Foto Roosevelt Cassio/SindmetalSJC

Neste momento, os ativistas estão envolvidos nas suas mobilizações específicas e nas campanhas eleitorais de seus candidatos.

Mas, para uma parcela desses ativistas, entre eles os que romperam com o PSOL depois de sua adesão à candidatura Lula- Alckmin, existe um outro tema fundamental, estratégico: o que colocar no lugar do PSOL?

Várias respostas a essa pergunta podem ser dadas. Construir um novo partido, semelhante ao PSOL, mas “mais à esquerda”, sem “os erros do PSOL”? Ou se deve avançar para uma FIT (Frente de Esquerda dos Trabalhadores), semelhante a existente na Argentina? Ou o necessário seria construir um partido revolucionário, semelhante ao PSTU?

A resposta a essa pergunta estratégica pode ressignificar a militância desses ativistas nos próximos anos, e talvez ainda mais. Por isso achamos muito importante fazer esse debate.

Queremos propor que esta discussão seja feita também através do Polo Socialista e Revolucionário. Não porque o Polo seja esta alternativa. Não é e nem pretende ser. Mas porque o Polo é um espaço onde podemos fazer esse debate, de maneira franca e fraterna entre nós

Em nossa opinião, o que é necessário é uma organização capaz de dirigir o movimento de massas a uma revolução socialista. Um partido que, apoiado na força da mobilização das massas, destrua o Estado burguês e coloque a classe trabalhadora no controle do poder político do país para inaugurar a transformação socialista da sociedade. Isso é assim porque não acreditamos que o socialismo será alcançado através de eleições, e sim de uma revolução.

Esses dois objetivos diferentes requerem dois tipos de partidos. Se é um partido para disputar eleições, deve se organizar um partido do tipo eleitoral. Se é uma organização para buscar dirigir uma revolução socialista, é preciso construir um partido revolucionário.

Por que ocorreu o que ocorreu com o PSOL?

Antes de se avançar para qualquer resposta é necessário ter um balanço preciso do que aconteceu com o PSOL. E um balanço da experiência do PSOL precisa, em primeiro lugar, reconhecer que esse partido sempre foi um partido reformista eleitoral. Nunca se propôs à tarefa de levar o movimento de massas à uma revolução socialista para destruir o Estado burguês, e sim o de conseguir reformas pela via eleitoral.

Nas cabeças de muitos ativistas esse objetivo viria com o tempo, na medida em que avançasse a situação da luta de classes. E isso não é assim. Nós temos na história centenas de exemplos de partidos revolucionários que foram destruídos pelas pressões da democracia burguesa, e se transformaram em reformistas. Mas não temos nenhum exemplo na história de partidos reformistas que se transformaram em revolucionário. E isso tem uma explicação objetiva: a adaptação destes partidos às pressões que recebem da democracia burguesa, que os leva a limitar sua atuação aos limites da institucionalidade burguesa.

Se isso é assim, como se deve entender a evolução até o apoio a Lula- Alckmin? Trata-se de um erro tático? Ou a expressão de uma estratégia?

Para nós, a resposta é categórica. Não se trata de um problema conjuntural, tático, como querem mostrar os setores de esquerda que permaneceram no PSOL.

O PSOL, além da aliança eleitoral com Lula- Alckmin, compôs uma federação com a Rede Solidariedade, um partido burguês. São passos estratégicos. Trata-se de um caminho sem volta, e por isso felicitamos os ativistas e grupos que romperam com esse partido. O PSOL está deixando de ocupar o espaço político que sempre ocupou, à esquerda do PT, para ser uma espécie de agregado, ou associado direto do PT. Mas ele já tinha uma definição estratégica reformista eleitoral quando era um espaço à esquerda.

E isso acontece porque está seguindo o mesmo caminho trilhado pelo PT, do reformismo eleitoral para o reformismo que ocupa os governos. Ou seja, que aceita o papel de administrar o capitalismo desde os governos, junto com a burguesia. Não é nenhuma novidade que a presença na aliança eleitoral com Lula- Alckmin é um caminho direto para a participação do PSOL em um possível – e provável – governo do PT em 2023.

Trata-se de uma mudança importante para um partido que se originou exatamente da experiência com o primeiro governo petista em 2003. Quando Lula impôs uma reforma da Previdência neoliberal, quatro parlamentares votaram contra, e logo depois foram expulsos do partido. Isso gerou um movimento de reorganização política ao redor desses parlamentares que levou à fundação do PSOL. O PSOL, apesar de se apresentar como “mais à esquerda” que o PT, desde o início fez acordos com setores da burguesia e nunca teve a mesma base de trabalhadores do PT.

