Em 10 de fevereiro de 1898, há 123 anos, nascia na Alemanha o diretor, dramaturgo, poeta e teórico do teatro Eugene Bertolt Friedrich Brecht, mais conhecido como Bertolt Brecht. Ele desenvolveu uma intensa atividade teatral na Alemanha no período da República de Weimar (1919-1933). Junto com o também alemão Piscator, com quem trabalhou, e o russo Meierhold, desenvolveu o chamado “teatro épico”, uma nova forma de concepção do teatro, voltada para a nova era da humanidade, com um grande desenvolvimento da ciência e da tecnologia.

Brecht defendia que era necessário um teatro no qual o espectador “não deixasse seu cérebro junto com o chapéu na entrada do teatro”; que, sem abrir mão do caráter de diversão do espetáculo teatral, levasse o espectador a refletir. Ao contrário do chamado “teatro aristotélico”, baseado na catarse, ou seja, em apenas se emocionar, chorar e rir durante o espetáculo, sem tempo para refletir, Brecht (e outros da mesma linha) propunha sempre um processo de reflexão, quebra, distanciamento. Num momento que deveria ser de grande tensão dramática, de repente um ator interrompe a cena e conversa com a plateia, levando-a a questionar a situação, por exemplo. Brecht fazia questão de lembrar aos espectadores que estavam num teatro, assistindo a uma peça, que aquilo não era real, embora abordasse questões importantes para a realidade.

Não por acaso, uma de suas principais peças foi Vida de Galileu. O brilhante cientista pisano é o personagem perfeito para Brecht desenvolver suas ideias. Galileu representa a ruptura com a tradição aristotélica da ciência. A revolução científica iniciada por Galileu caía como uma luva para a ideia brechtiana de “conhecimento como diversão”. O personagem ainda permitia a Brecht criticar a hipocrisia da Igreja Católica e da burguesia que explorava as grandes navegações. A lamentável e verdadeira cena em que os “doutores da Igreja” se recusam a olhar pela luneta de Galileu e ver as luas de Júpiter porque, afinal, essas não deveriam existir, é um tapa na cara de todos nós que temos que lidar ainda hoje com o negacionismo científico de uma burguesia genocida.

Com a chegada de Hitler ao poder em 1933, Brecht exilou-se em diversos países da Europa, chegando por fim aos Estados Unidos em 1941. Após a Segunda Guerra Mundial, perseguido pelo macarthismo, voltou para a Europa, instalando-se em Berlim Oriental, onde fundou sua famosa companhia, o Berliner Ensemble.

SOCIALISTA

A obra e a atuação política de Brecht

Brecht é autor de uma obra extensa e importante, tendo várias de suas peças já sido montadas no Brasil. Algumas de suas peças mais importantes são Baal, a já citada Vida de Galileu, Terror e miséria no terceiro reich, Os fuzis da senhora Carrar, Mãe coragem e seus filhos e A ópera dos três vinténs. Suas peças sempre trazem forte componente de crítica social. Uma vez declarou que foi após ter lido O Capital, de Karl Marx, que entendeu suas próprias peças. Sem dúvida, Brecht buscava retratar a complexidade do capitalismo da época em sua produção cultural.

Apesar de sua produção cultural fortemente influenciada pelo marxismo, Brectht nunca foi de nenhuma organização nem se filiou ao Partido Comunista. Calou-se frente às purgas stalinistas que vitimaram diversos de seus colegas, inclusive Meierhold, acusado por Stalin de “trotskismo”. Brecht chegou a defender a repressão do governo da Alemanha Oriental (com o apoio dos tanques soviéticos) a um levante popular naquele país em 1953. No entanto, nunca apoiou o “realismo socialista”, puro ufanismo stalinista, propaganda oficial daquele regime contrarrevolucionário.

Ainda que de forma tímida, no fim de sua vida Brecht deixou transparecer alguma crítica ao monstro burocrático em que os estados operários se tornaram. Um exemplo é o pequeno poema “A solução”, no qual mostra outra leitura sobre o levante de 1953: “Depois do levante de 17 de junho/ o secretário da união dos escritores/ distribuiu panfletos na avenida Stalin/ dizendo que o povo tinha perdido a confiança do governo/ e só poderia recuperá-la/ se redobrasse seus esforços./ Não seria mais fácil/ nesse caso, para o governo/ dissolver o povo/ e eleger outro?”

Em 1956, com apenas 58 anos, Brecht sofreu um ataque cardíaco e morreu em Berlim Oriental. Sua obra continua sendo de enorme inspiração para os que sonham e lutam para superar o capitalismo.

Glossário

Macarthismo: Movimento iniciado pelo senador estadunidense Joseph McCarthy durante a guerra fria, que estimulava uma caça aos comunistas que supostamente conspiravam contra os EUA.

República de Weimar: Período da história alemã entre os anos de 1919 e 1933, entre o fim da Primeira Guerra Mundial e a ascensão do partido nazista ao poder, no qual se sucederam governos democráticos.

Leia Bertolt Brecht aqui