Valeu, Ricardo! Um beijo!

Wilson H. Silva

Soube há pouco que o Carlos Ricardo Silva nos deixou. Amigo amado intensamente e companheiro daqueles que se enquadram na categoria do “imprescindível”, como já disse Brecht – os que dedicam sua inteira vida à luta pela liberdade e a igualdade – o Ricardo era (e sempre será…) um militante literalmente histórico do PSTU. Veio da Liga Operária, lá nos idos 1970, o grupo que está na raiz da Convergência Socialista, a principal organização que impulsionou a fundação de nosso partido.

Para mim, esse é um momento de extrema dor. Uma dor revestida de um amargo gosto de “descanse em paz”, em função do quanto o Ricardo estava sofrendo nos últimos tempos com a piora de suas condições de saúde. E, por isso mesmo, escrever sobre ele e a minha forma de lidar com isto e, ao mesmo tempo, contribuir para que, de fato, o Ricardo continue “presente” entre nós.

Presente no legado, político, social, pessoal e artístico, que nos deixou. Presente na nossa memória. Presente na vida daqueles e daquelas que, como eu, tiveram o prazer indescritível de compartilhar parte de nossas próprias histórias pessoais com ele.

Eu, particularmente, devo muito da minha história a ele. Cerca de uma década mais velho do que eu, o Ricardo é um dos que está na raiz da maioria das coisas que sou, faço e penso. Seu rosto iluminado, seu sempre malicioso sorriso, seus olhos cheios de vida aparecem nas lembranças mais antigas que tenho da minha militância.

O conheci assim que comecei a militar, em 1978, e particularmente depois que ingressei na CS, em 1980. E foi um daqueles encontros que, de verdade, mudam a vida porque dele eu via fluir duas coisas que se tornariam centrais em minha existência: uma paixão militante pela arte e a cultura e uma militância apaixonada contra a LGBTfobia.

Não me estranha que, até hoje, seu nome, nas minhas agendas e anotações de reunião, seu nome sempre aparece ao lado da palavra “artista”. Ele era o Ricardo-artista.

Em primeiríssimo lugar no sentido mais puramente etimológico do termo, que vem de “ars”; ou seja, fazer ou realizar algo. Era um cara que “fazia e acontecia”. Um daqueles que amo: um exagerado. Na vida. Na militância. Em tudo.

Mas, Ricardo estava, sim, mergulhado no mundo das Artes. Particularmente do Teatro. Aqueles e aquelas que são jovens e militam pelo PSTU em qualquer lugar do país precisam saber que o (lamentavelmente pouco) que conseguimos formular em torno de temas como Arte e Cultura tem a ver com ele (e, não dá pra não mencionar, a “dupla dinâmica” que ele formava com a também saudosa Cilinha, a Cecilia Toledo).

Artista no sentido mais profundo e amplo do termo, ele não só nos ajudou a pensar sobre o tema, mas também a fazer Arte e militar em torno dela. Quando necessário, escrevia documentos e textos, defendendo suas ideais. De forma quase que obsessiva, sempre tentou organizar núcleos, seminários etc. com os/as artistas e agitadores (as) culturais do partido.

Socialista até a medula, organizou o sindicato da categoria, no qual militou por décadas. E, para nosso prazer, ainda nos brindou com montagens, espetáculos e produções.

Aprendi muito com ele em tudo o que tem a ver com isto e, olhando para trás, só sinto que não pudéssemos ter trabalhado mais de perto.

Mas, antes, para além e junto e misturado com tudo o que fazia, Ricardo era veado. Um adorável viado. E eu poderia escrever centenas de páginas sobre o como, ao lado do James N Green e o do Hiro Okita (principalmente, mas não só…), o fato de conhecer uma figura como ele no início dos 1980 foi importante pra mim.

Desnecessário dizer o que isto significou em termos militantes. Eles, além de muita mais gente, estavam construindo o SOMOS, me propiciaram um dos momentos mais lindos e marcantes da minha vida, que foi ver um grupo de LGBTs entrando no ato do Primeiro de Maio, na Vila Euclides. E sempre agradecerei o Ricardo por tê-lo tido como um dos meus “professores”. E não só na política.

Há exatamente um ano atrás, postei um “vale-drink” da Homo Sapiens (a HS, a boate-gay referência daquela época) que achei no meio de um livro meu. E há uma gigantesca possibilidade de que aquilo tenha ido parar no meio do meio livro enquanto conversava com o Ricardo, no balcão do pé-sujo que ficava na frente da HS ou em algum boteco da área.

Ter tido o prazer de ter uma figura como o Ricardo como um dos meus “cicerones” pela noite de Sampa é uma daquelas coisas que não têm preço. Muito conhaque e muita bobagem. Muito cigarro e felinas fofocas. Muito delírio e deliciosos papos-cabeça… Ah! Que saudades!

Do Nostro Mundo ao Riviera. Do Cine Belas Artes, uma horinha na porta da Medieval e seguir Augusta abaixo. Uma noitada nos cineclubes da Praça Rosevelt e uma cerveja no Corsário. Uma peça no Bixiga e ficar na calçada vendo os moços lindos passando com seus jeans apertados. Bons tempos.

Tempos de muita militância, também. Contra o Richetti e outros ancestrais de Bolsonaro, Damares e deformidades humanas da mesma laia. Militância acirrada contra epidemia que se instalou de forma tão brutal em nossas gerações e a LGBTfobia que aumentou no mesmo ritmo de seu contágio.

E, se não bastasse, Ricardo era livreiro. Daqueles que, quando você está meio que paquerando a banca, te apresentam o livro como um amigo antigo ou um amante que te marcou profundamente. Hoje, fico feliz de tê-lo “alugado” tanto quando, hás uns 15 anos, comecei a dar aulas para o povo de Artes Cênicas. Quantas conversas boas!

Em suma, neste momento queria homenagear o Ricardo meio que socializando com os mais novos o quanto a palavra “PRESENTE” faz sentido quando mencionarmos seu nome daqui por diante. Ele é parte só da minha história. Ele é parte da história do partido e da Internacional no qual muitos de nós militamos. Ele é parte da história do movimento LGBT, do movimento sindical. É parte da história da luta pela independência da Arte. Pela Arte Revolucionária.

E, por isso mesmo, principalmente para a gente que como eu há muito não acredita em um tipo de “eternidade” associada a uma “alma” imaterial e sobrenatural ou num “paraíso” que se construa para além da própria humanidade, falar do Ricardo e, hoje, em meio à dor, celebrar sua vida, é, sim, eternizá-lo.

Eternizá-lo como parte de nosso acúmulo histórico. Eternizá-lo através do compromisso de que seguiremos adiante, levantando as mesmas bandeiras que ele ergueu, com orgulho, humor felino e disposição de menino, até quando já não lhe faltavam forças (como vi e ouvi nas últimas vezes que o encontrei estas semanas).

Eternizá-lo com o compromisso de que iremos sim erguer o mundo livre e igualitário ao qual ele dedicou sua vida.

Valeu, Ricardo! Um beijo!