Há exatos 100 anos, em 16 de setembro de 1921, nasceu José Flores de Jesus, que entrou para a história da música e da cultura brasileira com seu apelido de infância: Zé Kéti, derivado de Zé Quieto, em função de seu comportamento tímido.

Neto de um flautista e pianista e filho de um marinheiro que tocava cavaquinho, o garoto cresceu no Rio de Janeiro, sempre cercado pela musicalidade dos morros e da periferia, convivendo com bambas como Pixinguinha e Cândido das Neves.

Sambista de primeira, Zé Kéti é considerado um dos grandes cronistas da vida nas favelas: “Todos os grandes sambas de Zé Kéti contam uma história do morro”, lembrou o escritor Ruy Castro, em artigo publicado na “Folha de S. Paulo”, em 16/01/2021.

Contudo, sua criatividade e atenção ao mundo que o cercava o levaram para muito além dos morros e das estações de rádio, tornando-o figura de destaque em filmes fundamentais do chamado Cinema Novo e, também, no espetáculo “Opinião”, cuja história se confunde com a do golpe militar de 1964.

O samba dos morros ganha as telas do cinema

No início da década de 1940, quando ainda trabalhava como peixeiro, Zé Kéti se juntou à ala dos compositores da Portela e nos anos seguintes compôs vários sucessos, como “Tio Sam no Samba” (composta com Felisberto Martins, em 1946, ironizando a crescente presença norte-americana no país), “Amor passageiro” e “Amar é bom”, parceria com Jorge Abdala.

Sua carreira tomou um rumo um tanto inusitado em 1955, quando a genial “A voz do morro”, considerado um dos melhores sambas de todos os tempos (“Eu sou o samba/ A voz do morro sou eu mesmo, sim, senhor/ Quero mostrar ao mundo que tenho valor/ Eu sou o rei dos terreiros…”) integrou a trilha sonora de “Rio 40 graus”, dirigido por Nelson Pereira dos Santos.

Filme inaugural do Cinema Novo, “Rio 40 graus” foi um dos primeiros a tentar voltar as câmeras para os morros e favelas sem preconceitos, dando “voz” para seus moradores.  A parceria com o diretor foi retomada em 1957, com “Rio Zona Norte”, onde o genial Grande Otelo interpreta um cantor e compositor bastante inspirado no próprio Zé Kéti, e “Boca de Ouro” (1962)

Na época não faltaram críticas de gente que acusou Zé Kéti de “dar as costas” para o morro e se voltar para a classe-média carioca. Uma crítica bastante despropositada e sectária, inclusive por desconsiderar o contexto histórico, quando eram exatamente os setores da intelectualidade, dos artistas e dos estudantes que, motivados pelos conflitos sociais que sacudiam o país e por projetos como os Centros Populares de Cultura (CPC), organizados pela União Nacional dos Estudantes (UNE), que estavam procurando se aproximar dos mais explorados e historicamente marginalizados.

O desafio à ditadura no centro dos palcos

Felizmente, Zé Kéti não se deixou abater pelas críticas, contribuindo em outros filmes, como “A Falecida” (1965), de Leon Hirszman e “A Grande Cidade” (1966), de Carlos Diegues; e, ainda, se aproximou da turma da Bossa Nova, através de Carlos Lyra, compositor, músico e, então, diretor da UNE, com quem compôs “Samba da legalidade” (“Sou poeta popular / Dentro da legalidade / Ninguém pode me calar”), gravado por Nara Leão. Recentemente, sua filha Geisa Kétti sintetizou sua importância tanto ao levar o samba para além das fronteiras que o limitavam quanto na sua popularização.

“Zé Kéti fez com que o samba das comunidades e morros da zona norte conversasse com as outras artes. Foi a consagração do samba enquanto uma música de origem negra e menos privilegiada na época (…). Algo precisava ser feito além dos compositores ficarem ligados as escolas-de-samba de origem. Era preciso que as outras correntes artísticas valorizassem o samba e que as rádios, então tomadas pela música estrangeira, o tocassem”, disse, em entrevista ao portal “O Tempo”, em 14/09/2021,

Também foi com Nara (depois, substituída por Maria Bethania) que Zé Kéti protagonizou, ao lado de João do Vale, um dos espetáculos mais significativos dos anos 1960, o show “Opinião”, idealizado pelo CPC, Oduvaldo Vianna Filho, Ferreira Gullar e Armando Costa, dirigido por Augusto Boal, e considerado um dos primeiros trabalhos artísticos em oposição ao regime militar, pois foi lançado em dezembro de 1964.

São de Zé Kéti as músicas “Diz que fui por aí”, “O Favelado”, “Nega Dita”, “Cicatriz” e o samba-título (“Podem me prender / Podem me bater / Podem, até deixar-me sem comer / Que eu não mudo de opinião / Daqui do morro / Eu não saio”), cujo impacto pode ser medido pelo fato de ter inspirado os nomes de um jornal de esquerda, um teatro, o grupo teatral que encenou a peça e o segundo álbum de Nara.

Uma voz que nunca será calada

São dele, também, algumas das músicas que, literalmente, fazem parte da trilha sonora de nossas vidas, como “Máscara Negra” (“Tanto riso, oh quanta alegria…”), gravada por Dalva de Oliveira, “Acender as velas” (“Acender as velas / Já é profissão / Quando não tem samba / Tem desilusão”), interpretada, dentre outros, por Elis Regina, e, também  “Diz que fui por aí” (“Se alguém perguntar por mim / Diz que fui por aí / Levando um violão / debaixo do braço”)

E se não bastasse tudo isto, também devemos a ele o “batismo” do bancário transformado em sambista Paulo César, que Zé Kéti conheceu na casa noturna Zicartola (de Cartola e Dona Zica), e passou a chamar de Paulinho da Viola, com que formou, em 1962, o conjunto “A Voz do Morro”, juntamente com Elton Medeiros, Anescarzinho do Salgueiro, Jair do Cavaquinho, José da Cruz, Oscar Bigode e Nelson Sargento.

Como muitos outros dos nossos grandes artistas negros, Zé Kéti, que além de tudo havia sido “marcado” pela ditadura, viveu um período no limbo. Uma situação agravada por um derrame cerebral, em 1987. Mas nem isso o conteve. Em 1996, lançou o CD “75 anos de samba” e participou de um show com a Velha Guarda da Portela e Marisa Montes.

Três anos depois, em 14 de novembro, Zé Kéti faleceu aos 78 anos. O fato de seu centenário, apesar da pandemia, estar sendo celebrado com exposições, shows e relançamentos é prova de Zé Quietinho continua fazendo barulho. Mas, a maior prova disto é, mesmo, o fato de que suas músicas explodem em qualquer roda de samba e pagode do país.