Roberto Aguiar, de Salvador (BA)

No último dia 13, um infarto silenciou a voz do primeiro cantor de trio elétrico e um dos violões mais afinados da Música Popular Brasileira. Antônio Carlos Moraes Pires, conhecido como Moraes Moreira, morreu aos 72 anos no Rio de Janeiro.

Nascido em Ituaçu, na Bahia, Moraes Moreira começou a se apresentar em festas juninas aos 12 anos de idade, tocando sanfona. Em entrevistas aos veículos de comunicação, sempre pontuava sua origem sertaneja e fazia referência ao livro Cem Anos de Solidão, do escritor colombiano Gabriel García Márques.

O Sertão era longe tudo, era uma espécie de Macondo, do livro Cem Anos de Solidão. Mas mesmo longe sempre estive ligado à música pelo rádio, pelos sanfoneiros e pela banda de música da cidade. E foi a música que me fez sair de lá e foi me levando para o mundo”, disse ao Guia Culturando.

Mudou-se para Salvador aos 19 anos, onde conheceu os parceiros com quem formaria o grupo Novos Baianos em 1969. Junto com Luiz Galvão, Paulinho Boca de Cantor, Baby do Brasil, Pepeu Gomes e Dadi, criou um dos principais grupos da história da MPB. Influenciados pela contracultura, pelo emergente movimento da Tropicália e pelo também baiano e pai da bossa nova, João Gilberto, fizeram uma mistura de sons.

Juntaram o rock com samba, maracatu, bossa nova, choro, afoxé, ijexá e frevo. Criaram um som diferente, uma espécie de samba com a energia do rock em meio à ditadura militar. O disco Acabou o Chorare, de 1972, foi classificado pela revista Rolling Stone, em 2007, como o melhor disco da história da música brasileira.

Futebol

Moraes Moreira era apaixonado por futebol. Não foi à toa que, no sítio apelidado de “Cantinho do Vovô”, em Jacarepaguá, criaram o time Novos Baianos Futebol Clube com as cores vermelho e amarelo. O nome do time também batizou o álbum de estúdio do grupo. O disco ganhou um filme homônimo de Solano Ribeiro, disponível no YouTube.

Moraes era flamenguista do-ente. Em sua terra natal, sua simpatia era pelo Esporte Clube Bahia. Junto com os criadores do trio elétrico, Dodô & Osmar, Moraes comandou a festa do título de campeão brasileiro do Bahia em 1988.

Carreira solo

Em 1975, partiu para carreira solo. Ganhou o Brasil com vá-rias músicas populares ligadas ao carnaval, uns frevos trieletrizados, como “Pombo Correio”, “Vassourinha Elétrica” e “Bloco do Prazer”. Como parte viva do carnaval de Salvador, Moraes Moreira sempre lutou contra a mercantilização da maior festa de rua do planeta. Sempre puxou o trio elétrico sem corda, fazendo da Praça Castro Alves sua apoteose.

Cantar para multidões sempre fez parte da vida de Moraes. Na histórica primeira edição do Rock in Rio, em 1985, cantou duas noites seguidas para milhares de pessoas. Gravou mais de 20 discos em carreira solo.

Sem nenhuma dúvida, a música brasileira perdeu um dos seus maiores expoentes. A MPB se tornou grande e Moraes foi um dos responsáveis. Por isso, será eternamente lembrado. Obrigado, Moraes!

ENTREVISTA

Conversamos com Paulinho Boca de Cantor, que relembrou o primeiro encontro com Moraes Moreira em Salvador, a formação dos Novos Baianos e a forte amizade com Antônio, como carinhosamente chamava o parceiro pelo primeiro nome.

Quando e como iniciou sua amizade com Moraes Moreira?

Paulinho – Nossa amizade começou há 50 anos. Conheci Moraes e Galvão na casa do Tuzé de Abreu, que tocava na orquestra que eu cantava. Não nos separamos mais e decidimos que poderíamos construir alguma coisa juntos. Aí as outras pessoas foram chegando como Baby, Pepeu, Jorginho, Didi, Dadi, Baixinho, Bola, Bolacha, Gato e Charles.

Foi assim que nasceram os Novos Baianos?

Paulinho – Fomos juntando todo mundo e construindo uma nova família, sem laços sanguíneos, mas com uma afinidade tremenda. Essa afinidade veio através da alegria e de uma união que permanece até hoje. Pode acontecer o que for, mas quando a gente se encontra é uma festa. Aí a música flui tranquilamente, naturalmente. Mesmo distantes alguns anos atrás, por conta da vida e da carreira de cada um, sempre cobravam nosso reencontro. Era um destino traçado, não tínhamos mais como fugir. O importante é que essas músicas, que começamos a fazer há 50 anos, estão e seguirão vivas.

O que Moraes Moreira significou para o grupo?

Moraes Moreira era o nosso grande timoneiro. Aquele violão não existe nada igual. Todos os artistas brasileiros, que tocam violão, sabem da capacidade que ele tinha em fazer um show de voz e violão e colocar todo mundo pra dançar. As composições que ele fazia contando a vida. Aquilo que ele expressava nas letras, a gente estava vivendo naquele momento.

Como estava a relação de vocês nos últimos tempos?

Seguíamos cuidando dos Novos Baianos, do nosso legado. Eu dizia a ele que não éramos mais os Novos Baianos, mas também não somos os Velhos, e sim os Usados Baianos. Vivemos intensamente a vida, a música e o carnaval. Todo o Brasil vai reverenciar para sempre a arte e a vida do grande compositor e cantor, o grande baiano Moraes Moreira.