Nove minutos e quarenta segundos. Esse foi o tempo que o ministro Nelson Teich demorou pra explicar o novo plano do Ministério da Saúde para conter o coronavírus: criar uma diretriz que possa ajudar estados e municípios a sair do isolamento social ou, em bom português, pôr fim à quarentena e deixar o povo pobre e trabalhador morrer à míngua. Essa é a síntese da fala do ministro na sua primeira coletiva de imprensa neste dia 22 de abril.

No mesmo estilo genocida de Bolsonaro, Teich deixou bem evidente que sua última preocupação nesse momento é como garantir que o Sistema Único de Saúde possa enfrentar a pandemia sem entrar em colapso. Mais bem está preocupado em como manter a economia capitalista funcionando, em detrimento da vida e da saúde da população e, como o sistema suplementar (leia-se a rede privada de saúde) vai seguir mantendo seus lucros, uma vez  que alguns hospitais privados já tiveram, segundo o ministro, queda de até 40% na procura de seus serviços.

Ou seja, enquanto em alguns estados o SUS está no limite de sua capacidade, no momento em que já há pacientes agonizando em filas por uma vaga de UTI nos hospitais públicos, quando em algumas cidades milhares de covas estão sendo abertas para esperar os mortos do coronavírus e em outras, como Manaus, os caixões já estão sendo enterrando em covas coletivas porque até os cemitérios estão sobrecarregados, a preocupação do ministro da Saúde é a baixa demanda dos hospitais particulares. É muita cara de pau!

Nunca é demais lembrar que nós defendemos a incorporação dos hospitais privados à rede do SUS para que todos os leitos sejam ocupados por quem precisa, independentemente se é rico ou se pobre. Que o ministro da Saúde saiba que pacientes estão morrendo por falta de leitos nos hospitais públicos quando leitos estão ociosos por falta de pacientes nos hospitais privados não é só indecente e antiético, é criminoso.

Teich ainda desdenhou da situação da pandemia no país. Embora não tenha sido capaz sequer de citar corretamente os dados de contaminados apurados pela pasta que comanda (disse que o Brasil tem hoje 43.500 casos confirmados quando no site do ministério foram divulgados 45.757), falou que o Brasil não vive uma explosão da doença e que tem a melhor performance do mundo em relação à Covid-19, na frente da Alemanha, Itália, Espanha, Reino Unido e Estados Unidos, já que o número de mortos por 1 milhão de habitantes é de apenas 8, contra 29 por milhão dos EUA.

Em primeiro lugar vamos aclarar alguns números: o Brasil tem hoje 14 mortos por milhão de habitantes e não 8 como afirmou o ministro, isto é, ou ele não sabe fazer conta ou tenta descaradamente nos enganar. Mas isso inclusive representa muito pouco em termos de performance, basta ver Mônaco que apesar de ter 5 vezes mais mortos por milhão que o Brasil teve somente 3 óbitos registrados. É que, quantos menos habitantes o país tem, maior é essa taxa. No entanto, o Brasil tem 2.906 óbitos confirmados, isto é, 968 vezes mais mortos pelo coronavírus que Mônaco.

O que o ministro não diz, é que o Brasil registrou o primeiro caso e a primeira morte bem depois que todos esses países, e mesmo assim o aumento dos casos e das mortes vem se dando de forma mais rápida que eles e isso com toda a subnotificação que sabemos existir. Basta ver os dados da cidade de São Paulo, onde o número de casos é o maior do país, tendo registrado até essa quarta-feira (22), 919 óbitos, sendo que outras 1.442 mortes ainda estão em investigação. Ou seja, para cada morto confirmado tem outros 1,5 suspeitos.

São Paulo aliás, vem registrando um crescimento vertiginoso de mortes nos últimos dias, o total de óbitos (confirmados de suspeitos) por coronavírus, saltou de 1.658, em 16 de abril, para 2.361 no dia 22, um aumento 42% (ou 703 óbitos) em apenas 7 dias. Se as coisas se mantiverem nesse ritmo, em 3 semanas São Paulo estará beirando as 10 mil mortes. Não é à toa que o prefeito Bruno Covas corre contra o tempo para abrir… covas nos cemitérios da cidade. Como o Ministério da Saúde não divulga as mortes suspeitas, sabe-se lá qual é a real dimensão da doença pelo país. Não que eles não saibam, o que eles não querem é que a gente saiba.

