Berlinguer, chefe do PC italiano, segura o jornal do partido.

A III Internacional, com a força da vitória da Revolução Russa, rapidamente adquiriu influência de massas numa disputa frontal com a social-democracia. Sua estratégia era a revolução mundial, a luta pela destruição do Estado burguês e pelo poder operário como transição ao socialismo.

LEIA TAMBÉM
Reforma ou revolução em tempos de pandemia

No entanto, o isolamento da Revolução Russa, a destruição causada pela guerra civil contra o poder operário pelas invasões dos mais de 20 exércitos sustentados pelas potências imperialistas, num país atrasado com um grande peso do campo, gerou um processo de burocratização do Estado e do partido comunista, levando a uma contrarrevolução política. Encabeçada pela fração dirigida por Stalin, ela tomou o controle do poder e do partido e imprimiu uma orientação oposta à de Lenin.

Em primeiro lugar, mudou a política de Lenin e a visão marxista de que, para triunfar, o socialismo tinha de ser mundial. Também acabou com a democracia no Estado e no partido. Esses princípios foram substituídos pela defesa do “socialismo num só país”, pela burocratização do aparato estatal, pela perseguição aos opositores no partido e no Estado e pela opressão às nacionalidades e todos os setores oprimidos. Coroando esses retrocessos, surgiu a nova doutrina, o stalinismo, que assumiu como política para os países coloniais e semicoloniais a aliança estratégica com as burguesias nacionais ou seus setores supostamente progressivos.

O stalinismo passou defender os governos de colaboração de classes, as chamadas frentes populares com a burguesia, como na França e na Espanha da década de 1930. Como afirmava Trotsky no Programa de Transição, em 1938: “A Internacional Comunista enveredou pelo caminho da social-democracia na época do capitalismo em decomposição, quando não há mais lugar para reformas sociais sistemáticas nem para a elevação do nível de vida das massas, quando a burguesia retoma sempre com a mão direita o dobro do que deu com a mão esquerda, quando cada reivindicação séria do proletariado, e mesmo cada reivindicação progressista da pequena burguesia, conduzem inevitavelmente além dos limites da propriedade capitalista e do Estado burguês.” O stalinismo assumiu as posições essenciais do reformismo.

COLABORAÇÃO COM A BURGUESIA

Depois da Segunda Guerra e o estado de bem-estar

Na Segunda Guerra Mundial, deu-se uma das maiores batalhas e maiores vitórias dos trabalhadores e dos povos de todo o mundo: a derrota do nazifascismo. Isso apesar de todas as traições, dos acordos da Inglaterra e da França com o nazismo, dos pactos de Stalin com Hitler em 1938. O papel das massas da URSS, como em Stalingrado, foi decisivo nessa luta e nessa vitória apesar de sua direção. Por isso os partidos comunistas saíram prestigiados, pela resistência e pela vitória final contra os nazistas.

Isso permitiu aos partidos comunistas uma situação privilegiada. Frente à colaboração das burguesias locais com Hitler e Mussolini, após a invasão da URSS pelos alemães em 1941, os comunistas cumpriram um papel de destaque na guerrilha iugoslava, na resistência francesa e italiana, na resistência grega, na China, no Vietnã.

No fim da Segunda Guerra Mundial, uma situação revolucionária se abriu em toda a Europa. A resistência tinha o controle de países decisivos. Estava colocada a possibilidade de tomar o poder em países-chave. Uma revolução operária e popular se abriu na França, na Itália e na Grécia. Os trabalhadores armados e vitoriosos haviam destruído o ocupante nazista e o Estado burguês.

Primavera de Praga, levante popular na Checoslováquia contra a ditadura burocrática, esmagado por tanques soviéticos em 1968

Mais uma vez a traição das direções burocráticas foi decisiva para manter o capitalismo, sob as ordens de Stalin, que apostou tudo nos pactos de Yalta e Potsdam e na coexistência com o imperialismo, inclusive dissolvendo a III Internacional, em 1943, a pedido de Winston Churchill. Uma traição histórica à revolução e ao legado de Lenin. Essa conduta permitiu o massacre da resistência grega pelo exército inglês, e os PCs entregaram o poder à burguesia na França e na Itália.

Diante de uma situação explosiva na Europa, o imperialismo foi obrigado a fazer uma série de concessões aos trabalhadores e permitir que a social-democracia e os PCs pudessem justificar seu apoio aos novos governos de “unidade nacional pela paz”. O imperialismo estadunidense organizou o Plano Marshall para financiar a reconstrução capitalista da Europa Ocidental arrasada pela guerra.

Uma série de medidas de proteção social, antes recusadas pelas burguesias imperialistas acabaram sendo implementadas, como a legalização de vários direitos trabalhistas e a criação ou extensão da previdência social. Foi o chamado welfare state (estado de bem-estar social), que ao trazer melhorias no nível de vida passou a ser apresentado como “prova” da possibilidade de uma reforma gradual do capitalismo: um padrão que podia ser mantido e estendido.

Nesse processo, os reformistas conseguiram uma retomada de seu prestígio ao capitalizar esse período em que, devido à destruição causada pela guerra e o medo da revolução operária, a burguesia se viu obrigada a permitir uma melhora importante nas condições de trabalho e nos direitos sociais. A social-democracia e os PCs se apresentaram como os defensores dos direitos sociais, reconstruíram-se na Europa Ocidental e passaram com frequência a ser parte dos governos da Alemanha, da Inglaterra, da França, entre outros países. Isso ocorreu nos anos 1950 e até o final da década de 1960 com fortes partidos reformistas, sejam partidos socialistas, sejam comunistas, em toda Europa Ocidental.

