Members of civil defense prepare Molotov cocktails in a yard in Kyiv, Ukraine, Sunday, Feb. 27, 2022. A Ukrainian official says street fighting has broken out in Ukraine's second-largest city of Kharkiv. Russian troops also put increasing pressure on strategic ports in the country's south following a wave of attacks on airfields and fuel facilities elsewhere that appeared to mark a new phase of Russia's invasion. (AP Photo/Efrem Lukatsky)

A brutal invasão russa da Ucrânia já completou mais de duas semanas. Aparentemente nem tudo saiu como o carniceiro Putin desejava. A Rússia pretendia fazer uma invasão rápida, tomar o controle das principais cidades e produzir o colapso total do país. Mas o plano não deu certo. A segunda superpotência militar do mundo teve seus planos frustrados por uma corajosa e heroica resistência de um país historicamente oprimido que jamais ameaçou a segurança russa.

Mas isso não deixou a guerra contra a Ucrânia menos brutal. Cenas de civis ucranianos sendo fuzilados por solados russos, bombardeios contra bairros residenciais, contra hospitais e maternidades e até contra a usina nuclear de Zaporizhia mostram que Putin não conhece limites para conquistar o país.

Mas o pior está por vir. Muitas batalhas, mais duras e difíceis, se darão nos próximos dias. Putin aposta na intensificação dos ataques em todas as frentes com fortes bombardeios que arrasam as cidades ucranianas e provocam milhares de mortes.

Mas lembremos da história. Nem toda potência militar logrou um vitória militar contra um país mais fraco, vide a derrota dos EUA no Vietnã, Iraque e Afeganistão, ou da União Soviética contra o Afeganistão.

É possível derrotar Putin. Mas os trabalhadores de todo o mundo precisam estar de pé pela Ucrânia e apoiar ativamente a resistência. Nestas páginas apresentamos uma entrevista com um dirigente sindical da mineração ucraniana que faz um apelo aos povos do mundo para apoiar a luta do seu povo contra a Rússia. A Liga Internacional dos Trabalhadores se soma a esse apelo e chama pela derrota militar da Rússia.

Entrevista

“Trabalhadores participam ativamente na guerra pela independência da Ucrânia”

Veja a entrevista com Yuri Petrovich Samoilov, presidente do Sindicato Independente dos Mineiros de Krivoy Rog, região de Dniepropetrovsk, Ucrânia.

Por Liga Internacional dos Trabalhadores (LIT-QI)

Qual é a sua avaliação dos eventos de Maidan em 2014? Por que a agressão de Putin começou depois desses fatos?

Yuri – Maidan foi um levante popular contra um governo corrupto e autoritário que não tinha cumprido suas promessas perante o povo. Tinha uma clara subordinação com o imperialismo russo, do qual a Ucrânia dependia em parte. As razões da agressão da Rússia são óbvias: o governo de Putin pretende ter o controle econômico e político sobre os países que considera sua “esfera de influência”. E Maidan “deu um basta” sobre qualquer projeto da Ucrânia controlada pela Rússia.

Qual era a situação dos trabalhadores depois da ocupação nas chamadas Repúblicas de Donetsk e Luhansk? Você tem conhecimento de como estão as coisas hoje no Donbass?

Yuri – Deploráveis! As forças de segurança russas eliminaram qualquer entidade independente: ONGs de orientação social, projetos políticos, sindicatos. Junto com o colapso total da economia da região, o isolamento global e a reorientação para a Rússia, os trabalhadores ficaram totalmente indefesos, sob ameaças de forte repressão e grandes perdas de anteriores conquistas econômicas.

Qual é a situação dos trabalhadores no meio do conflito? Na Ucrânia em geral e na sua região.

Yuri – Nas grandes cidades como Kyiv, Kharkov, Mariupol, Kherson, Zhytomyr, é impossível comprar medicamentos nas farmácias, muitas empresas deixaram de funcionar. Muitos supermercados não funcionam, os locais de serviços, como postos de gasolina, correios, a operação é muito difícil, porque a logística do transporte se encontra interrompida devido ao bloqueio parcial dessas cidades. Muitos trabalhadores estão desempregados porque seus locais de trabalho foram fisicamente destruídos pela guerra. E muitos mais perderam seus trabalhos devido ao êxodo forçado de suas cidades, como resultado da guerra.

Qual é a participação dos trabalhadores ucranianos na resistência à ocupação russa?

Yuri – Os trabalhadores participam ativamente na guerra pela independência da Ucrânia contra o imperialismo russo. Os sindicatos acolhem refugiados em suas sedes, participam nas Brigadas de Defesa Territorial e Forças Armadas da Ucrânia.

Os sindicatos participam na organização da resistência? Que tipo de organização há?

Yuri – Os sindicatos participam principalmente como voluntários nas atividades. A existência de contatos internacionais nos permite saber rapidamente qual dos nossos companheiros tem um infortúnio ou que tipo de problema, e coletivamente podemos encontrar formas de resolver permanentemente ou corrigir temporariamente essas necessidades.