Agora, o PSOL faz o caminho de volta, aceitando a aliança eleitoral e a provável participação em um governo Lula em 2023, que tem tudo para ser mais à direita que o de vinte anos atrás.

Trata-se do fim de linha para toda uma geração de ativistas que se encantou com a ideia de um “partido amplo, democrático, anticapitalista, que unia muitas correntes”.

Essas decisões – apoio a Lula – Alckmin e a federação com a Rede, foram tomadas burocraticamente por uma “conferência”, que na verdade era composta pelos mesmos componentes da direção nacional do partido.

Basta voltar à década de 80 do século passado para constatar um processo de reorganização muito mais rico, que teve um resultado semelhante. Foi o que envolveu dezenas de milhares de ativistas operários, estudantis e populares, fruto de todo o ascenso das greves daquele período, e que levou à formação da CUT e do PT.

Com a eleição de Lula e os governos petistas, toda essa geração foi esterilizada para qualquer perspectiva revolucionária. A ampla maioria se integrou ao aparato de Estado burguês (como parte dos mandatos parlamentares ou cargos de governos) ou abandonou, desiludida, a militância.

Essas experiências desastrosas do PT e do PSOL deveriam levar a uma reflexão por todos estes ativistas que estão agora rompendo com o PSOL. Por que isso aconteceu? Buscar essa resposta é importante para evitar embarcar em um novo projeto que vai gerar novo fracasso no futuro.

A nossa opinião é que, tanto o PT como o PSOL, tiveram esse caminho porque se integraram à institucionalidade da democracia burguesa, e foram, com ritmos distintos, deixando de lado qualquer perspectiva socialista, ou de independência de classe. Os setores de esquerda que existiam nesses partidos foram sendo derrotados e marginalizados. E isso ganhou outra dimensão, aos esses partidos chegarem ou se prepararem para chegar aos governos.

Um partido reformista eleitoral na oposição pode se dar ao luxo de defender reformas cuja amplitude não seja aceita pela burguesia. Ao se preparar para chegar ao poder, e mais ainda já no poder, tem de simplesmente administrar o capitalismo dentro dos limites estreitos definidos pela burguesia. E esses limites são cada vez menores pela crise do capitalismo e a decadência do país.

Os exemplos semelhantes a nível internacional

O percurso da socialdemocracia europeia – com os partidos socialistas como PSOE espanhol ou o PASOK grego – é bem conhecido. Esses partidos, que eram na sua origem partidos operários, evoluíram com distintas realidades e ritmos para a gestão de governos burgueses. Hoje muitos deles são partidos burgueses com bases em setores de massas. Tiveram, e seguem tendo, um papel fundamental na implementação dos planos neoliberais na Europa.

Mas, pelas crises e desgaste desses partidos nos governos, se abriu um espaço à esquerda que foi ocupado pelos “partidos anticapitalistas”, como o Bloco de Esquerda (Portugal), NPA (França), Refundação Comunista (Itália), Die Linke (Alemanha), e outros partidos que sequer se definem como anticapitalistas como  Syriza (Grécia) e Podemos (Espanha).

A ideia básica, que parecia bem atraente, era ocupar o espaço eleitoral deixado vago pelo desgaste da socialdemocracia. Para isso, formar partidos “anticapitalistas”, sem um programa revolucionário socialista definido, porque afinal isso seria “radical demais” para participar de eleições. Poderia assim “juntar todos os setores, mais revolucionários ou mais reformistas”, ao redor de um “programa anticapitalista”.

Isso significa, na verdade, que são programas reformistas, já que não defendem a revolução socialista, apenas reformas no capitalismo. Tampouco defendem a independência política dos trabalhadores. Consideram normal governar junto com setores da burguesia. Por isso não se afirmam sequer como socialistas, mas “anticapitalistas”. O Podemos e Syriza nem sequer como anticapitalista se definem, e sim na defesa de uma “nova política”.

Existem ativistas de esquerda nesses partidos, que defendem sinceramente a revolução socialista e a independência de classe. Mas a dinâmica é sempre dada pelos parlamentares e governantes. Afinal de contas, são partidos eleitorais, e são os parlamentares que têm mais prestígio e aparato nesses partidos. Os setores de esquerda em geral terminam isolados, ou mesmo expulsos. E, se permanecem no partido, acabam apenas servindo para “legitimar” em sua área de influência a política da direção do partido que é contrária aos interesses dos trabalhadores.

