O fim do mandato de Trump e o início do governo Joe Biden têm como contexto a profunda crise econômico-social e sanitária que vive os Estados Unidos, que está atingindo fortemente a classe trabalhadora e as massas.

Vamos começar com a crise sanitária causada pelo coronavírus. Os Estados Unidos são um dos países do mundo que contava com mais recursos tecnológicos, farmacológicos e financeiros para derrotar a pandemia. Mas tem o triste privilégio de liderar a lista mundial de infecções e mortes. Em meados de janeiro, o número total de pessoas infectadas chegou a 24 milhões e as mortes já ultrapassaram 400.000.

A pandemia continua em um ritmo feroz: todos os dias temos entre 250.000 e 300.000 novas infecções e uma média de 4.000 mortes por dia. Os hospitais estão sobrecarregados e a própria TV se vê obrigada a refletir essa realidade: por exemplo, a nova temporada da série Chicago Med, que nos mostra a terrível pressão sob a qual tem que trabalhar médicos/as e enfermeiros/as.

É verdade que o governo de Trump piorou as coisas com seu “negacionismo” e o péssimo combate à pandemia. Mas tudo foi acelerado pela sinistra política do “novo normal” (promovida tanto pela burguesia republicana quanto pela democrata), que obriga milhões de trabalhadores a trabalhar com grandes riscos de contágio.

Por último, mas não menos importante, foi exposta a profunda fragilidade e injustiça do sistema de saúde pública do país, caríssimo para um setor de trabalhadores e que também exclui toda uma parte deles. Para ambos os partidos, a saúde é um negócio e não um direito social da classe trabalhadora. Vejamos alguns dados: cerca de 27 milhões de adultos não têm nenhum seguro médico. Entre aqueles que têm: “Uma pesquisa de novembro de 2020 realizada pela empresa de gestão financeira de pacientes VisitPay descobriu que 35% dos americanos atrasariam o tratamento do coronavírus por medo de contas médicas associadas” [1].

No contexto em que a vacinação já foi iniciada, a distribuição da vacina é lenta e caótica. O governo federal recebeu 40 milhões de doses e distribuiu 31 milhões aos estados (muito longe dos 100 milhões de doses que Trump havia prometido até o final de 2020). Até 17 de janeiro, entre 10 e 12 milhões de pessoas haviam recebido uma dose e apenas 1.400.000 as duas. Ou seja, apenas 1/3 das vacinas recebidas haviam sido aplicadas.

O grave perigo é que ela pode expirar: “Embora a capacidade de refrigeração varie de local para local, as vacinas só são autorizadas por 30 dias de armazenamento nas unidades mais comuns (incluindo aquelas nas quais foram enviadas). Os estados foram rápidos em aumentar sua capacidade de armazenamento, mas foram alertados sobre as longas esperas por congeladores ultrafrios que poderiam estender a vida útil para cerca de seis meses. Isso significa que, em muitos lugares, esse primeiro lote de vacina expirará no final de janeiro”. Algumas vacinas, como a da Moderna e da Pfizer-BioTech, devem ser usadas em até seis horas após serem retiradas do ultrafrio [2].

Agora, como apontamos no segundo artigo desta série, o governo de Joe Biden está promovendo um grande pacote de incentivos financeiros dentro do qual 400 bilhões de dólares serão destinados para a compra de vacinas e o processo de vacinação [3]. Isso acelerou o ritmo (dizem que seriam aplicadas 100 milhões de doses), mas não é muito certo que resolva o caos e a desorganização.

Alguns meios de comunicação analisam que esse caos se deve à falta de um sistema nacional centralizado de saúde. Mas isso é apenas um “sintoma”, porque aqui se expressam todas as contradições do sistema capitalista. Por exemplo, sua capacidade técnica de produzir vacinas em massa, a de produzir equipamentos médicos de alta tecnologia ou a de formar cientistas e profissionais de saúde altamente especializados, mas tudo está intermediado pela propriedade privada e pela busca do lucro dos capitalistas. Como já dissemos, a saúde pública é hoje tratada como um negócio e não como um direito social, ainda que milhões de trabalhadores adoeçam e morram por causa disso [4].

A profundíssima crise econômico-social

A crise econômica e sua dinâmica, que analisamos no segundo artigo desta série, teve um forte impacto sobre a classe trabalhadora e as massas.

Esses são números macroeconômicos. Atrás deles está o sofrimento da classe trabalhadora e das massas nas crises capitalistas. Novamente, vejamos alguns dados dolorosos. Há um aumento acentuado da pobreza e da “insuficiência alimentar” (ou seja, da fome). Quase oito milhões de americanos se juntaram às fileiras dos pobres desde junho. Um relatório da Universidade de Chicago e da Universidade de Notre Dame mostra que “a taxa de pobreza saltou para 11,7% em novembro, ante 9,3% em junho. Isso é quase o dobro do maior aumento anual da pobreza desde a década de 1960″ [5].

