Hertz Dias, de  São Luis (MA) e Wilson Honório da Silva, da Secretaria Nacional de Formação do PSTU

Manoel da Conceição, militante da luta camponesa e símbolo da resistência à ditadura militar, faleceu nesse 18 de agosto, aos 86 anos, coincidentemente na mesma data em que, há exatos 58 anos, se tornou presidente do primeiro sindicato de trabalhadores rurais do Maranhão. Mas, também, exatamente no mesmo dia em que, Brasil afora, eram realizados atos contra a Reforma Administrativa de Bolsonaro, enquanto Lula visitava o Maranhão, tendo na agenda reuniões com setores da burguesia local, incluindo a filha de um antigo algoz de Manuel da Conceição, a ex-governadora Roseana Sarney.

Mané, como também era conhecido, nasceu em 1935, na cidade de Coroatá, no Maranhão. Com apenas 20 anos de idade já sentiu a necessidade de se organizar para enfrentar o latifúndio, quando viu sua família sendo expulsa das terras em que viviam há décadas. Partiram, então, para a região de Bacurau do Mearim, onde passaram a viver em terras devolutas (terras públicas e que em nenhum momento integraram o patrimônio de alguém em particular), mas foram novamente expulsos, em 1956, desta vez por um criador de gado.

O novo deslocamento forçado, o levou a Pindaré-Mirim, onde Mané se envolveu com as atividades que marcariam uma vida toda ela dedicada à luta dos “de baixo”: a educação popular e a organização dos trabalhadores (particularmente os rurais), como instrumentos de luta pela construção de uma sociedade mais justa e igualitária.

Foi lá que, em 1960, ele se envolveu com o Movimento de Educação de Base (MEB), através do qual, juntamente com outros trabalhadores, ajudou a fundar 28 escolas destinadas à alfabetização de camponeses. O projeto, sintonizado com as ideais sobre “educação para a liberdade” de Paulo Freire, tinha como temas “sindicalismo, política e cooperativismo” e, coerente com esta proposta, Manoel da Conceição fundou, em 18 de agosto de 1963, um ano antes do golpe militar, o Sindicato dos Trabalhadores Rurais do Maranhão, no qual se tornou o primeiro presidente.

Um lutador incansável e irredutível contra a Ditadura Militar

Com a chegada dos militares ao poder, as perseguições políticas se alastraram pelo país e o sindicato, inclusive pela força que estava conquistando (chegando a filiar mais de quatro mil trabalhadores rurais), se tornou um alvo preferencial do “terror de Estado”.

Logo após o golpe, a sede da entidade foi ocupada e cerca de 200 ativistas foram presos. Neste período, Manoel entrou em contato com a Ação Popular (AP), uma organização criada pelos setores da esquerda cristã, a qual ele passou a integrar em 1967. No ano seguinte, quando a violência da ditadura havia se acirrado ainda mais, foi feita uma nova investida contra a sede do Sindicato e Mané foi baleado e preso. E, sem tratamento médico, sua perna gangrenou e teve que ser amputada.

José Sarney era o então governador do Maranhão, como representante do partido de fachada dos militares, a Aliança Renovadora Nacional (Arena). Ciente da força do camponês, Sarney lhe ofereceu vantagens materiais em troca de “cooperação”. Manoel recusou veementemente, com uma frase que ficou imortalizada: “Minha perna é minha classe”. Depois desse fato, que demostra a desumanidade do grupo Sarney, Manoel da Conceição manteve-se firme na oposição ao regime, sendo perseguido, preso e torturado diversas vezes e em vários estados do Brasil.

No início dos anos 1970, foi jogado nos porões da famigerada Delegacia de Ordem Política e Social (DOPS), de São Luís. Em 1972, conheceu o verdadeiro “inferno” nas celas do quartel da Polícia do Exército e do Centro de Informações da Marinha (Cenimar), ambas no Rio de Janeiro, onde sofreu torturas tão bárbaras que afetaram sua saúde até o final de sua vida.

Muito debilitado, foi transferido para uma prisão em Fortaleza, onde ficou detido até 1975, e, poucos meses após ser libertado, foi novamente preso, indo parar, desta vez, no Departamento Estadual de Ordem Política e Social de São Paulo (Deops-SP), onde passou por novas brutais sessões de tortura. E, de lá, só saiu vivo em função de uma campanha internacional que levou o então Papa João Paulo VI a enviar um telegrama para presidente-ditador Ernesto Geisel, o que resultou em sua libertação, em 1976, sob a proteção da Anistia Internacional, que garantiu seu exílio na Suíça.