Esses partidos se definem como “amplos”, sem nenhum grau de centralismo, porque afinal de contas isso seria “burocrático”. Isso é aparentemente democrático, por causa do rechaço de muitos ativistas ao centralismo burocrático stalinista.

Na verdade, esses partidos têm a mesma estrutura dos partidos socialdemocratas, ultraburocráticos, porque a base não decide nada.

Como não se centralizam pelas resoluções de votações de congressos de bases, o que determina a posição pública desses partidos é a política dos parlamentares e ou governantes, que tem acesso direto à imprensa.

O “democrático” Podemos era dirigido por Pablo Iglesias que expressava sua posição individual por cima de todo o partido. Syriza no governo, desconheceu não só a posição de suas bases, mas até mesmo a votação de um plebiscito que decidiu pela não aceitação do plano do FMI na Grécia, mas que foi imposto pelo governo deste partido.

Acontece da mesma maneira no Brasil. O governo Lula não aplicou o programa ultralimitado aprovado pelos congressos do PT. No PSOL, Boulos retirou sua candidatura ao governo do estado, passando por cima da decisão da conferência estadual do PSOL. Edmilson Rodrigues, prefeito de Belém pelo PSOL, governa como quer, em aliança com a burguesia e parceria com o governo estadual do MDB, sem nenhuma consulta às bases. Na verdade, esses partidos são ultraburocráticos, porque a base não decide nada.

São partidos montados para as eleições, adaptados à institucionalidade burguesa. Partidos reformistas, dirigidos burocraticamente pelos parlamentares.

O peso da institucionalidade burguesa

O destino do PSOL segue o mesmo caminho dos outros partidos anticapitalistas da Europa e do PT no Brasil. Ao ser um partido eleitoral, adaptado à institucionalidade da democracia burguesa, sua dinâmica está sendo dada pelos parlamentares.

A democracia burguesa possibilita que quadros da esquerda tenham acesso a cargos e verbas do aparato de Estado em um nível que altera diretamente seu modo de vida, muito acima da realidade dos trabalhadores. O PT, somente de fundo eleitoral, vai receber R$ 503 milhões nesse ano, e o PSOL R$ 100 milhões. A isso se somam centenas ou milhares de cargos de parlamentares e seus assessores. No caso de governos, isso se multiplica por muitas e muitas vezes.

Esses partidos não se sustentam com a contribuição voluntária dos trabalhadores de suas bases, mas das verbas do Estado burguês.

Como a existência determina a consciência, esses quadros passam a girar suas vidas ao redor de como manter os mandatos e cargos. Não por acaso, os processos eleitorais passam a ser o centro das atividades desses partidos. Assim se esterilizam milhares e milhares de ativistas que vieram do movimento de massas.

Além disso, a convivência direta e aliança com setores da burguesia, acaba por estreitar os laços diretos com eles no financiamento das campanhas eleitorais.

Não é por acaso que existem ligações diretas hoje de Lula e José Dirceu com grandes empresas. Da mesma forma com Edmilson no governo de Belém.

Não se trata de uma “deformação” individual no interior desses partidos, mas da evolução natural como consequência da adaptação à institucionalidade burguesa, ao seu Estado e regime.

Nesses partidos eleitorais, quem dá a dinâmica de suas direções são os parlamentares, que têm mais prestígio, mais relação com a mídia, e mais aparato, com mais cargos e dinheiro. São eles, também, que podem ganhar as “convenções”, movendo com mais aparato ou diretamente comprando os filiados para votar.

Não é por acaso que a lógica desses partidos seja um caminho para a direita. A socialdemocracia europeia teve a evolução já conhecida. O grande teste dos partidos anticapitalistas veio quando Syriza, em 2015, ganhou as eleições na Grécia, despertando enormes expectativas. Mas aplicou o mesmo plano do FMI, mesmo depois de sua rejeição no plebiscito.

A Refundação Comunista integrou o governo burguês de Romano Prodi entre 2006-2008. Desde então entrou em uma crise profunda, quase desaparecendo da realidade política italiana.

