Operários da CSN paralisados em Volta Redonda (RJ)

Renata, Lázaro e Ivan,  de Volta Redonda RJ e Congonhas MG

Após 34 anos da grande greve que marcou um dos maiores enfrentamentos da classe operária contra a ditadura, os trabalhadores da CSN de Volta Redonda voltaram a se levantar contra a precarização, por reajuste salarial, PLR justa, plano de saúde e fim do banco de horas.

Sob os gritos de “Ôooo, o peão voltou! O peão voltou!”, os operários e operárias cruzaram em marcha a Usina, em 5 de abril, arrastando mais e mais equipes, que espontaneamente foram aderindo à paralisação.

“A gente já estava cansado de ser mal tratado, humilhado. Sem aumento há 3 anos, perdendo tudo; sendo que a CSN é uma das maiores empresas da América Latina e paga salários piores que as empresas menores. Enquanto a empresa lucrou 3 anos em 1, eu regredi 3 anos em 1. Todo mundo estava saturado já: a gente foi apenas o gatilho”, conta R., trabalhador do setor de andaimes, estopim da paralisação dentro da Usina.

Esse mesmo clima de insatisfação tem sido motor de várias lutas pelo país como o levante dos garis no Rio de Janeiro, a greve nacional do INSS, mobilizações de professores municipais em diversas cidades e a vitoriosa greve dos operários da Avibrás em Jacareí (SP).

A luta na CSN teve inicio ainda em março quando operários e operárias da CSN Mineração em Congonhas (MG) cruzaram os braços de forma espontânea na unidade do Pires reivindicando equiparação salarial. No dia 31 de março com iniciativas do Sindicato Metabase Inconfidentes que representa a categoria na mineração, se somaram os demais trabalhadores da Mina Casa de Pedra, a maior unidade em Congonhas, onde cerca de 7 mil operários pararam quase que completamente as atividades por nove dias seguidos. A partir desse processo, a luta se espalhou entre os operários do Porto e da Usina Presidente Vargas, onde o movimento resiste contra os ataques e intransigência da CSN.

Seguir resistindo até a vitória!

Veja como a greve avançou na CSN

Em defesa da equiparação salarial, operários da Minas do Pires paralisam suas atividades. Por iniciativa do Sindicato Metabase, a luta se unifica com a Mina Casa de Pedra, servindo de estopim para a adesão dos operários do Porto e da UPV.

Em Volta Redonda (RJ), a luta explodiu a partir da equipe de andaimes, setor onde o trabalho é mais pesado e precarizado, mas essencial para o funcionamento de todas as demais equipes. Em Assembleia decidem pela paralisação dentro da Usina.

Centenas de operários e operárias vão até a sede do sindicato e encontraram o portão trancado com cadeado. Capacho da CSN, o Sindicato Sul Fluminense já teve duas diretorias cassadas, e demonstrou mais uma vez que seu compromisso é com a CSN e não com os operários.

Mas nada disso impediu que seguissem firmes e impedissem a manobra que a empresa e o sindicato pelego articularam para desmobilizar. Em assembleia, por 6042 contra 39 votos os trabalhadores rejeitaram a proposta vergonhosa feita pela CSN.

Derrotada, a CSN atacou covardemente a organização dos trabalhadores, demitindo mais de 100 trabalhadores, entre eles a Comissão de Fábrica e outros lutadores e lutadoras da linha de frente. Em Congonhas, a empresa cortou o ponto dos operários sem qualquer negociação e ainda conseguiu na justiça um interdito proibitório, tentando criminalizar e impedir a ação do Sindicato Metabase.

Mas como diz a frase estampada no Monumento em Homenagem aos operários assassinados na greve de 1988: “Nada, nem a bomba que destruiu este monumento, poderá deter os que lutam pela justiça e liberdade”. E assim, seguiu a luta até a reintegração dos demitidos e o atendimento das reivindicações.

Enquanto a empresa busca criminalizar e se nega a negociar com o sindicato Metabase, de portas fechadas houve mais uma negociação entre Sindicato dos Metalúrgicos e CSN. A nova proposta de 11% de reajuste é fruto da pressão da mobilização, mas ainda é muito insuficiente. O custo dessa proposta na folha de pagamento da CSN não representa sequer 1% dos seus ganhos e nem se compara aos R$ 3,3 bilhões distribuídos aos acionistas. Nesta quarta-feira, 27 de abril, ocorreu a votação da nova proposta. Sem reintegração dos demitidos, salário e PLR justas, a categoria disse “não”, derrotando a proposta rebaixada da CSN com 6396 contra 262 votos. Agora a luta segue!

 CSN

Uma fábrica de injustiças, exploração sem limites e destruição da natureza

Sem reajuste salarial, adoecendo na pandemia, trabalhando em condições de risco, com turnos exaustivos de até 12 horas, o pronunciamento do maior acionista da CSN, Benjamim Steinbruch, foi uma verdadeira provocação aos trabalhadores. Em vídeo dirigido aos acionistas, ele comemorou o lucro recorde da empresa em 80 anos: R$ 13 bilhões em plena pandemia. “Crescemos 3 anos em 1” festejou Steinbruch!

