Em mais um episódio de ofensa à liberdade de cátedra, o cerceamento ao professor na rede municipal de ensino  de Criciúma é chocante. Após exibir o clipe “Etérea”, do compositor Criolo, para uma turma de 9º ano, um professor foi duramente ofendido e inclusive demitido.

Um vídeo de uma candidata a prefeita na última eleição, ligada ao presidente Bolsonaro, proferindo críticas ao professor, foi o princípio do ocorrido.

O clipe, por apresentar pessoas de diversos tipos físicos e com diferentes caracterizações, foi taxado de “inapropriado” para adolescentes por volta dos 14 anos. Piorando a situação, o prefeito da cidade, Clésio Salvaro (PSDB), fez um vídeo vexatório, falando da demissão desse professor e que “enquanto eu estiver aqui de plantão, não vai ter essa ‘viadagem’“. Com deputados apoiando e defendendo a fala e com a Câmara de Vereadores, que em votação proibiu que nas escolas seja utilizada a linguagem neutra (uma linguagem que acolhe todos os gêneros existente) proibiu também que as pessoas LGBTIs tenham acesso aos direitos básicos na cidade. Não é a primeira fala desse teor vinda do prefeito. Temos certeza que não será a última.

Criciúma tem um alto índice de suicídio, inclusive entre adolescentes. Quantos desses LGBTIs, no descobrimento de sua sexualidade ou de suas identidades de gênero, que pela falta de apoio familiar, tiram suas vidas?

O capitalismo cria estereótipos de pessoas. Gera toda uma pressão visando um lucro, visando inferiorizar e dividir a classe. O estereótipo hétero, binário, desenha corpos como se fossem únicos. Lucra com o casamento hétero: mulheres em casa, dóceis, cuidando dos seus maridos para que rendam ao máximo no trabalho, procriem e mandem novas frotas de trabalhadores para serem explorados. Quer que a escola cumpra esse papel castrador e de encaixotamento das peças fabris. Cria a ideia e o ideal de corpos: magros, para imagem ou serviço. Para que gastem com a beleza. Cria o comportamento conservador, quanto menos se desvia das ‘funções’ programáticas, melhor.

Com toda a repercussão gerada pela demissão e as falas preconceituosas do prefeito Salvaro (PSDB), ocorreu um chamado para uma parada LGBTI em Criciúma no dia 28 de agosto.

Parada LGBTI foi gigante

Foi bonito de ver! Logo após a repercussão das falas do prefeito, uma parada LGBTI ocorreu com mais de mil pessoas e muitas demonstrações de revolta e luta pela vida, por direitos e contra as políticas que fazem o Brasil ser campeão em mortes das pessoas  LGBTIs. O mais surpreendente foi a quantidade de jovens que esteve no ato, a juventude que está nas frentes dos atos contra o governo genocida de Bolsonaro e Mourão, compareceu em cheio na Parada LGBTI na luta contra as opressões.

A parte cultural do evento deu um tom especial. Vários artistas das mais diversas expressões e estilos estiveram presentes na Parada LGBTI, mostrando que existe um espaço para a arte nas lutas da cidade.  Com as mais diversas manifestações desde faixas, cartazes, lambes, adesivos e bandeiras para todo o lado. O ato deu orgulho para todos que lutam contra as opressões. Jovens, famílias (de todos os tipos!), coletivos, partidos, movimentos, todos unidos na luta contra a opressão!

‘’Eu acho que a fala do prefeito é desnecessária, né? Um prefeito que recusou comentários sobre o roubo da merenda em Criciúma e faz uma fala homofóbica contra um professor da rede municipal aqui de Criciúma. Então eu acredito que esse ato demonstra o quanto todo esse povo que vem sofrendo aí, que o nosso país é o país que mais mata LGBTIs no mundo. Então esse ato hoje representa muito na nossa cidade”, afirma Ederson, militante do PSTU.

Nós, do PSTU, junto com a juventude do Rebeldia estivemos presentes também com as faixas com os dizeres ‘’FORA SALVARO’’ e ‘’É necessário construir o socialismo para acabar com a LGBTfobia’’, junto com os nossos adesivos “fora Bolsonaro e Mourão”, que foram distribuídos no ato junto com os panfletos do REBELDIA.

Foi empolgante ver a juventude indo atrás dos adesivos e aliando a luta das opressões com a necessidade de derrubar para já esse governo genocida. A motivação e vontade de se mover demonstram a necessidade de organizar e mostrar a direção para a luta de uma nova geração de lutadores.

“Sou uma mãe de Criciúma, participo do grupo estadual do “Mães pela diversidade”, aquelas mães que acolhem os seus filhos, que amam os seus filhos, e que também foi difícil para mim como mãe “sair do armário”. Mas as mães pela diversidade é um grupo que os pais também podem entrar, e é espetacular, sabe? É um acolhimento, um amor que a gente consegue olhar os nossos filhos com amor incondicional, onde a gente percebe o real significado do amor e do acolhimento da nossa família”, disse uma das componentes do grupo “Mães pela Diversidade”.

