Bolsonaro durante reunião com embaixadores Foto: Reprodução

Bolsonaro subiu o tom das ameaças golpistas e autoritárias. A reunião com os embaixadores foi gravíssima. Com o papo de urnas eletrônicas inseguras, tenta transformar sua provável derrota em vitória. Atacou novamente o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e o Supremo Tribunal Federal (STF), como se estes fossem os golpistas por combaterem os crimes bolsonaristas como as fake news e as ameaças autoritárias.

Mas é Bolsonaro quem está atacando as eleições, estimulando a violência política e mobilizando a extrema direita, alegando fraude. Inclusive, conta com apoio em parte das Forças Armadas, particularmente nos setores da reserva, mas vem buscando incidir sobre os oficiais da ativa, por meio do ministro da Defesa, Paulo Nogueira de Oliveira, que faz coro com Bolsonaro e defende votação paralela em cédula de papel.

O Judiciário, por sua vez, capitula ao próprio Bolsonaro ao não apurar e julgar a fundo os crimes cometidos por seu clã. Além disso, convidou os militares para supervisionar as eleições.

Todo esse rebuliço provocado por Bolsonaro serve para angariar votos e tentar ganhar a eleição. Mas ele vem se preparando para não reconhecer a derrota nas urnas. Por isso, segue armando e insuflando a violência política para tentar criar confusão e descontrole que possibilitem até mesmo uma tentativa de golpe ao estilo da invasão do Capitólio nos EUA.

Embora neste momento seja difícil sustentar um golpe, isso não muda o fato de que Bolsonaro está se preparando para vários cenários. Se usar setores da polícia e das Forças Armadas para realizar alguma medida de força, quem poderá detê-lo? Apenas os trabalhadores mobilizados, organizados e preparados para isso, com independência de classe, sem confiar na burguesia e construindo sua autodefesa.

A violência da ultradireita

O episódio do assassinato de Marcelo Arruda, do PT, no Paraná, pelas mãos de um bolsonarista é o retrato da violência estimulada pela ultradireita. Jorge Guaranho atacou uma festa que tinha como tema homenagens ao PT e a Lula e ainda gritou “aqui é Bolsonaro” antes dos disparos. Absurdamente, a Polícia Civil concluiu que o crime não teve motivações políticas, fazendo o jogo do bolsonarismo.

Não foi um episódio isolado. Dias antes, outro bolsonarista jogou uma bomba de fabricação caseira com fezes no ato de Lula no Rio de Janeiro. Isso depois de outro ataque desse tipo com drone também em um evento do PT em Uberlândia (MG). E, mais recentemente, Rodrigo Amorim, deputado bolsonarista, juntamente com seus seguranças armados, intimidou com ameaças uma atividade de rua de Marcelo Freixo no Rio de Janeiro.

Segundo estudo da Universidade do Rio de Janeiro (Unirio), a violência política aumentou 23% neste ano, comparado a 2020. Desde o início do governo Bolsonaro, o número de licenças para CACs (Colecionadores, Atiradores e Caçadores) cresceu 262%, já chegando a 605 mil civis armados, além de mais de 300 mil membros das Forças Armadas, sem contar as polícias.

A responsabilidade por essas ações é inteiramente de Bolsonaro. Na live da semana anterior ao assassinato de Marcelo Arruda, disse: “Você sabe o que está em jogo, e você sabe como deve se preparar (…) nós sabemos o que devemos fazer antes das eleições.” E, assim, bolsonaristas mais radicais se sentiram no direito de agir. Não há evidencias que os ataques tenham algum um nível de organização ou orquestração, mas isso não os torna menos graves, e coloca a necessidade de uma resposta dos trabalhadores.

Bolsonarismo, golpismo e violência são frutos do capitalismo

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A ultradireita mundial é expressão de um setor da burguesia que defende a manutenção do capitalismo por meio de medidas cada vez mais ditatoriais, autoritárias e violentas para aplicar níveis maiores de superexploração e barbárie. Por isso, a violência contra os opositores e contra os trabalhadores está em seu DNA.

Bolsonaro é hoje a expressão disso, com a especificidade brasileira e do papel histórico da burguesia nacional atrasada, violenta e parasitária, sócia menor do imperialismo e sem programa de desenvolvimento algum do país.

Se na democracia burguesa os patrões já tiram nosso coro e temos poucos direitos, imaginem como seriam as coisas caso a luta por reivindicações e os sindicatos fossem proibidos. A coisa pioraria muito. Caso Bolsonaro seja vitorioso na sua busca de bagunçar as eleições, e tente algo como um golpe, os trabalhadores serão os que mais sofrerão.

O PT, os setores burgueses e a oposição parlamentar

Os perigos aumentam justamente pela forma covarde com que se comporta a oposição, principalmente o PT. Sequer luta de maneira consequente para impedir Bolsonaro. Não prepara o povo para a luta e confia cegamente nas instituições. Isso é como deixar a chave do cofre com o bandido.

