Neste mês de janeiro, completam-se os 80 anos do nascimento de Nara Lofego Leão. Muito mais do que uma simples intérprete, a cantora esbanjava sabedoria, sensibilidade e uma firme concepção política.

Nara Leão nasceu no dia 19 de janeiro de 1942, em Vitória (ES). Com 1 ano de idade, se mudou para o Rio de Janeiro com os pais. Aos 12 anos começou a ter aulas de violão, com o instrumento que ganhara do pai. E aos 14, matriculou-se na Academia de Violão de Carlos Lyra e Roberto Menescal. Com 17 anos estreia nos palcos cantando Se é tarde me Perdoa e Fim de Noite, no show Segundo Comando da Operação Bossa Nova. Já em 1963, Nara realiza seu primeiro show como cantora profissional, ao lado de Vinicius de Moraes e Carlos Lyra, no espetáculo Pobre Menina Rica.

Em seu primeiro disco, lançado em 1964, Nara reúne um time de compositores de peso em seu repertório, como Vinicius de Moraes, Carlos Lyra, Zé Kéti, Baden Powell, Edu Lobo, Ruy Guerra, Nelson Cavaquinho, Cartola e Elton Medeiros. Considerada uma das fundadoras da bossa nova, Nara se afasta dessa vertente e se aproxima do samba de morro.

No final de 1964, Nara lança seu segundo disco e encena o espetáculo musical Opinião, ao lado de Zé Kéti e João do Vale. Escrito por Oduvaldo Vianna Filho, Paulo Pontes e Armando Costa, a peça, com direção musical de Dori Caymmi e direção geral de Augusto Boal, torna-se um estrondoso sucesso e um marco na resistência cultural ao golpe militar. Ao adoecer, Nara indica Maria Bethânia como substituta (projetando a jovem cantora baiana no cenário nacional).

Em 1965, Nara participa do espetáculo Liberdade, Liberdade, segunda investida do grupo Opinião no Teatro de Arena. Sendo alvo de severos ataques dos defensores do regime. Neste mesmo ano, lança mais dois LP’s: O Canto Livre de Nara e 5 na Bossa, com Edu Lobo e Tamba Trio. No ano seguinte, lança o álbum Nara Pede Passagem, que traz os compositores iniciantes Chico Buarque, Paulinho da Viola e Jards Macalé. Também em 1965, no Festival de Música Popular, Nara e Chico Buarque lançam a marchinha A Banda.

Durante a ditadura militar, Nara Leão fez diversas declarações de repúdio ao regime. Em 1966, defendeu a extinção das Forças Armadas, “esse Exército não serve para nada”. O país precisa de “mais escolas, professores, técnicos e hospitais” e melhor nível de “vida do operariado”. Tal postura lhe custou uma ameaça de prisão. Vários artistas saíram em sua solidariedade, o poeta Carlos Drummond de Andrade escreveu um poema em sua defesa: (“Deu seu palpite em política, / favorável à eleição / de um bom paisano – isso é crime, / acaso, de alta traição? / Nara é pássaro, sabia? / E nem adianta prisão / para a voz que, pelos ares, / espalha sua canção”).

Já em 1968, no show Tique-Taque, Nara Leão reúne em um novo repertório a Tropicália de Caetano Veloso e clássicos de Tom Jobim, Vinicius de Moraes e Noel Rosa. Também participa ativamente das manifestações de rua contra o regime militar.

Após diversas ameaças de prisão, veio o autoexílio em Paris no início da década de 1970 com o marido, o cineasta Cacá Diegues.

Um pássaro livre de canto doce

A tímida e libertária Nara Leão, com seu soprano ligeiro e suave, deixou um legado importantíssimo na música brasileira. Faleceu muito cedo, aos 47 anos, deixando dois filhos, após enfrentar um tumor no cérebro durante 10 anos.

Para Nara, “a canção popular pode dar às pessoas algo mais que a distração e o deleite. Pode ajudá-las a compreender melhor o mundo onde vivem e a se identificarem num nível mais alto”.