O Podemos integra o governo do PSOE na Espanha, deixando de lado também a defesa da “nova política”. Agora está em plena decadência, inclusive eleitoral. O Bloco de Esquerda em Portugal participa do governo do Partido Socialista, e vive também uma crise importante.

No Brasil, o PT teve o destino que já conhecemos. E agora o PSOL apoia Lula e Alckmin, fez uma federação com a Rede e se prepara para entrar em um possível governo Lula.

É impressionante como, perante realidades da luta de classes e de países tão diferentes como Espanha, Grécia, Itália, Portugal, Brasil existam processos semelhantes na evolução desses partidos “anticapitalistas”. O que une essas realidades é o peso da institucionalidade da democracia burguesa sobre esses partidos.

Um novo partido anticapitalista mais à esquerda?

Depois da ruptura com o PSOL, a construção de um novo partido anticapitalista pode ser uma saída? A nosso ver, não. Caso repita as características desse tipo de partido, de adotar um programa reformista, de ter um caráter eleitoral, e uma estrutura socialdemocrata, vai acabar repetindo a mesma história do PT e do PSOL.

Isso não depende de boas intenções. Basta que lembremos dos ativistas, dirigentes e grupos que ajudaram a fundar o PT e o PSOL no passado, e ver como estão hoje, ao se passarem para a institucionalidade burguesa. Muitos deles tinham excelentes intenções e mesmo defendiam posições à esquerda. Ao serem partidos eleitorais, seus quadros vão se adaptar às eleições e à democracia burguesa.

Caso esse novo partido seja a unidade entre correntes reformistas e revolucionárias, necessariamente vai ter de adotar um programa reformista, como um denominador comum. Não existe, nesse caso, um meio termo, nem possibilidade de consenso. Ou se defende uma revolução socialista, com a destruição do Estado burguês e a construção de outro Estado, ou se defende fazer reformas no Estado burguês. E isso vai acabar determinando um caráter reformista ao conjunto do partido.

Como se demonstrou na evolução de todos os partidos com essa característica central reformista eleitoral, os setores reformistas vão acabar dando a dinâmica, exatamente por serem consequentes com a característica central do partido, e por estarem atuando a favor e apoiados nas pressões da institucionalidade burguesa que se abatem sobre o partido. Com o tempo vão isolando, derrotando ou assimilando os grupos e ativistas de esquerda revolucionária (que também tendem a se deformar e abandonar suas origens em um ambiente como esse).

A “unidade entre reformistas e revolucionários” se transforma, inevitavelmente, em uma organização reformista. Vale a pena que todos os ativistas que defendem a revolução socialista pensem na evolução não só do PT e do PSOL, mas de todos os partidos reformistas eleitorais no mundo.

Caso esse partido adote uma estrutura socialdemocrata, vai acabar tendo a mesma dinâmica de ser dirigido burocraticamente pelos parlamentares, sem nenhum peso das bases.

Seria importante nesse debate que os que defendem a construção de “um novo PSOL mais à esquerda”, apresentassem a nível nacional e internacional exemplos diferentes desses que estamos citando. A nosso ver esses exemplos não existem, por um motivo político e material: o peso da institucionalidade burguesa atuando nos mais diferentes países e situações da luta de classes.

Ou seja, em nossa opinião, a construção de um “novo PSOL, mais à esquerda”, vai retomar o caminho do velho PSOL e do PT: a adaptação a institucionalidade burguesa.

A alternativa seria a construção de uma FIT-U, à semelhança da Argentina?

A FIT-U é uma frente eleitoral permanente, que existe desde 2011 e inclui partidos de origem trotsquista, como o PTS, PO, Izquierda Unida e MST. Está tendo um peso eleitoral importante, com resultados que a tem colocado como a terceira força eleitoral do país.

Muitos ativistas opinam que esses resultados na Argentina justificam ter no Brasil a mesma política. Na verdade, opinam que essa deve ser a política em todos os países da América Latina, independentemente de sua realidade.

Nós opinamos que uma tática eleitoral de frente única, com um programa socialista, revolucionário e de independência de classe pode ser uma boa política, como é o caso do Polo Socialista e Revolucionário no Brasil de hoje.

Mas uma tática eleitoral não pode se transformar em uma estratégia, a não ser que nossa estratégia para transformar o país fossem as eleições. Como nossa estratégia não é essa, então tampouco nossa organização deve responder a este objetivo.