Além disso, “cerca de 29 milhões de adultos, 14% de todos os adultos do país, relataram que sua casa as vezes ou com frequência não tinha o suficiente para comer nos últimos sete dias [de cada mês], segundo dados da Pesquisa do Lar coletados de 9 a 21 de dezembro”. Isso estava bem acima das taxas anteriores à pandemia: uma pesquisa publicada pelo Departamento de Agricultura relatou que 3,4% dos adultos informaram que seu lar “não tinha o suficiente para comer” em algum momento de 2019. A pior situação atual ocorre nas famílias com filhos: entre 8 e 12 milhões de crianças passam fome [5].

Em outra ordem de necessidades, há um aumento de inquilinos em atraso no pagamento do aluguel e da hipoteca. “Estima-se que 14 milhões de adultos que vivem em moradias de aluguel tenham esse problema, quase 1 em cada 5 inquilinos adultos.” Os trabalhadores negros, latinos e asiáticos são os que mais sofrem esta situação: 28% dos inquilinos negros, 24% dos inquilinos latinos e 23% dos inquilinos asiáticos “disseram que não estavam em dia com o aluguel, em comparação com 12% dos inquilinos brancos” [7].

Os problemas atingem setores mais amplos, inclusive camadas ainda mais altas da classe trabalhadora: “Quase 90 milhões de adultos, 38% de todos os adultos no país, relataram que foi ‘difícil’ ou ‘muito difícil’ para o seu lar cobrir as despesas habituais nos últimos sete dias” [do mês] [8].

O desemprego oficial e o real

Em abril do ano passado, houve um recorde de quase 30 milhões de pessoas solicitando o seguro-desemprego. O número diminuiu na segunda parte do ano, mas apenas parcialmente. A taxa oficial era de 6,7% em dezembro de 2020, mas subia para 9,9% para os negros e 9,3% para os latinos.

A perda de empregos atingiu mais os trabalhadores com salários baixos: “A maioria dos empregos perdidos na crise ocorreu em indústrias que pagam salários médios baixos. Essas indústrias representam 30% de todos os empregos, mas 58% dos empregos perdidos de fevereiro a dezembro, último mês dos dados de emprego do Departamento de Trabalho”. Foi mais do que o dobro da perda de empregos nas indústrias de salários médios e quase quatro vezes maior do que nas indústrias de salários altos [9].

Mas os números oficiais, com a sua definição de “desempregado”, excluem aqueles que já desistiram de procurar trabalho nas últimas quatro semanas ou não têm condições para fazê-lo, ainda que gostariam de conseguir um; excluem os trabalhadores licenciados não remunerados e também os proprietários de pequenas empresas que tiveram que fechar durante a pandemia, por distintos motivos. Se incluirmos todos esses “trabalhadores marginalizados”, existem “cerca de 48 milhões de pessoas, ou 1 em cada 7 pessoas no país, que vivem em famílias com um trabalhador marginalizado” [10].

Essa situação é muito grave e veio para ficar num futuro próximo. A pandemia deixou cicatrizes permanentes na economia: “Durante os bloqueios de 2020, muitas empresas, especialmente as menores do setor de serviços, não vão voltar e os empregos que as acompanham vão desaparecer. Além disso, é possível que muitos trabalhadores que foram despedidos não recuperem seus empregos, visto que as empresas procuram reduzir o pessoal e não recontratar trabalhadores mais velhos e mais custosos” [11].

O pacote promovido pelo governo de Joe Biden destina mais da metade de seu montante à ajuda a “indivíduos e famílias” e é muito possível que atenue esse quadro. Mas, por enquanto, só será aplicado em 2021.

O “sonho americano” morreu

O “sonho americano” era a ideologia de que os EUA eram a “terra das mil oportunidades”. Que qualquer que fosse a origem social de uma pessoa ou família, com trabalho duro e certa capacidade era possível ter sucesso e ascender socialmente.

Embora no país sempre tenham existido profundas desigualdades e discriminação racista, a verdade é que para importantes setores da classe trabalhadora, durante várias décadas, esse sonho parecia real: os salários eram suficientes para pagar a hipoteca da casa própria, comprar um carro e eletrodomésticos e poupar para pagar os estudos universitários dos filhos que, assim, iniciavam a vida do trabalho em um nível superior ao de seus pais.

