Organização haitiana protesta contra repressão aos estudantes

Leia a nota do grupo Batay Ouvriye (Batalha Operária), sobre a repressão e mortes em universidade haitianaDiante da repressão às manifestações estudantis

Durante a semana passada, surgiu uma nova situação na conjuntura do país: os estudantes da Universidade do Estado do Haiti (UEH), pela primeira vez, chegaram a um acordo de suas reivindicações com as dos operários. Especificamente, trata-se do reajuste do salário mínimo, atualmente, em debate: os míseros 200 gourdes (4,5 dólares diários).

Saíram às ruas: foram barrados. Não é surpresa: sob o governo de René Préval, as forças repressivas impedem ou reprimem qualquer manifestação popular que tenha a ver com os interesses dos trabalhadores. Quando os estudantes reagiram, foram considerados culpados! É sempre assim: as vítimas são os culpados.

Os pais dos estudantes não podem pagar seus estudos e muitos deles moram em bairros populares, não tem como pagar as fotocópias dos livros, muito menos comprá-los ou utilizar transportes adequados, e sequer almoçar!

Decidiram, então, se manifestar e denunciar esta miséria física e mental e, assim, fazer frente à violência extrema desta situação que os afeta da mesma forma que a todo o povo. E, de uma maneira muito lúcida, articularam estas reivindicações com o “tema” do dia: o ataque feito por Préval e seu governo asqueroso à promulgação da lei de ajuste, que acaba de ser votada no Parlamento, tudo isso em acordo com os interesses dos mais reacionários burgueses da indústria têxtil.

Esses valentes estudantes sabem que esse ajuste os atinge e muito, pois se trata de seus pais, seus familiares, seus amigos de bairro, enfim, do sistema que globalmente oprime todo o povo.

Em relação a todos os posicionamentos que consideram justas as reivindicações dos estudantes, mas condenam a “violência”, nós dizemos claramente e em voz alta: diante dessa situação opressora e da repressão diária e extrema das forças bestiais da MINUSTAH e da polícia nacional (formada e treinada pelas tropas ocupantes), os estudantes usaram tudo o que estava ao seu alcance, e com razão! Ponto final. Sua resposta é totalmente legítima. Legítima pelo nível de ataque que ocorre hoje em dia a suas vidas, legítima diante desta ocupação que vai destruindo sua consciência.

Não foram os estudantes que atiraram. Nenhum deles entrou em locais proibidos. Não foram os primeiros a usar a força: nós somos testemunhas de que foram as brutais intervenções das forças repressivas que interromperam nossa manifestação do Primeiro de Maio, na qual estavam justamente esses mesmos grupos de estudantes, junto com os trabalhadores de diversas categorias. Não foram eles que atiraram gás lacrimogêneo nas ruas, nos parques centrais, dentro das faculdades, nos bairros e, também dentro do hospital municipal, inclusive em frente ao pavilhão da “maternidade” onde as crianças recém-nascidas foram intoxicadas!

Este grupo de estudantes se coloca como valente aliado de uma vanguarda séria. Saíram às ruas para se expressar e dizer o quanto estão fartos desta sociedade que os oprime. Ninguém pode negar que Maio de 68 na França proporcionou um avanço social ao país. Quem se opõe à Intifada, ou às ferozes mobilizações de Soweto? Quem ousaria dar as costas ao nosso 1804, construído sobre cinzas? Quem, desses políticos podres, jornalistas acomodados, intelectuais corrompidos podem acusar aos estudantes? Todos eles antigos mortos que retornaram ao país com a queda de Duvalier, graças às barricadas erguidas por nós, trabalhadores do povo, por cima dos corpos de nossos companheiros que caíram no caminho.

Dizem que a MINUSTAH e a polícia existem para proporcionar a “ordem”. Que ordem? Nós sabemos muito bem que toda vez que a situação piora, a culpa é inteiramente das classes dominantes e sua ordem arcaica que a todo custo tratam de manter, e não querem de maneira alguma acatar a mais mínima reivindicação democrática. Não têm nenhum senso do momento histórico passado: seguem sendo colonialistas, escravocratas – acabados!

É hora, para nós de todas as forças progressistas, de assumir a mudança, a profunda mudança que nossa sociedade exige. A real mudança, da mesma forma que fizemos em relação ao arcaico regime duvalierista, sem falar de como o fizeram os escravos em 1804! Vida ou morte. Diante da morte que os dominantes tratam de nos infligir. Esta miséria tem que acabar!

  • Honra e respeito aos estudantes e à população que se levanta contra esta calamidade!
  • Libertação incondicional de todos os presos!
  • Atendimento de todas as reivindicações dos estudantes!
  • Promulgação da lei dos 200 gourdes! E garantir que os sanguinários burgueses a respeitem.
  • Somente as classes dominantes são responsáveis por termos chegado a um momento tão dramático: que eles paguem por isso!