Bolsonaro e o presidente afastado da CBF, Rogério Caboclo. Foto Lucas Figueiredo/CBF

“Quero mudar meu país, quero mudar meu povo, sempre” (Sócrates, ex-jogador da Seleção brasileira de futebol)

Professor Zé Roberto, Itabuna (BA)

Como parte de sua política genocida, o governo Bolsonaro aceitou sediar a Copa América no Brasil com a pandemia descontrolada e chegando a 500 mil mortos no país. A mesma agilidade do governo em aprovar e autorizar a realização desta que já está sendo apelidada de “Cepa América” ou “Cova América” não foi visto na assinatura dos contratos com os laboratórios para aquisição das vacinas, nem na aquisição de oxigênio para Manaus, nem para aprovação do Auxílio Emergencial para os milhões de trabalhadores que estão passando fome nesse momento.

Na mesma semana que aceitou sediar a Copa América, Bolsonaro seguiu a com a sua política genocida: defendeu que as pessoas vacinadas e as que se recuperaram da Covid-19 sejam desobrigadas a usar máscara, contrariando novamente as recomendações de  autoridades sanitárias do mundo todo, que já comprovaram com estudos que vacinados e recuperados podem contrair e continuar infectando outras pessoas. Apenas 11,1% da população brasileira recebeu as duas doses da vacina até agora. A vacinação ocorre de forma lenta por causa da recusa do governo Bolsonaro na aquisição dos imunizantes ano passado.

A Vergonhosa posição dos jogadores da seleção Brasileira

Quando Conmebol, junto com a CBF e o governo brasileiro, anunciaram a realização da Copa América no Brasil, houve uma surpresa geral dos jogadores e da Comissão Técnica da seleção. O torneio marcado inicialmente para Colômbia e Argentina foi cancelado nesses países devido à situação da pandemia e das grandes mobilizações e protestos populares da Colômbia. O Chile também não quis sediar o evento. Para muitos, um clima de rebelião rondava a seleção brasileira após a reunião da comissão técnica com os jogadores, que demonstraram inicialmente insatisfação com a realização do torneio no Brasil.

A principal reclamação era de que os atletas e comissão técnica não foram consultados sobre a mudança da sede. Os jogadores ameaçaram boicotar o evento e prometeram lançar um manifesto após o jogo das eliminatórias da Copa de 2022 contra o Paraguai, na terça feira dia 8.

Paralelo a isso, alguns governadores proibiram a realização dos jogos em seus estados. O governador de São Paulo, João Dória que aceitou sediar os jogos, de última hora resolveu mudar de posição temendo desgaste político, assim como Rui Costa (PT), na Bahia. Grandes empresas patrocinadoras da Copa América como a MasterCard, a Ambev e Diageo abriram mão de divulgar suas marcas nos jogos, temendo boicotes e cancelamentos do público. O STF (Supremo Tribunal Federal) em sessão extraordinário iniciou nesta quinta feira (10) o julgamento sobre a legalidade da Copa América no Brasil.

Na semana do anúncio da Copa América no Brasil ainda veio à tona uma denúncia de assédio sexual e moral do presidente da CBF, Rogério Caboclo, contra uma funcionária dessa mesma entidade, que colocou ainda mais em xeque a realização do torneio.

O Manifesto que não manifesta nada

Após a vitória contra o Paraguai por 2 x 0 na última terça (08), os jogadores da seleção lançaram o prometido manifesto. No texto dizem “Somos contra a organização da Copa América, mas nunca diremos não à Seleção Brasileira”. O texto bastante vago apenas se reduz a dizer que é contrário à condução da realização da Copa pela Conmebol. Nenhuma crítica é feita a CBF ou a decisão do governo brasileiro de sediar a Copa América no Brasil.

Treino da Seleção Brasileira no CT do São Paulo. Lucas Figueiredo/CBF

Também não cita a pandemia e os quase 500 mil mortos por Covid no Brasil. Não se solidariza com as famílias dos mortos. Resumindo: o documento não diz absolutamente quase nada e, na prática, se alinha covardemente ao governo brasileiro e à CBF na realização deste evento. Ao dizer que não querem assumir uma posição política os jogadores acabam assumindo uma posição ao lado do governo Bolsonaro e da CBF.