“O próprio Benjamim falou abertamente que o que dá mais suporte pra produtividade da CSN, pros lucros terem crescido, é a mão de obra barata, quer dizer, pra ele a nossa escravidão é tudo”, explica A., trabalhador da manutenção, demitido arbitrariamente.

Com uma fortuna declarada de R$ 980 milhões, ele deve se somar em breve a lista dos 55 bilionários no país. Steinbruch é a cara da burguesia brasileira que vive da exploração sem limites, da devastação ambiental e sanguessugas do Estado, aproveitando as isenções fiscais e privatizações.

Em 1993, a CSN foi uma das primeiras estatais privatizadas, durante o governo Itamar. De lá pra cá, a vida dos trabalhadores da empresa só piorou. R., trabalhador há 11 anos na CSN, membro da Comissão de Fábrica, nos conta que “todos os benefícios que haviam antes da privatização foram abolidos. Alguns foram incorporados nos salários dos mais antigos, mas os [trabalhadores] que foram entrando depois não tinham esses direitos. Os salários só foram reduzindo. Estamos há 3 anos sem reajuste, o que interfere diretamente no nosso poder de compra”.

No capitalismo o lucro vale mais que a vida e a natureza!

“Cheguei para trabalhar e meu crachá simplesmente estava bloqueado. Sem dar nenhuma satisfação a empresa nos cancelou sem se preocupar se temos família, se temos contas a pagar”, diz E., operária demitida após a mobilização. Ela conta que essa postura da CSN tampouco surpreende. É o mesmo descaso com os recorrentes acidentes de trabalho dentro da usina.

“Muitos perderam dedos, mãos e até a vida dentro da usina. A CSN se esconde, sempre alega que os acidente [fatais] aconteceram fora da empresa, nunca se responsabiliza. O caso mais nítido foi um colega da terceirizada que faleceu num acidente no autoforno, carbonizado. O filho dele teve que fazer tratamento psicológico e a CSN não deu qualquer suporte a família”, explica A.

O capitalismo ameaça a humanidade

A tragédia das famílias dos operários da CSN não importa aos grandes acionistas, que na sua maioria estão fora do país. Esses parasitas sustentam o capitalismo, um sistema onde a vida humana pode ser ceifada a serviço da riqueza de poucos.

O modelo extremamente predatório de mineração no país devasta a natureza, desaloja as comunidades e causa verdadeiros crimes como da Vale em Brumadinho e Mariana.

O Brasil, alçado como grande exportador de commodities nos governos petistas, na verdade, nada tem a comemorar os lucros da CSN. Temos sido saqueados brutalmente a serviço dos interesses econômicos dos países ricos. Bolsonaro aprofundou esse trabalho sujo, liberando a exploração sem limites e dando carta branca para destruição do meio ambiente.

A riqueza aqui produzida precisa estar a serviço das necessidades da nossa classe, do desenvolvimento industrial independente do país, com emprego, direitos e salários dignos. E para isso, precisamos construir uma sociedade onde o poder esteja nas mãos daqueles que produzem a riqueza, os próprios trabalhadores.

Aprendizado

Fomentar a auto-organização, unificar as lutas e construir uma alternativa de classe

Independente do resultado dessa batalha, os trabalhadores já se sentem vitoriosos pelo papel que cumpriram. “Aprendi que o trabalhador de qualquer parte do país, de qualquer empresa, deve lutar pelos seus direitos e ideais, por aquilo que é nosso direito. E em todas as empresas tem que se unir e não ficar de braços cruzados. As empresas tem sua forma de conduzir as coisas e o trabalhador não precisa aceitar calado a essa imposição. O trabalhador tem voz, tem resposta, tem o dever de mostrar pra cada um que nossa luta é possível”, disse S., orgulhoso.

Enfrentando a empresa e o sindicato traidor, a coragem das metalúrgicas e metalúrgicos da CSN deve ser um exemplo. A auto-organização através das assembleias, a constituição da Comissão de Fábrica, com apoio de sindicatos de todo país, da CSP-Conlutas e da Oposição Metalúrgica, mostra a força da classe unida e em ação.

Em Congonhas, o Sindicato Metabase (filiado à CSP-Conlutas) defendeu permanente unificar a luta entre todas as unidades da empresa a partir da base, com participação ativa dos operários nas negociações, com ampla democracia operária e sempre apoiado na mobilização e ação direta da classe, em detrimento dos acordos espúrios firmados de costas para os trabalhadores, como faz o sindicalismo pelego dos traidores.

O PSTU defende a organização independente dos patrões e de todos os governos. É hora de fortalecer na luta um sindicalismo alternativo à conciliação de classe, com independência dos governos e de combate a este sistema de exploração e opressão.