A adaptação é tanta que, mesmo com o lobo mostrando os dentes, Lula vai na Faria Lima fazer graça com banqueiros e empresários, ao invés de chamar os trabalhadores e o povo a organizarem qualquer tipo de resistência. Ou ainda faz consulta aos generais das Forças Armadas, capitulando à tutela militar das eleições. Lula e o PT acham que basta votar em sua candidatura que estará tudo resolvido.

A imprensa liberal e burguesa se curva à impotência justamente porque não vê quem possa fazer alguma coisa para barrar a escalada bolsonarista. O Congresso Nacional segue um fiel lacaio de Bolsonaro, à custa de muita liberação de dinheiro ao “centrão”, sob comando de Arthur Lira. Rodrigo Pacheco, presidente do Senado, diz defender a eleição, mas segue obedecendo ao Presidente. Eis que os liberais defensores das instituições e da democracia burguesa são lembrados que, na prática, o poder reside na força.

O problema, para eles, é que embora a burguesia se coloque contra um golpe, incluindo até o imperialismo dos EUA, há todo um setor que faz corpo mole e que também não fará muita coisa contra ele. Afinal, o que importa é seguir lucrando, seja como for.

Organizar a mobilização, construir a autodefesa dos trabalhadores e fortalecer uma alternativa revolucionária

Diante das ameaças de Bolsonaro, o que devem fazer os trabalhadores, os sindicatos e as organizações que se reivindicam de esquerda ou socialistas? Devem observar passivos a ultradireita se armar e dizer que não acatará o resultado eleitoral com as Forças Armadas? Ou devem se preparar para a luta desde já?

É preciso que as organizações dos trabalhadores construam sua autodefesa para garantir as campanhas e todas as atividades políticas e dos movimentos sociais. Temos que cobrar dos sindicatos, movimentos populares e estudantis a organização desta luta pela base e de maneira unificada. Devemos preparar os trabalhadores para derrotarem nas ruas qualquer ameaça golpista ao resultado eleitoral.

É importante unidade de ação e até a frente única de todos contra as ameaças golpistas de Bolsonaro. Mas é difícil fazer isso sem a classe trabalhadora mobilizada. O PT aposta no imobilismo, desviando toda energia apenas para as eleições, além de se acoplar em alianças com a burguesia, defendendo o sistema capitalista que justamente criou Bolsonaro e a ultradireita.

Os setores da burguesia, as instituições, a imprensa e a maioria das candidaturas de oposição não estão dispostos sequer a levar a luta consequente contra os ataques de Bolsonaro. Muitos, inclusive, eram bolsonaristas até ontem, e podem “virar bolsonaristas” de novo, caso sintam que seus privilégios estejam ameaçados pelos trabalhadores. Alguns que se dizem “democratas”, como são capitalistas, na realidade temem mais a mobilização dos trabalhadores do que as ameaças bolsonaristas.

A verdade é que todos esses setores, especialmente o PT e Lula, têm sua culpa no cartório justamente por não terem sido consequentes na luta pela derrubada do governo lá atrás. E seguem depositando todas as suas esperanças em candidaturas burguesas, acreditando que a derrota eleitoral de Bolsonaro é suficiente para barrá-lo. Isso é temerário, pois, mesmo que a imposição e a consolidação de um golpe não sejam o mais provável, não mobilizar e organizar a autodefesa da classe trabalhadora permite que a violência política da ultradireita cause estragos nas liberdades democráticas, nas organizações e na militância da classe trabalhadora e da juventude.

Os trabalhadores têm, então, duas tarefas combinadas. A primeira é defender e garantir a mobilização e organização contra a ameaça golpista de Bolsonaro e a violência da ultradireita desde já, levantando, junto, nesta luta suas reivindicações por emprego, salário, direitos e soberania. Golpismo se derrota nas ruas, e mesmo que Bolsonaro perca as eleições, a ultradireita continuará se armando e se organizando.

A segunda é fortalecer uma alternativa independente dos trabalhadores, revolucionária e socialista. Ficar a reboque dos setores da burguesia é errado e perigoso, como fazem o PT e o PSOL com suas candidaturas de aliança com a burguesia, comprometidas com o sistema capitalista. Isso não cria uma alternativa à polarização social e política, nem contra os desmandos dos capitalistas. E também deixa os trabalhadores desarmados para derrotarem nas ruas as ameaças golpistas de Bolsonaro.

A candidatura Lula não significa outra coisa além de colocar os trabalhadores sob direção da burguesia, de Alckmin, de Temer e do programa capitalista defendido pelo PT. Desse modo, não conseguimos preparar a luta contra as ameaças bolsonaristas, nem garantir um programa minimamente que atenda os trabalhadores. A ultradireita, o bolsonarismo e seus arroubos autoritários só podem ser definitivamente derrotados com um programa que se contraponha a esse sistema capitalista que os criou. É preciso fortalecer uma candidatura que represente essa saída independente dos trabalhadores, sem aliança com a burguesia. Isso significa fortalecer a candidatura da Vera e do PSTU.