O gabinete do Dr. Caligari, o centenário de um clássico

Há cem anos o diabólico Dr. Caligari e Cesare, seu sonâmbulo assassino, aterrorizavam o público em Berlim. Dirigido por Robert Wiene e lançado em fevereiro de 1920, o filme se tornou a grande obra do cinema expressionista alemão e um dos mais influente da história do cinema mundial.

A história é narrada por Francis, que sentado em um pátio relembra um episódio ocorrido no pequeno vilarejo de Holstenwall, na Alemanha, onde Dr. Caligari chega para apresentar seu espetáculo de “sonambulismo” na feira anual. Cesare, o sonâmbulo, é despertado por Dr. Caligari para que ele responda as perguntas do público, já que ele “conhece o passado e pode ver o futuro”. Alan, amigo de Francis, corre então para perguntar até quando ele viverá ao que de pronto Cesare responde: “não passará do amanhecer”. O premeditado se cumpre e uma série de outros crimes acontecem no vilarejo. A trama se desenvolve então com a perseguição de Dr. Caligari e Cesare até o momento final quando Francis segue Caligari pelas montanhas. Ao final do filme, o espectador descobre que, na verdade, Francis é paciente de um hospital psiquiátrico, assim como todos os outros personagens, e que Dr. Caligari é diretor desse hospital.

Cesare, o sonâmbulo

A narrativa enquadrada (em duplo flash-back) se encerra deixando abertas inúmeras questões sobre as quais até hoje críticos e estudiosos de cinema divergem. Francis e os outros são de fato loucos ou Dr. Caligari não passa de um pérfido manipulador? E se Dr. Caligari é um manipulador, quem de fato deve responder pelos crimes? O sonâmbulo ou o hipnotizador? Fato é que, muito diferente do que se fazia na época e até hoje, essa não é mais apenas uma história típica com começo, meio e fim, com uma única conclusão.

Além da sofisticada narrativa, O gabinete do Dr. Caligari é um marco também em todos os outros aspectos cinematográficos. Sua fotografia é carregada e marcada por um forte contraste e um intenso jogo de luz e sombras. Seus personagens têm expressões exageradas e a maquiagem pesadíssima acentuando as expressões. Do mesmo jeito são exagerados a postura e os movimentos corporais, muito acentuados.

Mas de todos esses aspectos o que mais chama a atenção é o cenário. Em uma época em que o cinema ainda lutava para ser considerado arte, Robert Wiene trouxe para as telas o que melhor havia da pintura e do teatro alemão. Seus cenários são disformes, com pouca profundidade. Portas, janelas e telhados pontiagudos, em ângulos tortos. Os próprios movimentos de câmera – mais estática como um espectador diante do palco – e a divisão da narrativa em atos reforçam a aproximação com o teatro.

Obra prima do expressionismo

O expressionismo é um movimento estético que se desenvolveu entre os anos de 1910 e 1920 principalmente na Alemanha e atravessou os diversos campos artísticos. O movimento se desenvolveu como uma resposta ao positivismo e objetivismo dos movimentos impressionista, naturalista e realista. Os expressionistas negavam que a arte deveria ser apenas a observação, a “impressão” da realidade. Eles queriam romper com isso e colocar no centro da obra suas intuições e seus sentimentos. A arte deveria ser “expressão” do artista, daí o termo.

Acontece que entre os anos 10 e 20 do século passado a Alemanha passava pela experiência traumática de ser derrotada na I Guerra Mundial. O clima na sociedade alemã era de derrota. Os efeitos da guerra, a devastação do país e a crise econômica deixavam pouco espaço para esperanças e muito para a angustiante falta de perspectiva. Nesse cenário, a “expressão” artística desses sentimentos assume a forma de cores vibrantes e agressivas, muito contraste e formas abruptas. Os temas do expressionismo não raramente são a angústia, a solidão e o medo.

São dessa época filmes como Nosferatu (Friedrich Murnau, 1922), M – O Vampiro de Düsseldorf (Fritz Lang, 1931), O Golem (Paul Wegener, Carl Boese, 1920), A última gargalhara (Murnau, 1924) e Fausto (Murnau, 1926).

Todos esses aspectos, contudo, foram sintetizados brilhantemente em O gabinete do Dr. Caligari e é por isso que o filme é considerado uma obra prima do expressionismo alemão. Seus cenários deformados e suas cidades tortas, mais do que recursos estilísticos, são a expressão de uma sociedade pós-guerra desfigurada. Seu ambiente sombrio e cheio de contrastes, são o reflexo sintomático de um mundo desigual. A narrativa sem conclusão final é a expressão da dúvida perante o futuro.

Intelectuais do cinema como Sigfried Kracauer defendiam que os filmes expressionistas não só refletiam o sentimento pós-Primeira Guerra como anunciavam a distopia nazista que se gestava na sociedade alemã, antecipando seus tipos e métodos. É possível uma nação, sob estado de sonambulismo, ser manipulada por sinistros senhores e levada aos mais bárbaros crimes? Quem aqui é o culpado? As questões levantadas por O gabinete do Dr. Caligari, abertas antes mesmo da experiência nazista, permanecem.

Cartaz de O Golem (1920). Deformação na cidade era a representação de um mundo disforme

De Berlim para Hollywood

A crise alemã, contraditoriamente, beneficiou a indústria cinematográfica alemã. Primeiro porque durante a guerra foi interrompida a importação de filmes estrangeiros, abrindo espaço e ao mesmo tempo obrigando a indústria alemã a suprir essa demanda. Segundo porque no pós-guerra a moeda alemã estava extremamente desvalorizada e isso tornava os filmes alemães muito baratos internacionalmente. Muitos dos diretores que se destacaram no expressionismo alemão acabaram terminando em Hollywood, como é o caso de Fritz Lang e F. W. Murnau.

O homem que ri (Paul Leni, 1929) – obra expressionista é referência direta para o Coringa de Batman

A influência desses filmes e desses diretores é nítida em Hollywood até os dias de hoje. Na década de 1930 são lançados nos EUA filmes como Frankstein (1931), Drácula (1931) e A múmia (1932). Todos os film noir lançados em Hollywood também foram fortemente influenciados pelos ares sombrios do expressionismo alemão. Diretores como Alfred Hitchcock e Ridley Scott também podem ser considerados herdeiros do expressionismo cinematográfico. O Homem que ri (Paul Leni, 1929) é, sem a menor dúvida, inspiração para o personagem Coringa, da franquia Batman.

Dos diretores contemporâneos, contudo, nenhum é mais explícito e direto em seu retorno ao expressionismo alemão do que Tim Burton. Seus cenários tortuosos e o clima sombrio estão diretamente ligados ao movimento estético. E já que falamos de Batman, há quem diga que o Pinguim no filme Batman (1989), de Tim Burton, é inspirado diretamente no Dr. Caligari.

Dr. Caligari e Pinguim