Diferentemente dos jogadores de basquete da NBA nos EUA, que boicotaram os jogos em protesto contra a violência racista da polícia, em resposta ao assassinato George Floyd, os jogadores da seleção brasileira assumiram uma posição covarde e cúmplice com o governo genocida de Bolsonaro que é o principal responsável pelo total descontrole da pandemia no Brasil com sua política genocida e negacionista.

Não é somente dentro dos gramados que a seleção brasileira vem fazendo feio, com um futebol medíocre de resultados, que vence, mas não empolga ninguém. Fora de campo, Neymar, o principal jogador da seleção assume posições vergonhosas, dando apoio ao governo genocida de Bolsonaro e promovendo festas em suas mansões sem demonstrar nenhuma empatia pelos quase 500 mil mortos de covid no Brasil. O atacante Gabigol também foi flagrado em boates com aglomerações, dando um péssimo exemplo à população.

Esse manifesto dos jogadores demonstra o abismo existente entre os atletas milionários da seleção que vivem em mansões, recebem salários milionários e se omitem em relação à situação desastrosa que vive o povo trabalhador brasileiro, desempregado, padecendo de fome e morrendo de covid nesta pandemia. Não existe nenhuma preocupação desses atletas com a situação do povo brasileiro e isso ficou demonstrando nesse texto ridículo do Manifesto.

A CBF é um antro de cartolas corruptos que comandam de forma antidemocrática o futebol brasileiro desde sempre, com o único objetivo de lucrar com os negócios da bola. De João Havelange, passando por Ricardo Teixeira, José Maria Marin, Marco Polo Del Nero, os escândalos envolvendo negociatas e toda sujeirada é parte da vida cotidiana desta organização. O atual escândalo que gerou o afastamento do atual presidente Rogério Caboclo é mais um para a coleção desta entidade podre. A subserviência da CBF à Conmebol é parte desse esquema onde a única coisa que importa são os lucros dessas entidades.

Bolsonaro com sua política genocida sempre foi contra as medidas de isolamento social e pessoalmente incentivava as aglomerações, o não uso de máscara, foi contra a aquisição das vacinas, recusando-se a assinar os contratos de fornecimento com diversos laboratórios como tem sido demonstrado na CPI da Covid no Senado.

Além disso, Bolsonaro fez propaganda para as pessoas boicotarem a vacina, colocando dúvidas sobre a eficácia das vacinas  e propagando fake news. Ao mesmo tempo, com o seu pau mandado e ex-ministro da saúde, General  Pazuello, promoveu, através de seu gabinete paralelo da morte, o uso indiscriminado da cloroquina para tratamento da Covid, mesmo com as autoridades médicas comprovando a ineficácia desse medicamento. Os crimes do presidente e seus aliados levaram o país a ser o laboratório do novo coronavírus no mundo.

Fortalecer a luta pelo Fora Bolsonaro e Mourão e repudiar a realização da Copa América no Brasil

Os trabalhadores, o povo pobre e a juventude conseguiram dar uma demonstração de força nas ruas no último dia 29 de maio, realizando manifestações em todo Brasil pelo Fora Bolsonaro e Mourão, em defesa da vacina e do auxilio de R$ 600 reais. Devemos ampliar a mobilização, para que no dia 19 de junho possamos fazer uma mobilização ainda maior para derrubar, com a ação direta nas ruas, esse governo genocida. Vamos à luta!

PS: Logo após a finalização deste texto foi divulgada a notícia de que cinco pessoas da comitiva da seleção da Venezuela foram diagnosticadas com Covid, já no Brasil. A seleção venezuelana é a primeira a enfrentar o Brasil neste dia 13. Mesmo antes de começar, a iniciativa irresponsável e criminosa da realização da Copa América já mostra seus efeitos, ameaçando com a disseminação de novas cepas no país que é ainda o epicentro da pandemia no continente. Isso ameaça não só um agravamento da pandemia, como coloca em risco os efeitos da parca vacinação já realizada no Brasil.