Esse “sonho” começou a ser destruído em 1981, quando o governo republicano de Ronald Reagan derrotou a greve dos controladores de tráfego aéreo e deu início a uma ofensiva sobre os salários e as condições de trabalho [12]. De lá para cá, a deterioração do nível de vida dos trabalhadores tem sido constante, já que tanto os governos republicanos como os democratas avançaram nesse caminho, seja de modo mais lento ou mais acelerado.

Os empregos industriais eram fechados e substituídos por outros cujo nível salarial mal chegava à metade do anterior, como foi o caso da reestruturação da General Motors, em 2009 [13]. Os novos empregos criados no setor de serviços pagavam muito menos e tinham jornadas e condições de trabalho muito piores. Isso significa que atualmente, para muitos trabalhadores, ter um emprego fixo não garante que não sejam pobres, já que o salário mínimo médio nacional de cerca de 1.200 dólares por mês e superar a linha de pobreza requer não menos que 2.000 por família [14]. Por isso, a porcentagem de pobres é maior do que a de desempregados.

Todo esse processo de deterioração do nível de vida dos trabalhadores e das massas se acelerou a partir da crise de 2007-2008 (e a política de Obama para enfrenta-la) e deu um grande salto com a pandemia em 2020, como já analisamos nesse artigo. O “sonho americano” hoje está morto e para milhões de habitantes desse país tornou-se um pesadelo. Especialmente para os setores explorados e marginalizados, como a população negra e os imigrantes latinos. É a realidade objetiva e estrutural que alimenta as lutas do movimento de massas.

A situação do movimento de massas

Todo esse quadro gerou uma resposta crescente do movimento de massa. Sua manifestação mais notória tem sido as rebeliões antirracistas que respondiam aos casos de assassinatos e / ou lesões causados ​​pela polícia, como aconteceu com George Floyd em maio de 2020. A juventude negra foi a vanguarda dessas lutas que, como uma faísca que acende o capim seco, se espalhou para toda a população negra, latina e também para a juventude e setores brancos empobrecidos.

Expressavam a raiva e exaustão com a dura realidade que viviam, agravada ao extremo pelo impacto da pandemia. Por isso, as mobilizações se espalharam por todo o país e houve fortes confrontos com as forças repressivas. Seu impacto foi tão grande que consideramos que geraram uma crise no regime político e abriram uma nova situação no país. Foi um salto sobre os elementos da crise pré-existente, no quadro da constante deterioração do nível de vida e do crescente ceticismo das massas em relação ao “sistema” [15].

Simultaneamente, houve outros processos de luta: desde o início da pandemia, registrou-se um recorde de conflitos e greves no país, especialmente nos setores de educação, serviços e comércio. Lutas que surgem de baixo e refletem o cansaço dos trabalhadores pela situação atual. “A frustração com os baixos salários na indústria de serviços e a debilidade das proteções aos empregados… em meio ao aumento das mortes por coronavírus” […]. “Nessa onda de greves, o impulso vem das bases. Os trabalhadores decidiram que já tiveram o suficiente e estão preparados para pressionar por mudanças”, disse Dean Baker, economista do Center for Economic and Policy Research [16].

Diante deste “incêndio” que se produzia no país, a burguesia estadunidense procurou aproveitar a campanha e as eleições presidenciais de novembro para tentar frear e conduzir a luta para via morta do sistema eleitoral democrático burguês [17] . De certa forma, esse objetivo foi alcançado, pelo menos temporariamente: a onda de rebeliões antirracistas diminuiu e houve um recorde histórico no número de eleitores por um ou outro candidato. Também é possível que, depois de derrotarem a tentativa de reeleição de Trump, as expectativas dos trabalhadores e das massas no novo governo Biden estendam um pouco esse “respiro” para a burguesia e seu regime político.

Mas as causas profundas e estruturais que geraram um 2020 “quente” continuam aí e não serão resolvidas. É possível então que, diante dessa frustração, essas rebeliões e a onda de greves de 2020 voltem a esse patamar e até o ultrapassem.

Dois eventos recentes mostram essa possibilidade. No primeiro deles, o Sindicato dos Professores de Chicago votou pela rejeição da retomada das aulas presenciais, enquanto continuar a pandemia, e dessa forma desafia o plano de reabertura das escolas públicas da cidade promovido pela Prefeitura. [18] No outro, os 1.400 trabalhadores de um frigorífico processador de carnes no Bronx (Nova York) fizeram uma dura greve de vários dias e conseguiram um aumento salarial muito superior ao oferecido pela empresa [19].

