Patrícia Ramos, pré-candidata à Prefeitura de Mariana (MG) pelo PSTU

Neste período de ascenso de lutas do povo negro e da classe trabalhadora, vemos aumentar as mobilizações exigindo melhorias nas condições de vida e de trabalho, como é o caso das lutas antirracistas e contra a violência policial no Brasil e em vários países do mundo; e os casos das greves de diversos setores como metroviários e também dos entregadores de aplicativo.

Por outro lado, vemos grandes empresas lançando mão de táticas para manter uma boa imagem, apesar da exploração que elas promovem, mesmo em tempos de pandemia. Na mineração, por exemplo, as empresas, que não liberaram seus trabalhadores para ficarem em isolamento, investem em propagandas para apresentar as grandes doações de máscaras e álcool em gel para a população. As empresas de aplicativo usam a mesma tática.

Nessa linha, recentemente, a filósofa Djamila Ribeiro, conhecida pelo conceito de “lugar de fala”, e também pela discussão em torno da pauta do povo negro, sobretudo de mulheres negras, publicou um vídeo-propaganda para a empresa de transporte por aplicativo 99. No vídeo, ela fala da experiência de usar esse serviço e destaca “os pacotes de proteção” que a empresa vem adotando na pandemia. Destaca também a “responsabilidade social” da empresa que está oferecendo aos motoristas a desinfecção gratuita dos carros, além das doações de máscaras e de álcool em gel.

A 99 tem esta frase de apresentação em seu site: “Mude a sua história com a gente! Não dá mais para ficar de fora: ganhe mais com segurança”. É uma ideia de empreendedorismo que, na verdade, serve como cortina de fumaça para a precarização do trabalho, da informalidade que nada mais é do que a crise econômica sendo jogada nas costas da classe trabalhadora, enquanto os donos das empresas se enriquecem.

Djamila chama de “motoristas parceiros”, “colaboradores” e não trabalhadores os motoristas da 99. A mudança de definição é uma tática para tentar esvaziar a consciência de classe na disputa ideológica que a burguesia faz enquanto retira direitos e se beneficia disso. Aliás, nessa disputa, a saída individual, do empoderamento, também serve para confundir trabalhadoras e trabalhadores e dificultar a organização da luta enquanto classe e a derrubada desse sistema.

Qual é o papel que cumpre Djamila Ribeiro quando se dispõe a fazer uma propaganda elogiando uma empresa que explora os trabalhadores e cresce na medida em que não reconhece os vínculos empregatícios? Afinal, trata-se de uma figura pública que levanta a pauta do povo negro e tem bastante alcance sobre esse povo trabalhador.

Ao se colocar nessa situação, ela desconsidera toda a lógica capitalista da empresa e não apresenta o problema de que a 99 não reconhece os trabalhadores de aplicativos como empregados e, justamente por isso, acumula enormes lucros. É quase um “selo de boa procedência” para a empresa, quando uma pessoa como ela se coloca para fazer propaganda.

Criticada por uma militante negra sobre essa publicidade, Djamila admite que fez a propaganda, com justificativa de que precisa sobreviver. Dando a entender que é isso o que está reservado para a classe, sem alternativas para desmascarar essas empresas e derrubar o sistema. Com isso, não responde ao conteúdo da crítica, mas se refere à militante com menosprezo, utilizando-se da noção de “colorismo” para isso, e insinuando que essa militante está numa lógica do branco de atacar outras mulheres negras que “sobem” na sociedade.

Então quer dizer que a divergência com a filósofa será sempre porque quem a critica está a serviço da branquitude? Não há possibilidade de que a discussão que Djamila levanta sobre as mulheres negras, e que mobiliza um monte de lutadoras, tenha limite, o qual se expressa nessas incoerências na realidade? Uma mulher negra não pode discordar das proposições de outra mulher negra para não romper com a unidade de seu povo negro, mesmo que signifique avalizar a exploração da classe?

Antirracismo capitalista?

Pelas próprias elaborações da filósofa, e vendo esse vídeo de exaltação de uma empresa, mas também a polêmica posterior, o empoderamento das mulheres negras está relacionado a se submeter à precarização do trabalho, para ser uma “empreendedora” ou uma “parceira” das empresas que as exploram, sem qualquer questionamento dessa estrutura de exploração. Isso tudo traduzido para a ideia de que quando uma mulher negra sobe puxa a outra. Até que ponto uma necessidade continua sendo transformada em ideologia para beneficiar capitalistas racistas?

Para que serve uma luta contra o racismo e o machismo, se não se reconhece nem se combate a exploração que sofre a classe trabalhadora, a classe em que se inclui a maioria das mulheres negras? Nesse sentido, é importante mostrar a incoerência da luta antirracista quando ela não se propõe a derrubar o sistema capitalista, que, para garantir maior exploração, usa a opressão a diversos setores, a discriminação do povo negro, que, não por acaso, ocupa os piores postos de trabalho, que está nos trabalhos informais e precarizados. Isso para não falar que o perfil do desempregado no país é preto.

Em menos de um mês, presenciamos dois “breques dos apps”, que é a luta de entregadores de aplicativos exigindo os direitos mínimos para qualquer trabalhador. No mesmo período, a indignação à violência policial ao povo negro e a morte de George Floyd, nos EUA, mobilizou a luta antirracista que explodiu em vários países do mundo, inclusive no Brasil. Ambas as lutas não são dissociadas, e, se analisarmos “a estrutura” da sociedade capitalista, percebemos que a crise do sistema tensiona a luta de classe, com os capitalistas e seus administradores tentando empurrar a crise para a classe trabalhadora, enquanto ela se defende em várias lutas, por várias pautas.

Na luta consequente contra o capitalismo e o racismo, é papel de qualquer ativista apoiar e se somar ao conjunto de trabalhadoras e trabalhadores de aplicativo na batalha por reconhecimento enquanto categoria, exigindo, antes de qualquer coisa, vínculo empregatício com essas empresas.

Porém, o que Djamila faz é o caminho oposto: faz uma publicidade fortalecendo uma empresa que nega o vínculo a esses trabalhadores. E, pior, ainda nessa publicidade, destaca um “excelente papel social” que a empresa tem desempenhado no período de pandemia, quando negras e negros são os que mais morrem justamente porque grandes empresas, com a conivência dos governos, mantêm seus trabalhadores na ativa.

Nesse período de pandemia, mas em qualquer outro período em que as empresas crescem às custas da exploração da nossa classe, bater palmas, ou num termo muito utilizado no movimento, “dar biscoito” para as grandes empresas que se vestem da capa de “responsáveis socialmente” a partir de projetos sociais é desconsiderar toda a exploração que permitiu tal empresa ser grande. O “selo antirracista” para grande empresa é deboche da vida dos oprimidos e explorados.

Por isso, é importante a discussão consequente sobre o que é racismo para o sistema capitalista, sobre qual a base material para a opressão e para a exploração. Se não se faz, discutiremos de maneira limitada, proporemos e agiremos ainda nos moldes do sistema que nos explora, exigindo apenas reformas. E já temos prova suficiente para concluir que é um sistema que explora, oprime e mata nossas irmãs e irmãos de classe. É preciso avançar na discussão e visualizar a derrubada do sistema capitalista. Ser revolucionário socialista é se propor a construir a unidade da classe trabalhadora, combatendo o racismo, o machismo, a LGBTfobia e qualquer outra opressão no seio da nossa classe para que estejamos mais fortes e confiantes nessa luta contra o sistema e na construção do socialismo, sem ilusões.