Uma estratégia revolucionária pode e deve ter uma expressão tática eleitoral. Enquanto os trabalhadores acreditarem nas eleições e não houver uma possibilidade real insurrecional à vista, é uma obrigação dos revolucionários participarem de eleições para divulgar o programa revolucionário.

Mas a tática eleitoral não pode se transformar e, menos ainda, substituir uma estratégia. Nesse caso, a estratégia passaria a ser as eleições – outro projeto político- com o abandono da perspectiva revolucionária.

A FIT-U é uma frente eleitoral permanente que, por seus próprios êxitos eleitorais, está levando os partidos que a compõem a colocar as eleições no centro de suas atividades. Uma tática se transformou em uma estratégia eleitoral. E isso é, a nosso ver, um erro grave.

Aqui também se expressa a pressão da institucionalidade burguesa, incluindo o peso material do financiamento pelo Estado burguês desses partidos. Essas organizações, todas elas de origem trotsquista, estão recebendo financiamento do Estado burguês de grande importância, o que amplia a pressão material sobre eles, como se passa com outros partidos de esquerda no mundo, como uma das mais importantes razões para a adaptação a institucionalidade burguesa.

Essa, decididamente, não pode ser uma estratégia para quem rompe com o PSOL exatamente pelas consequências da adaptação a essa institucionalidade.

Além dessa razão, para construir uma FIT-U no Brasil, seria necessário definir com quem. Seria impossível construir uma frente eleitoral de independência de classe com o PSOL ou o PT, por sua adesão à aliança com setores da burguesia.

Tampouco nos parece correto uma frente eleitoral com o PC ou com a UP, organizações stalinistas, como posições internacionais que acompanham as posições dos governos burgueses ditatoriais de Cuba, Nicarágua, Síria, etc. Hoje apoiam a invasão russa a Ucrânia ou se abstém de tomar uma posição.

A hipótese de frente eleitoral com o PC e a UP é um erro tático nessas eleições, mesmo com a negativa desses setores a apoiar Lula- Alckmin, em particular por suas posições internacionais. Mas transformar uma tática errada em uma estratégia seria amplificar e muito o erro, também desde o ponto de vista nacional. Trata-se de organizações stalinistas, com uma estratégia frente populista. Por isso já apoiaram governos burgueses no Brasil, como o PC apoiou João Goulart e o primeiro governo Lula. Por isso apoiam governos burgueses “progressivos”, como a ditadura síria e a chinesa.

O único partido trotsquista com peso na vanguarda e legalidade é o PSTU. Não existe no Brasil a mesma realidade argentina, na qual existem o PTS, PO, IS e MST. Nós do PSTU estamos a favor do Polo Socialista e Revolucionário nessas eleições, como uma frente eleitoral de independência de classe. Mas, como já dissemos, uma tática eleitoral não é uma estratégia permanente. Mesmo que houvesse outros partidos com o mesmo peso do PSTU, não estaríamos de acordo transformar uma tática eleitoral em uma estratégia permanente.

A única alternativa real é a de construção de um partido revolucionário, leninista e com centralismo democrático

Esta, sem dúvida, é a estratégia mais difícil. E que, provavelmente, levará mais tempo. Mas, a nosso ver, a única correta.

Ter um programa e uma política revolucionária, que defenda a revolução socialista é a única alternativa. Em particular nesse momento em que vivemos, quando a crueldade da exploração capitalista coloca de maneira viva e cruel a disjuntiva socialismo ou barbárie.

Por isso, o projeto necessário de lutar por uma revolução socialista para derrubar o Estado burguês e colocar a classe trabalhadora no poder, apoiado na força da mobilização das massas, exige um partido para o combate, e para a revolução.

Esse partido de combate deve estar voltado para a mobilização e organização da classe ao mesmo tempo que luta pela elevação de sua consciência, e a organização de sua vanguarda.

Esse partido deve participar dos processos eleitorais, na medida em que os trabalhadores acreditem nas eleições. Mas esse não deve ser o seu centro, e sim as lutas diretas das massas. E sua participação nas eleições deve estar dedicada centralmente à divulgação do programa revolucionário, e não simplesmente para eleger parlamentares, como fazem os partidos eleitorais.

Um partido revolucionário deve lutar contra a dominação da burguesia, e também contra seus representantes reformistas no movimento de massas. Não existirá possibilidade de uma revolução vitoriosa sem que os trabalhadores rompam com as direções reformistas que os dirigem.

