Paraisópolis: Não foi acidente, foi chacina

“O povo tem a força, precisa descobrir/ Se eles lá não fazem nada, faremos tudo daqui/ Eu só quero é ser feliz…” (Eu só quero é ser feliz)

O clima tá estranho por aqui“, diz o jovem Mike referindo-se ao baixo movimento das estreitas ruas e ladeiras de Paraisópolis. É um sinal evidente da dor e da revolta profunda que a comunidade sente pela ação policial da madrugada de 1° de dezembro. Foi uma ação criminosa que resultou na morte de nove jovens que estavam no tradicional baile da DZ7 apenas para se divertir.

Naquela madrugada, soldados da Polícia Militar de São Paulo chegaram ao baile funk, onde estavam cinco mil jovens, e reprimiram com violência, com bombas de gás e tiros de bala de borracha. As nove vítimas fatais foram pisoteadas durante a agressão. Vários outros ficaram feridos.

Vídeos feitos por moradores mostram como a polícia encurralou os jovens em vielas, espancando de forma indiscriminada, não deixando chance de defesa. Uma das imagens mostra um soldado da PM batendo com uma barra de ferro em pessoas que estavam encurraladas num bar. O policial bateu até num jovem que estava de muleta. Testemunhas dizem que o que aconteceu foi uma armadilha. Os PMs chegaram por todos os lados para reprimir e não havia para onde fugir.

Os vídeos mostram que a ação foi pensada, calculada e realizada com requintes de crueldade. Também desmancharam a versão mentirosa da polícia e do governo do Estado. O assassinato de um policial semanas antes é apontado como a motivação da ação criminosa da PM. Na quebrada é assim, a polícia vinga a morte de um dos seus sacrificando nove jovens inocentes.

Aconteceu essa ação no baile, mas não só porque era um baile. Aconteceu porque era na periferia, eram jovens, eram negros em sua maioria”, disse Thaynan Diniz, morador de Paraisópolis e membro da União Municipal dos Estudantes Secundaristas de São Paulo (Umes) durante uma reunião que preparava um novo protesto em Paraisópolis para o dia 14 de dezembro.

Thainan, Mike, Glória e Gustavo

Repressão é rotina na quebrada
Em toda periferia de São Paulo, a repressão contra bailes, batalhas de rap e outras atividades é uma rotina. Alguns jovens já vão para esses eventos pensando numa rota de fuga para quando a PM chegar com seus esquadrões. Baile funk é uma das poucas alternativas de jovens da periferia de São Paulo. Sua criminalização e o trato a tiro e bomba não passam de hipocrisia barata e racista.

Há uma enorme carência em lazer e cultura na periferia. Mesmo assim, ela fervilha. Os próprios moradores criam alterativas, produzem sua arte e buscam diversão e, muitas vezes, a conscientização. “Para além do baile, que é cultura da população negra, nós temos as batalhas de rap que acontecem. Temos projetos independentes, como o Geração Portela que trabalha com samba, tem o Sarau de Paraisópolis, tem o Anarcocoletiva. O problema é que a gente não tem financiamento nem espaço pra realizar esses projetos. Então tudo fica mais difícil”, explica Glória Maria, do Anarcocoletiva, que despertou para a política nas ocupações de escolas em 2015, contra o projeto de fechamento de salas de aula do governo do Estado.

O fato de não ter financiamento faz com que a gente tenha que fazer na rua e correr o risco de repressão”, diz Mike, jovem músico que fomenta batalhas de rap na comunidade.

Penso que o preto, a galera de quebrada, a gente tá marcada sabe. A gente fazer um rolê ali, uma batalha aqui. É um negócio muito sério, a polícia já passa olhando torto”, opina Glória.

Os jovens explicam que as atividades também levam a romper com alienação, como é o caso das batalhas de rap. “É um ato de resistência e de desenvolvimento, porque eu vejo a molecada se desenvolvendo nas batalhas, em questão de consciência também. De consciência de classe, de consciência de raça”, afirma Gloria.

Gustavo, que também despertou politicamente nas ocupações de escolas em 2015, explica que esses eventos combateram as ofensas homofóbicas que sofria. “Eu não era respeitado por ser gay, e desde que entrei na batalha eu vi um desenvolvimento total das pessoas. Hoje em dia, me sinto muito respeitado, os moleques que faziam piada homofóbica hoje têm consciência da galera LGBT”, diz.

CRIMINOSOS
A responsabilidade de Doria e de sua PM

Pressionado pela repercussão do caso e pelos vídeos que mostraram toda a ação criminosa da PM, o govenador João Doria (PSDB) foi obrigado a mudar de versão e afastou os policiais presentes na ação. Porém, na quebrada, ninguém se engana com as palavras do governador playboy. Todo mundo sabe da sua responsabilidade. Antes mesmo de assumir, Doria prometeu: “A partir de janeiro, a polícia ia atirar pra matar.”

“A responsabilidade é do Doria, do Estado”, é a resposta unânime dos jovens ouvidos pelo Opinião Socialista. “Além dele, é também do Bolsonaro, que vem com esse discurso de ódio e tem o projeto de excludente de ilicitude, que é dar o aval para polícia entrar aqui e matar mesmo”, diz Thaynan.

É preciso dar uma resposta a esse crime covarde. É preciso exigir a punição de todos os responsáveis por mais esse capítulo triste do genocídio do povo pobre e negro e a reparação do Estado para as famílias dos jovens assassinados pela PM.

NO MESMO DIA
Baile em Heliópolis sofre repressão

No mesmo dia da chacina em Paraisópolis, uma pessoa foi assassinada em Heliópolis, outra grande comunidade de São Paulo. Foi outro caso de agressão e abuso contra um baile funk. Um vídeo gravado por moradores da comunidade mostra policiais militares agredindo pessoas numa viela estreita durante a madrugada.