Sentimos a falta de mais debate político aprofundado sobre a questão da luta das LGBTIs e da história da nossa classe. Cremos que poderia ser muito mais explorada no evento. Pois num país que mais mata LGBTIs, é para onde deve seguir a nossa luta. Qual o caminho para acabar com as opressões? Para isso indicamos a todos a leitura destes dois textos sobre a revolta de Stonewall e o Ferro’s Bar, revoltas que também podem ser estudadas por vídeos no youtube e filmes.

Após a parada LGBT do último sábado, vem um questionamento: Para onde ir e como deve seguir a luta de nós, pessoas LGBTIs? Devemos seguir lutando, mas com qual estratégia e qual o caminho devemos seguir na luta?

A parada foi linda, mas e agora para onde ir?

Estamos sendo mortas, não temos empregos, muito menos acesso à saúde, educação e direitos básicos. Sabemos que não são as leis que vão garantir a nós esse acesso, o buraco é muito mais fundo. Todos os anos, somente no Brasil, milhares de pessoas LGBTIs são assassinadas, agredidas e humilhadas por conta de suas características, enquanto isso governantes não fazem nada, ou quase nada, para acabar com essa opressão.

As opressões ocorrem ainda nos dias de hoje, pelo simples fato de que, para a burguesia, é vantajosa a existência de preconceitos como LGBTfobia, racismo e machismo, pois isso impede que a classe operária seja uma única unidade que luta contra as explorações do sistema capitalista. Além disso, o fato de existir uma classe que sofre preconceitos diversos, permite que eles contratem estas pessoas com salários ainda mais irrisórios, com cargas horárias e tarefas ainda mais desgastantes que o da classe operária no geral.

Ou seja, para a burguesia é irrelevante que LGBTIs estejam sendo espancados na rua, que negros estejam sendo presos sem ter cometido crime algum, ou que milhares de pessoas não tenham onde morar, nem tenham o que comer, ou que os trabalhadores como um todo, não tenham acesso a saúde, educação, ou assistência social de qualidade. O importante é que, quanto mais opressão ocorra contra essas minorias sociais, mais facilmente os grandes empresários podem explorá-las.

Por isso chamamos as pessoas LGBTIs a construir uma nova Stonewall, para conquistar emprego, saúde e educação. É necessário se organizar e conquistar os nossos direitos, porem neste sistema que lucra acima da nossa opressão e exploração, é impossível. É necessário construir um novo modo de gerir a sociedade, é necessário construir o Socialismo para iniciarmos o fim da nossa opressão, essa é a luta e a tarefa que chamamos todos a se dedicarem a construir.

Seguimos resistindo pra existir. Não há trégua para nós. Sozinhas estamos limitadas e precisamos saber quem são nossos aliados. Há muitos outros setores oprimidos, como os indígenas, negros e negras, migrantes e todes aqueles que vivem sob um território ocupado ou não reconhecido, que não são LGBTIs, mas têm suas vidas marcadas pela opressão. A luta por uma vida plena, por uma sociedade na qual tenhamos direitos e dignidade, passa por destruir o sistema de exploração que nos oprime. Isso só vai acontecer se nos aliarmos àqueles e àquelas que produzem tudo que existe no mundo: a classe trabalhadora. Essa é uma necessidade, sem a qual será impossível superar o sistema capitalista e construir uma nova sociedade, socialista.

Por isso, temos que resgatar o espírito combativo e radicalizado de Stonewall e fazer de novo uma rebelião das pessoas LGBTIs! Mas precisamos ir além, pois as conquistas que obtemos no capitalismo são limitadas, passageiras e podem retroceder a qualquer momento.

A libertação das nossas identidades e a possibilidade de vivenciar nossa sexualidade plenamente só será possível destruindo as bases dessa sociedade dividida em classes, em que a burguesia se aproveita e reproduz a opressão para superexplorar as pessoas LGBTIs e dividir a classe trabalhadora. Por isso, precisamos ganhar as pessoas normativas da classe trabalhadora para defender as nossas bandeiras e lutar junto conosco contra o capitalismo!

Para unificar os trabalhadores em toda sua diversidade é necessário combater a LGBTfobia e toda forma de opressão, inclusive dentro da nossa classe, pois nossa missão histórica é uma só: explodir este sistema de opressão e exploração e construir uma sociedade socialista! Façamos um chamado a construir o PSTU conosco!

  • Contra a LGBTfobia! Nossas vidas importam! Por vacina, emprego e auxílio!
  • Contra o Projeto Escola sem Partido, pela retomada do programa de gratuidade do tratamento de pacientes soropositivos, por educação sexual nas escolas e criminalização real da LGBTfobia!
  • Organizar as pessoas LGBTIs, em comitês de base, colunas nos atos, junto a classe trabalhadora, para botar pra fora Bolsonaro, Mourão, Damares e toda sua corja!
  • Façamos Stonewall de novo e vamos além: lutar contra a LGBTfobia, contra o capitalismo e por uma sociedade socialista!
  • Fora Salvaro e todos os vereadores homofóbicos!
  • Solidariedade ao Professor perseguido!