Da mesma forma, o compromisso com as lutas diretas dos trabalhadores pressupõe a necessidade das táticas de frente única e unidade de ação, rejeitando o sectarismo infantil dos ultraesquerdistas. Isso significa também apostar em organismos de luta que expressem esse objetivo, como a CSP-Conlutas.

Mas construir um partido assim não é fácil.  É fundamental ter uma vida teórica interna e externa, que permita sustentar a elaboração contínua desse programa e política. Ao mesmo tempo, essa vida interna é o que permite o combate às correntes reformistas, centristas, pós-modernistas que atuam no movimento de massas, assim como o enfrentamento contra as pressões inevitáveis da democracia burguesa, do sindicalismo, etc.

Isso é fundamental, porque um partido revolucionário se constrói nas lutas políticas concretas e isso significa estar também submetido às pressões da realidade. Por exemplo, participar das eleições, mas não ser um partido eleitoral é toda uma definição de peso estratégico.

A pressão da democracia burguesa atinge a todos os setores da esquerda, inclusive a nós do PSTU. Não basta ter uma atuação centrada na luta direta das massas. É necessário também ter uma vida teórica e programática interna que permita a armação do partido para não só discutir coletivamente o programa e a política, como enfrentar as pressões da democracia burguesa.

Nem sempre conseguimos fazer isso. Não por acaso, uma ruptura do PSTU, pelas pressões da democracia burguesa, deu origem a uma corrente que hoje está na direita do PSOL. Quando alertamos os partidos de origem trotsquista que compõem a FIT sobre o erro de ter uma atividade política cotidiana sempre centrada nas eleições, estamos sinceramente falando de pressões que já sofremos no passado, que levaram a explosão do velho MAS na Argentina, e sofremos cotidianamente até hoje.

Ter uma estrutura centralista democrática é fundamental. Ao contrário do centralismo burocrático stalinista, existe um debate livre no interior de nossos partidos. Ao contrário do centralismo burocrático social democrata, são as votações da base do partido em nossos congressos que determinam a política do conjunto dos militantes.

O centralismo democrático está estreitamente ligado à necessidade do programa revolucionário. Uma estrutura centralista burocrática, do tipo socialdemocrata, é adequada a um partido eleitoral, dirigida por parlamentares. Uma estrutura centralista democrática é expressão da votação pela base nos congressos, depois de uma discussão livre, da política que vai ser aplicada até o próximo congresso. A elaboração dessa política é impossível sem uma participação direta do conjunto da militância, sua aplicação na realidade e as conclusões que se tiram a partir daí, dessa experiência coletiva, com as inevitáveis e necessárias correções da política. A elaboração da política dos partidos revolucionários é, assim, inseparável da participação viva e cotidiana do conjunto da militância e de seu contato com a realidade e do que pensam os trabalhadores e sua vanguarda. E o conjunto da militância vota a política a ser adotada por todos até o próximo congresso, com periodicidade anula ou bianual. As direções são eleitas e as políticas votadas pelos delegados nos congressos, em que podem ser formadas livremente tendências e frações.

Como se pode ver, esse funcionamento não tem nada a ver com o centralismo burocrático stalinista, que impede o livre debate interno. E tampouco tem a ver com centralismo burocrático parlamentar dos partidos com estrutura socialdemocrata como o PSOL, PT, etc., em que os parlamentares decidem o que fazer.

O centralismo é rejeitado por muitos ativistas como “burocrático”. Isso não é verdade. Pode ser burocrático em sua versão stalinista ou socialdemocrata. Mas pode ser extremamente democrático em sua versão leninista, com discussão livre entre todos os militantes e, depois da decisão coletiva, a atuação em comum com a posição votada. A centralização da atuação comum é fundamental porque nosso objetivo é a construção de uma revolução socialista, e não uma campanha eleitoral. E nunca houve na história uma direção revolucionária vitoriosa que não tenha sido centralizada.

Entendemos o processo revolucionário como internacional. A construção do partido revolucionário também deve ser parte de uma internacional revolucionária. Isso tem enorme importância, tanto para a elaboração da política nos marcos da realidade mundial como para se combater as inevitáveis pressões nacionais.

Não achamos que o PSTU é “o partido” já pronto. Nós defendemos o PSTU como um embrião para este partido, que só poderá ser construído pela incorporação dos ativistas que concordarem com um programa revolucionário e um regime centralista democrático.  Mas temos orgulho do que estamos fazendo, e convidamos os companheiros a compartilharem conosco esta estratégia.