Como os trabalhadores de outros países podem ajudar a resistência?

Yuri – Exigir a anulação da injusta e escravizante dívida ucraniana. Exigir o fornecimento de aviação e armas para a Ucrânia. Eu quero pedir a vocês que nos ajudem, pessoas humildes de todo o mundo. Porque os fascistas, a serviço dos oligarcas da Rússia, fazem uma guerra contra nós.

DECLARAÇÃO

Por uma campanha internacional de apoio e solidariedade à resistência ucraniana. Pela derrota da invasão do exército russo! Não à Otan!

LIT-QI

O apelo de Yuri Petrovich é apoiado pela Liga Internacional dos Trabalhadores. Acreditamos que as organizações que se dizem da classe trabalhadora, partidos e sindicatos, devem divulgar amplamente o apelo do dirigente mineiro ucraniano. Devemos deixar nítido que é uma guerra, na qual apoiamos a resistência de um povo que combate seu inimigo em grande desigualdade de condições. Então, como expressa Yuri, a questão das armas e suprimentos de todos os tipos, inclusive militares, torna-se central. Devemos apoiar ativamente os esforços dos ucranianos para adquirir armas e suprimentos para se defender, realizando uma ampla campanha de fundos para enviar aos operários que resistem em Mineiros de Krivoy Rog.

Os trabalhadores mobilizados podem apoiar a resistência ucraniana, como os trabalhadores portuários da refinaria Ellesmere, em Cheshire, Inglaterra, que se recusaram a descarregar petróleo da Rússia, replicando o que os trabalhadores do terminal de gás de Kent e os dos portos fizeram na Holanda. Segundo a informação, “uma onda de protestos deste tipo está se alastrando pelos portos europeus em resposta à invasão da Ucrânia”.

Fazemos isso porque desenvolver uma campanha desse tipo é a atitude que nós, revolucionários, devemos ter em relação ao real significado da guerra atual.

Putin desencadeou uma invasão do exército russo na Ucrânia com métodos de extrema crueldade, ataca e destrói cidades, incluindo “alvos” como hospitais e maternidades, com o objetivo final de tomar Kiev (capital ucraniana) e, assim, dominar todo o país. Apesar da imensa superioridade militar russa, o invasor enfrenta, por parte do povo ucraniano, uma resistência maior do que a esperada, muitas vezes de caráter heroico.

Por isso, definimos que é a agressão de uma nação muito mais forte contra outra mais fraca, com o objetivo de subjugá-la. Isso ocorre em um quadro em que, exceto por um curto período no início da União Soviética, quando foi aplicada a política proposta por Lênin, criticada por Putin, tanto o Império Russo quanto os stalinistas e os recentes governos burgueses russos sempre consideraram a Ucrânia como “seu quintal”.

Apoiamos a resistência dos trabalhadores e do povo ucraniano contra a invasão e devemos fazer tudo o que estiver ao nosso alcance para derrotar as tropas russas, sem que isso represente qualquer apoio ou confiança política no governo Zelensky, nem na burguesia ucraniana.

Essa posição nos leva a combater firmemente aqueles que apoiam a invasão russa com o argumento de que a Rússia de Putin faz parte de um campo progressista e anti-imperialista. Essa gente diz que a guerra de Putin é contra o imperialismo e seu braço militar (a Otan) e que, através da Ucrânia e seu governo, estaria atacando a Rússia.

Denunciamos o papel da Otan como braço militar do imperialismo e lutamos pela sua dissolução. Mas esta não é uma invasão militar da Otan contra o território russo. Não há soldados da Otan lutando contra tropas russas na Ucrânia. Quem está atacando a Ucrânia hoje é o exército russo.

Por isso, discordamos das posições de amplos setores da esquerda mundial que se recusam a se manifestar contra a invasão de Putin ou se declaram “neutros”. Temos um lado, e o triunfo da resistência ucraniana contra a invasão russa é o único resultado favorável para os trabalhadores do mundo.

Por uma campanha unitária em apoio à resistência

Atendemos ao chamado de Yuri Petrovich e seu sindicato. É preciso arrecadar fundos e propor realizar atividades como palestras e debates para ajudar a esclarecer a confusão que existe sobre a guerra.

Devemos impulsionar mobilizações para apoiar a resistência ucraniana, como vem acontecendo na Europa e mundo afora. É totalmente correto exigir que os governos (especialmente os dos países imperialistas) entreguem armas e todos os materiais necessários (munições, alimentos, remédios) à resistência ucraniana diretamente e sem quaisquer condições. Somos totalmente contra a entrada da Otan no conflito e exigimos sua dissolução.

Vamos responder ao pedido dos mineiros ucranianos com uma campanha unitária das organizações e partidos que se dizem da classe trabalhadora. O primeiro passo foi dado com a declaração conjunta entre a LIT-QI e a UIT, vários sindicatos e a Rede Internacional de Solidariedade. Vamos fortalecer o internacionalismo operário. Trabalhadores do mundo, uni-vos em apoio à resistência ucraniana!