Alvaro Bianchi: ‘A história ensina, mas não tem alunos’

Faixa no saguão do prédio da História e Geografia
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No saguão do prédio da História e Geografia da Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (USP) há uma faixa com os dizeres: “‘A história ensina, mas não tem alunos’. Gramsci. Fora a PM do Campus!!!”. A faixa foi afixada após a ocupação do campus pela Polícia Militar.

Aqueles que afixaram a faixa já foram publicamente chamados de “baderneiros”, “radicais” e “maus estudantes”. Quem conhece pessoalmente os estudantes que se encontram na linha de frente das manifestações das universidades estaduais paulistas sabe que isso é uma bobagem. São muitas vezes bolsistas de iniciação científica, membros de grupos de pesquisa, alunos destacados. Mas mesmo que não fossem com sua faixa mostraram que seus adversários teriam muito a aprender com eles.

A faixa é filologicamente precisa e demonstra não apenas o conhecimento de uma obra complexa como, também, sua razão de ser. Antonio Gramsci escreveu essa passagem em março de 1921. Ela é parte de um artigo publicado no jornal L´Ordine Nuovo, intitulado “Italia e Spagna”. Trata-se de uma denúncia do fascismo, mas também de uma análise precisa do caráter internacional desse movimento reacionário. O artigo começa assim: “O que é o fascismo, visto em escala internacional? É a tentativa de resolver os problemas da produção e da troca através de rajadas de metralhadoras e tiros de pistolas”.

O fascismo, o autor do artigo sabia muito bem, não se preocupava apenas com os problemas da produção e da troca. A reforma fascista da instrução pública dirigida em 1923 por Giovanni Gentile e a criação do Istituto Nazionale Fascista di Cultura, em 1925, atestam sua preocupação em imprimir uma direção cultural à sociedade italiana. Mas tais empreendimentos não deixavam de estar amparados, também eles, em metralhadoras e pistolas.

Em seu artigo contra o fascismo Gramsci protestava contra a crença, presente na Itália e na Espanha, de que os problemas econômicos pudessem ser resolvidos por meio da violência militar das classes dominantes. Para aqueles que alimentavam essa crença, a história não valia de nada. Ela já havia ensinado que não é desse modo que os problemas fundamentais da sociedade encontrariam solução, mas esse ensinamento não encontrava muitos alunos.

A história está a nos ensinar de novo. Metralhadoras e pistolas voltaram a serem usadas, desta vez contra estudantes funcionários e professores da Universidade de São Paulo. É preciso deixar a ingenuidade de lado. A violência policial na USP não foi gratuita. A reitora Suely Vilela da USP não está fora de controle e o governador José Serra não está desinformado. Projetos diferentes de universidade encontram-se há anos em conflito.

Esses projetos antagônicos já estavam enfrentados quando o governador José Serra tentou decretar o fim da autonomia das universidades em 2007 tendo sido derrotado pelo movimento de estudantes, funcionários e docentes. Eles reapareceram com a proposta da Universidade Virtual do Estado de São Paulo, com a ruptura unilateral de negociações com as entidades representativas do movimento de funcionários, docentes e estudantes e com a demissão de um sindicalista da USP que se encontrava no exercício de seu mandato.

Os governos do estado de São Paulo juntamente com os reitores das universidades paulistas querem transformar radicalmente a USP, a Unesp e a Unicamp. Querem cindir a universidade criando ao lado de cursos de excelência, cursos destinados a formar mão-de-obra semiqualificada; querem direcionar os investimentos para uma pesquisa de retaguarda denominada eufemisticamente de “operacional”; querem esvaziar a capacidade crítica das atividades que tem lugar nessas instituições; querem transferir conhecimento e know-how a preços subsidiados para empresas que não estão interessadas em investir nisso mas que estão interessadas nos lucros que podem proporcionar; querem diminuir a participação dos recursos públicos no financiamento da pesquisa, do ensino e da extensão.

Na universidade há os que apóiam essas reformas conservadoras e há os que são contrários a elas. No dia 9 de junho a polícia reprimiu violentamente manifestantes contrários a elas dentro do Campus da universidade atirando a balas de borracha, gás lacrimogêneo e bombas de concussão. O prédio no qual se encontrava aquela simbólica faixa foi militarmente sitiado. Os fatos são eloqüentes. Aqueles que apóiam as reformas conservadoras se mostraram dispostos a recorrer à violência policial para defender suas idéias.

“A ilusão é o alimento mais tenaz da consciência coletiva”, afirmava Gramsci, pouco antes de concluir o texto citado com a frase que hoje encontramos na faixa dos alunos. Aqueles que desejam essas reformas conservadora parecem iludidos de que com “rajadas de metralhadoras e tiros de pistolas” se constrói uma universidade. Deveriam ouvir os alunos. Estes conhecem melhor a história e sabem que o lugar da PM não é no campus.