O ministro disse que vai reunir informações pois, segundo ele, sabe-se muito pouco da doença: quantos casos o Brasil tem, como é a transmissão, quantos transmitem, quantos ficam curados, quantos vão pra UTI, quantos ficam no hospital. Seria cômico se não fosse trágico que uma figura que se supõe Ministro da Saúde faça um tipo de colocação dessas e ainda desdenhe de estudos científicos, nacionais e internacionais, que buscam fazer levantamentos e  projeções para ajudar nas estratégias governamentais para deter o avanço da pandemia, como fez ao responder as perguntas dos jornalistas.

Que haja uma enorme subnotificação é uma coisa, basta ver a proporção de testes que os EUA realizou em relação ao Brasil: 13.067 contra 1.373, ou seja, quase 10 vezes mais (e já que é pra comparar a performance talvez esse seja um indicador melhor pra ver como nossa performance é ruim), mas daí a dizer que não sabe, por exemplo quantos estão hospitalizados e quantos precisando de UTI ou é cinismo ou incompetência, ou os dois. Segundo dados oficiais, o Brasil tem hoje 8.318 pacientes em estado crítico pela doença, é o segundo em casos críticos do mundo, perdendo apenas para os EUA.

Se o Ministério da Saúde ainda precisa organizar um banco de dados para consolidar informações, 3 meses depois de ser alertado para o risco de uma pandemia, é que a coisa anda mesmo mal, mas não é de surpreender. Desprezo à ciência e desdém pelas condições de vida da classe trabalhadora sempre foi a marca registrada de Bolsonaro. Desde que assumiu o governo, Bolsonaro insulta a ciência e os cientistas, corta verbas da educação e dos programas de pesquisa e ataca a classe trabalhadora, nossas conquistas sociais e direitos democráticos. Demonstra assim que é capacho de Trump, governa para a burguesia e que está disposto a entregar todas as nossas riquezas ao capital privado e ao imperialismo.

Derrotar esse governo sempre foi uma necessidade, mas agora que estamos diante de uma epidemia de proporções catastróficas, botar pra fora Bolsonaro, Mourão e toda sua trupe virou literalmente questão de vida ou morte. Esse genocida tirou um ministro que era ruim e nomeou um pior no lugar. Mandetta não tinha nenhum apreço pela saúde pública, quando foi deputado votou pelo congelamento dos gastos em saúde e ajudou a sucatear o SUS. Mas Teich defende que eficiência em saúde é deixar velho morrer porque saúde é caro e não dá pra gastar com todo mundo. Defende que serviços de saúde trabalhem sempre no limite de sua capacidade como forma de “otimizar” o sistema. E minimiza os efeitos de uma pandemia, que até o momento já deixou mais de 184 mil mortos no mundo, numa país que já padecia com o caos na saúde antes mesmo de se ouvir falar em coronavírus. Teich é a expressão de toda a hipocrisia burguesa e capitalista.

O ministro ainda defendeu a estratégia de imunização em rebanho, ou seja, que a maioria das pessoas (em torno de 70%) sejam contaminadas para que o vírus deixe de circular, até que uma vacina seja desenvolvida, mas disse que mesmo que isso não aconteça e que o Brasil só chegue a 100 vezes mais casos do que tem hoje, ou seja, 4 milhões de contaminados, isso não significaria nada, pois num país de 212 milhões de habitantes, ainda sobrariam 208 com outros problemas de saúde para tratar. Pouco importa quantas vidas trabalhadoras isso possa custar. No seu cérebro burguês demente e transtornado (e de todo o governo Bolsonaro) o que importa é a tal “economia”. Não por acaso toda sua fala foi pra justificar o fim do isolamento social.

Não podemos aceitar que essa gente siga aplicando seu plano genocida contra a classe   trabalhadora. Afrouxar as medidas de isolamento social nesse momento é o mesmo que decretar a sentença de morte para todo um setor da população mais desassistida, em especial aqueles que vivem nas periferias das grandes cidades e/ou que moram em regiões de difícil acesso aos serviços de saúde. É decisivo que nos organizemos para tomar controle da situação, botar pra fora esse governo e aplicar um plano de emergência para conter a pandemia e assegurar condições sanitárias e econômicas para toda a população.