Uma voz no exílio e um militante pela organização dos trabalhadores

Enquanto esteve na Europa, se dedicou à denúncia das atrocidades do regime militar no Brasil e vários outros países latino-americanos (a chamada “Operação Condor”) e a campanhas, com demais exilados, em defesa dos presos políticos. Incansável, retornou ao Brasil, em 1979, depois da publicação da Lei da Anistia e logo se engajou na fundação do Partido dos Trabalhadores.

Na cerimônia de fundação, foi o terceiro a assinar a ficha de filiação, em função de ato “simbólico” pensado pelas lideranças do partido na época: o primeiro foi Mário Pedrosa (de tradição trotskista); o segundo, Apolônio de Carvalho (militante histórico do Partido Comunista Brasileiro e um dos combatentes das Brigadas Internacionais, na Guerra Civil Espanhola) e Manoel da Conceição, o terceiro, “representando” o legado camponês e a tradição da esquerda cristã.

Nos anos seguintes, foi presidente do partido em Pernambuco, onde, em 1982, se lançou como candidato a governador. Em 1986, retornou ao Maranhão, onde manteve sua luta contra a oligarquia Sarney e o latifúndio, e se candidatou a senador, em 1994, obtendo expressivos 111 mil votos, apesar de não ser eleito.

Desde meados dos anos 1980, contudo, dedicava sua militância muito mais à organização de base do que às atividades partidárias. “Eu continuei militando no partido, mas a minha atividade principal não era dentro do PT como instância, era mais no movimento sindical e associativismo de produção da agricultura familiar”, declarou em um longo depoimento dado, em 2006, ao Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea (CPDOC), da Fundação Getúlio Vargas (FGV).

Assim, nas últimas décadas, dedicou sua vida e trabalho à Central de Cooperativas do Maranhão, que ele próprio ajudou a criar, e uma série de entidades ligadas ao agroextrativismo, à proteção dos direitos dos povos camponeses e das florestas, além da preservação do meio ambiente, como o Centro Nacional de Apoio às Populações Tradicionais (CNPT); a Reserva Extrativista do Ciriaco e a Rede de Frutos do Cerrado e a União Nacional de Cooperativas da Agricultura Familiar de Economia Solidária (Unicafes).

Manoel, presente em nossas lutas. Até o socialismo!

Após quatro semanas internado com brancopeneumonia aguda, Manuel da Conceição faleceu na cidade de Imperatriz. E enquanto seu corpo era velado no Sindicato dos Trabalhadores Rurais da cidade, Lula emitiu uma nota de pesar no intervalo de seus encontros de gente que, certamente, não tem nada a ver com a vida e as lutas de Mané.

Dentre os que se reuniram com Lula estavam o senador Weverton Rocha, do PDT (investigado, dentre outros processos, por envolvimento com o desvio de verbas do Ministério do Trabalho); o empresário e atual vice-governador do Maranhão, Carlos Brandão (PSDB), um dos mais ferrenhos defensores de Matopiba (Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia), a chamada “última fronteira agrícola”, mas, na verdade, um império do agronegócio e, consequentemente, um cemitério para camponeses, quilombolas, indígenas e sem-terras, e Roseana Sarney (MDB), que dispensa apresentações.

Gente diante de quem Manoel da Conceição poderia, com certeza, repetir um trecho de seu depoimento dado ao CPDOC da FGV: “(…) E assim como eles são continuadores dos donos dos escravos, eu reivindico e digo para vocês aqui, com toda letra de forma e com todo vapor, que eu me considero um companheiro com mais outros companheiros que estamos continuando aquela luta travada por Zumbi de Palmares, por Antonio Conselheiro, por Balaiada, no Maranhão, e muitos outros companheiros que foram mortos, morreram querendo transformação, para acabar com a escravidão. Não viram. Mas ela hoje não existe. A gente também, hoje, pensa o seguinte: queremos uma sociedade democrática, fraterna, humana, sei lá, socialista, não sei como é que é o nome, sei que é uma coisa boa [ri]”

Em respeito à sua história e ao seu legado, o PSTU deixa, aqui, os mais sinceros sentimentos a todos os familiares, amigos e camaradas de luta desse incansável camponês.

Manuel da Conceição, Presente!