Outro dado importante: os trabalhadores de dois gigantes das novas tecnologias, como Amazon e Alphabet-Google, começaram a se sindicalizar. Ambas são empresas que se opõem à sindicalização de seus trabalhadores. A Alphabet-Google paga salários mais altos e tem condições de trabalho mais flexíveis, mas argumenta que resolve as questões trabalhistas em relação direta com seus trabalhadores. A Amazon, que paga salários muito mais baixos e tem condições de trabalho muito duras, apresenta as mesmas razões que a tradicional burguesia comercial.

No caso da Amazon, 1.500 trabalhadores da linha de frente no depósito de Bessemer, Alabama (a unidade tem 5.700) já se organizaram e, de acordo com a legislação dos Estados Unidos, solicitaram que se realize uma votação entre todos os trabalhadores da unidade para obter reconhecimento oficial e representar o conjunto da unidade. A empresa tentou judicialmente impedir a votação [20]. Em outra unidade da Amazon, nos arredores de Detroit, também se está organizando um sindicato e a luta tem sido impulsionada pelo aumento de infecções por Covid-19, inclusive houve até greves parciais, com abandono do local de trabalho por uma parte dos trabalhadores [ 21].

No caso da Alphabet-Google, algumas centenas de trabalhadores de sua sede formaram o primeiro sindicato dessa empresa (na verdade o primeiro de trabalhadores diretos das diferentes companhias do Vale do Silício, já que existiam sindicatos de trabalhadores de serviços terceirizados como a limpeza). O sindicato se chama Alphabet Workers Union e é filiado ao Communications Workers of America [22].

Notas:

[1] https://www.theguardian.com/us-news/2021/jan/12/health-insurance-food-americans-face-difficult-choices-amid-pandemic?CMP=Share_iOSApp_Other

[2] https://nymag.com/intelligencer/article/americas-vaccine-rollout-disaster.html

[3] https://www.latimes.com/espanol/eeuu/articulo/2021-01-14/biden-propone-un-plan-de-1-9-billones-de-dlares-para-frentar-la -pandemia-e-a-crise econômica

[4] Sobre este assunto, recomendamos o artigo “Vacunas para todos y todas” em https://litci.org/pt/62757-2/

[4] Sobre este assunto, recomendamos o artigo “Para onde vai a economia mundial?” em https://litci.org/pt/62598-2/.

[5] https://www.cbpp.org/research/poverty-and-inequality/tracking-the-covid-19-recessions-effects-on-food-housing-and

[6] Idem.

[7] Idem.

[8] Idem.

[9] Idem.

[10] Idem.

[11] https://thenextrecession.wordpress.com/2021/01/02/forecast-for-2021/

[12] https://www.abc.es/historia/momento-reagan-convirtio-reagan-201012040000_noticia.html?ref=https:%2F%2Fwww.google.com%2F

[13] https://www.reuters.com/article/oestp-generalmotors-despidos-idESMAE5190JK20090210

[14] https://www.bbc.com/mundo/noticias-internacional-42315879#:~:text=UU.%2C%20el%20ingreso%20medio%20en,300%20al%20a%C3%B1o.

[15] Sobre este assunto, sugerimos a leitura da declaração da LIT-CI em: https://litci.org/pt/um-processo-revolucionario-sacode-os-eua/

[16] https://www.smh.com.au/world/north-america/wave-of-1000-strikes-ripples-across-the-us-as-crisis-bites-20200929-p5606t.html?fbclid = IwAR18IEkXZYTySoMSe09REwoKMrokXws-tEgqdPyF7ap4yA8sHkHLDb5GUEM

[17] Ver: https://litci.org/pt/estados-unidos-entre-a-rebeliao-negra-e-as-eleicoes/

Forecast for 2021

[18] https://chicago.suntimes.com/education/2021/1/24/22247280/chicago-teachers-union-votes-in-person-work-defy-chicago-public-schools-reopening-plan-strike ? fbclid = IwAR1wqvGP59KiJnuSRgyVTkuq4t8xOwTtEhQnh8D39z7BsIjSIhPi_nSM6R4

[19] https://www.jacobinmag.com/2021/01/the-bronx-strike-produce-market-workers-wages?fbclid=IwAR3LMa2ZpSmyv0F0x7x9E6Z5poAs8xOATB0atUocqC3oyNYQrL6GANw8TO8

[20] https://mundocontact.com/trabajadores-de-amazon-buscan-sindicalizar/

[21] https://www.elfinanciero.com.mx/bloomberg-businessweek/hola-amazon-aqui-esta-el-sindicato-de-trabajadores-que-nunca-pediste

[22] https://www.tecmundo.com.br/mercado/208881-google-trabalhadores-anunciam-sindicato-inedito-vale-silicio.htm