No final dos anos 1940 e começo dos anos 1950, a pressão do imperialismo anglo-estadunidense na chamada “guerra fria” gerou um discurso mais duro da burocracia stalinista. Porém o stalinismo nunca rompeu seu compromisso com a ordem mundial de Yalta e Potsdam. O stalinismo passou a uma posição de colaboração aberta e de “coexistência pacífica” com o imperialismo. A partir dessa doutrina, os discursos são a defesa do diálogo e da conciliação, com os PCs ajudando a sustentar a dominação imperialista no mundo e o Estado burguês.

A partir do final dos anos 1950, os PCs passaram a ser campeões em apoiar governos burgueses supostamente progressistas em todos os continentes. Na Itália, por exemplo, defenderam o “compromisso histórico” entre o PC, o maior partido comunista do ocidente, com a Democracia Cristã, maior partido burguês na Itália.

AMÉRICA LATINA

Fracasso do reformismo e do nacionalismo burguês no mundo semicolonial

Revolução sandinista de 1979; na ocasião, Fidel Castro pediu aos sandinistas que não fizessem da Nicarágua uma nova Cuba.

Na América Latina, entre os anos 1950 e 1970, a presença do reformismo e do nacionalismo burguês seguiram esse processo de chegar ao governo para tentar desviar os processos revolucionários desde a Bolívia, em 1952, até a Argentina, com Perón. Nesses processos, em nome da frente com a burguesia, os PCs apoiaram os governos ditos progressistas, como Joao Goulart no Brasil, em 1962-63, e a Unidade Popular de Allende no Chile, entre 1970-73. Em nome dessas alianças, passaram a defender a legalidade e o Estado e chamaram a confiar nas forças armadas, ditas patrióticas. Com isso, desarmaram a resistência aos golpes tanto no Brasil quanto no Chile.

NEOLIBERALISMO

A crise na social-democracia e no stalinismo

A social-democracia, que havia se fortalecido na reconstrução do pós-guerra e por sua identificação com o Estado de bem-estar social, passou a sofrer um forte desgaste no final dos anos 1960. Nesse momento, começou o período de ataques a esses direitos sociais. Ataques que vieram pela direita, mas também pelos sociais-democratas quando estavam nos governos.

Na França, na Alemanha e na Espanha pós-franquista, a partir dos anos 1970 e nos anos 1980, começou um forte desgaste que se aprofundou com a implantação do chamado “neoliberalismo”. Este consistia numa política econômica de retirada dos direitos conquistados em nome de “menos Estado” e da “liberdade de iniciativa”. Iniciado por Margaret Thatcher (Reino Unido) e Ronald Reagan (EUA) e experimentado na ditadura chilena de Augusto Pinochet, o neoliberalismo foi sendo tomado como pauta também por governos social-democratas: Mitterrand na França, em 1981-88, Felipe González na Espanha, nos anos 80, os trabalhistas na Inglaterra e os sociais-democratas na Alemanha. Desse processo, surgiu a terceira via do trabalhista Tony Blair, primeiro-ministro da Grã-Bretanha (1997 a 2007).

Por outro lado, abriu-se uma crise nos partidos comunistas europeus stalinistas com a repressão do Exército Vermelho russo contra as revoluções políticas no Leste Europeu nos anos 1950, 1960 e 1970.

Tony Blair, líder do Partido Trabalhista que defendeu a chamada terceira via

Surgiu, então, o fenômeno do eurocomunismo, tendo como carro-chefe o PC Italiano. Levando até o fim a política de aceitar o Estado burguês em nome da democracia, formularam a doutrina da “democracia como valor universal”. Para eles a evolução da democracia levaria ao socialismo sem necessidade de revoluções sociais. Ou seja, adotaram um programa tal como a social-democracia havia feito no passado.

As outras vertentes do stalinismo, como o maoísmo e o castrismo, apesar da estratégia guerrilheira, que num primeiro momento atraiu a simpatia de milhares de militantes, acabaram por ser a expressão das burocracias que governam China e Cuba. Em pouco tempo, apoiavam as burguesias ditas progressistas e se colocaram contra a tomada do poder pelos trabalhadores numa série de revoluções. Fidel Castro mostrou isso apoiando a aliança de Allende com a burguesia no Chile e também quando disse aos sandinistas na revolução da Nicarágua, em 1979, que não se devia expropriar a burguesia, mas sim se aliar a ela. “A Nicarágua não deveria ser uma nova Cuba”, disse.

Tanto a burocracia chinesa quanto a cubana foram linha de frente da restauração do capitalismo em seus países. Hoje, o PC cubano representa a nova burguesia que restaurou o capitalismo na ilha. Já o PC chinês passou a ser um partido que governa de forma totalitária o Estado capitalista chinês.

Após a restauração do capitalismo na ex-URSS, os partidos eurocomunistas como o PC Italiano completaram um processo de reconversão em partidos burgueses.

A social-democracia e o que restou dos antigos partidos stalinistas, como o português e o francês, transformaram-se em partidos da ordem, cujo programa é a defesa do Estado burguês. Assim, tornaram-se instrumentos auxiliares para a burguesia implantar sua guerra social e destruir o welfare state.

LEIA TAMBÉM
Reforma ou revolução em tempos de pandemia