próprio público pudesse participar, aplaudindo com as mãos e batendo os pés.

Nos anos 1980, com o advento do videoclipe, o Queen também foi pioneiro. Um dos casos mais emblemáticos é o da canção “I Want to Break Free” (1984), praticamente inseparável do seu clipe, no qual os componentes do grupo aparecem vestidos de mulher, realizando tarefas domésticas. Em seguida, em cenas dionisíacas, o clipe faz referências a um poema do francês Stéphane Mallarmé, que conta a história das experiências de um fauno e seus encontros com várias ninfas. Para muitos, “break free” foi interpretado como uma referência velada a “sair do armário”. Tudo isso foi muito para a América puritana, e o clipe foi banido da MTV norte-americana, acusado de fazer apologia à homossexualidade. Como resposta, o Queen nunca mais faria shows no país.

“Don’t Stop me Now”
Bohemian Rhapsody expõe moderadamente a solidão, os excessos, as incertezas e as crises de Mercury. Ao que tudo indica, tal comedimento foi uma interferência dos próprios integrantes da banda no roteiro do filme. Sacha Baron Cohen, cogitado para interpretar Mercury, disse que se afastou do projeto exatamente por divergir da banda sobre como representar o cantor. O ator queria um personagem mais polêmico, sem limites, intenso dentro e fora dos palcos. Porém a rapsódia acabou ficando moderada. Algo que contradiz exatamente aquilo que Freddie Mercury fala no início a um gerente de uma importante gravadora: “Somos uma banda de desajustados que toca para os desajustados no fundo da sala”. É, Freddie, suas canções ainda inspiram os desajustados.