Cassio Roosevelt/Sindmetal SJC

Se é verdade que no 2º turno, ao termos só dois candidatos  devemos votar contra Bolsonaro e seu projeto autoritário e impor-lhe uma derrota  nas eleições, também é verdade que ultradireita não será efetivamente derrotada apenas com eleições. É impossível enfrentar a Bolsonaro e a ultradireita sem encarar as condições sociais, econômicas e políticas que os criaram. Sem questionar o sistema capitalista, qualquer proposta de luta contra a ultradireita cai no vazio ou no colo de outro setor da burguesia, como faz o Lula e o PT.

Para derrotar a ultradireita é preciso ajudar a crescer a mobilização e organização e também aprofundar a disputar de consciência dos trabalhadores para a defesa de um programa revolucionário e socialista. Nosso voto em Lula é crítico justamente por isso. Lula não só não ajuda nisso, como atua em sentido contrário, reforçando a confiança do povo nos setores burgueses, nas instituições desta “ricocracia” e fazendo retroceder a luta e organização dos trabalhadores.

Começando com a sua chapa eleitoral que inclui nomes da direita tradicional como Alckmin, o apoio de Meirelles, Tebet etc. Mas também pelo amplo apoio que recebeu de setores da grandes burguesia, vários banqueiros e com apoio de parte expressiva do imperialismo, como Joe Biden. Seu programa de governo expressa justamente esta aliança burguesa e capitalista. Por isso não fala de revogar as reformas previdenciária e trabalhista, de reverter as privatizações ou de acabar com o teto de gastos para garantir recursos para as áreas sociais. Sua crítica a Bolsonaro é ele ´um mal gestor do capitalismo brasileiro. Por isso reivindica o agronegócio e diz que ninguém fez tanto por eles quanto os próprios governos do PT. Por isso, um futuro governo seu necessariamente atacará os trabalhadores para garantir a acumulação de capital.

Desmonte das lutas

Esse papel nefasto que cumpre Lula e o PT é demonstrado inclusive na tática que vem adotando desde antes das eleições. Ao desmontarem as lutas mas também a fazerem corpo mole no enfrentamento a Bolsonaro justamente porque depositam todas as fichas em uma saída meramente eleitoral, por dentro desta ricocracia. Esta política que no primeiro turno se traduziu em uma despolitizada campanha de vira voto e um populismo burguês de “esquerda”. Como consequência, o resultado do primeiro turno mostrou o tamanho do perigo, com vitórias importantes para o bolsonarismo.

Mais um giro à direita

E agora Lula consegue piorar ainda mais o enfrentamento com a ultradireita, ao fazer mais um giro a direita, buscando trazer setores ainda mais reacionários e ligados ao bolsonarismo para dentro da sua campanha e de um futuro governo. A “Carta aos evangélicos” não tem quase nada sobre a justa luta pela liberdade religiosa, mas tem muito de capitulação às pautas imposta pela direita mais conservadora do país: a negação ao direito ao aborto, a política de encarceramento em massa em relação as drogas e a promoção do obscurantismo nas ciências e na educação. Sob a desculpa de tentar ganhar votos entre os evangélicos trabalhadores, a Carta serve principalmente para dialogar com a famigerada bancada da bíblia e colocar setores do Centrão dentro da sua campanha e governo.

Estratégia

Construir uma saída revolucionária e socialista para o Brasil

O voto crítico sob hipótese nenhuma pode significar um apoio ao projeto de Lula e PT, muito menos um apoio ao futuro governo. Isso seria o caminho da derrota dos trabalhadores e ajudaria a fortalecer a própria ultradireita que queremos combater. Diante das ameaças autoritárias de Bolsonaro é necessário votar criticamente em Lula, mas fazemos isso dialogando com os trabalhadores sobre a necessidade de rechaçar toda o projeto do PT, nos manter independentes de seu bloco burguês e nos preparando para as batalhas contra a ultradireita e também contra um possível governo Lula.  Este é o único caminho coerente se quisermos enterrar de uma vez por todas a ultradireita: construindo a oposição de esquerda ao futuro governo, que combata o bolsonarismo e construa uma saída revolucionária e socialista para o Brasil.

No segundo turno, o voto crítico em Lula só se justifica pelo fato de Bolsonaro significar uma ameaças às liberdades democráticas. Este voto crítico deve servir  não para fortalecer o campo burguês de Lula, mas sim construir um campo de classe independente dos trabalhadores.

Não ajuda em nada a atuação de parte da esquerda que faz uma adesão sem críticas nenhuma ao projeto do PT. O PSOL, por exemplo, passou de malas e bagagens para a política de alianças com a burguesia desde o primeiro turno. Não só sem fazer críticas ao programa de Lula, mas, pior ainda, semeando a ilusão de que Lula vai atender alguma reivindicação dos trabalhadores.

O PCB e a UP se posicionaram pelo voto crítico, mas não fazem nenhuma crítica. Aqui reafirmamos: não alertar os trabalhadores da política capitalista de conciliação de classes do PT, desarma os trabalhadores frente ao imperialismo, à burguesia e ao próprio bolsonarismo e a ultradireita.