Ir ou não ir além da CUT?

Uma polêmica sindical em perspectiva histórica“Não preterimos nada que signifique luta para quando se consiga a unidade. Para nós não é uma panacéia, mas uma lição sobre coisas importantes e decisivas que deve ser ensinada aos operários que a esqueceram, ou que não conhecem o passado.”

Leon Trotsky, A questão da unidade sindical

“Portanto, as seções da IV Internacional não devem somente esforçar-se sempre para renovar o aparelho dos sindicatos, propondo decididamente, nos momentos críticos, novos líderes dispostos à luta no lugar dos líderes rotineiros e carreiristas. Devem também criar, em todos os casos em que seja possível, organizações de combate autônomas que respondam melhor aos objetivos da luta de massas contra a sociedade burguesa, não retrocedendo, se necessário, nem ante um rompimento direto com o aparelho conservador dos sindicatos. (…)Os sindicatos não são um fim em si mesmos, são apenas meios que devem ser empregados na marcha em direção à revolução proletária.”

Leon Trotsky, Os sindicatos na época de transição

Nos últimos quinze anos se consolidou, no Brasil, uma situação peculiar de unicidade sindical pela base – com um só sindicato por categoria e por base territorial – e de pluralidade de Centrais sindicais, com a existência da CUT, da Força sindical, entre outras menores, sem que qualquer dessas Centrais tenha se preocupado em avançar, um milímetro que fosse, qualquer proposta de unificação. Muito ao contrário, CUT e Força Sindical estão apoiando a Reforma sindical do Governo Lula que cria um dispositivo legal que favorece a divisão dos sindicatos de base. Uma áspera luta político-sindical se abriu, no entanto, com a proposta de ruptura com a CUT realizada pelo sindicato dos metalúrgicos de São José dos Campos, com a adesão do ANDES, sindicato nacional dos docentes universitários, entre outros.

O desenlace das turbulências que estão mudando a configuração do movimento operário e sindical só estará claro, possivelmente, em alguns anos. Mas, ninguém deveria duvidar que a crise do movimento sindical é muito séria: quando não desprezam, os trabalhadores desconfiam da amplíssima maioria dos dirigentes sindicais e ignoram as centrais. Não só porque, como aconteceu a esquerda eleitoral brasileira, a pressão corruptora e cooptadora do Estado – e ou das grandes corporações capitalistas – ao longo dos vinte anos que nos separam do fim da ditadura foi devastadora, levando a uma burocratização sem freios. Mas, também, porque nos últimos dez anos, em função de uma longa situação defensiva, os sindicatos se esvaziaram.

A rotina sindical eleitoral de duas décadas devorou o que existiu de impulso anticapitalista no compromisso dos que fizeram suas primeiras experiências nos anos oitenta. Não existem hoje no Brasil, considerando todas as centrais, mais do que 100.000 dirigentes sindicais, talvez até menos, quase todos liberados do trabalho, e sem qualquer controle de suas bases há muitos anos. Os números absolutos parecem imponentes, mas, na verdade, não deveriam impressionar. A força do aparelho não esconde a sua fraqueza política. Ninguém se deveria enganar sobre o significado do tamanho desse aparelho: se considerarmos, comparativa e proporcionalmente às dimensões da classe trabalhadora em outros países, descobriremos que a CUT, a grande central que esteve à frente da maioria das lutas do país que foi campeão mundial de horas de greve nos anos oitenta, sofre hoje de nanismo. Gigante, só na sua relação com o Estado, como demonstra a presença de seus dirigentes na esplanada dos Ministérios. Só o aparelho cresce, porque a iniciativa da burocracia sindical cutista, considerando as condições de vida dos trabalhadores – pelo menos sessenta milhões nas cidades, sendo que a metade na informalidade – é nula.

As Centrais sindicais são a cúpula desse edifício pomposo – mas, na verdade, muito frágil. Tão débil, na sua relação com as massas populares, que a burguesia brasileira não teve maiores dificuldades em absorver à governabilidade do regime. Isso foi assim porque elas representam, na prática, muito pouco, se considerarmos as forças do proletariado brasileiro –um dos mais jovens, mais concentrados, e que evoluiu, e muito, em seu nível cultural – ou mesmo, também, o que foi o protagonismo de, pelo menos, meio milhão de ativistas sindicais nas lutas entre 1983 e 1990.

O governo Lula está mexendo as peças em um tabuleiro que estava prisioneiro de sua própria inércia. A burguesia já pressiona porque quer associar a reforma sindical à trabalhista. A primeira é indissociável da segunda. A violência do ataque é tão grande que leva até algumas das forças mais acomodadas a ensaiar alguma reação. Divisões dilaceram a própria articulação sindical. A corrente sindical classista anunciou sua oposição à reforma sindical, mas defende a permanência na CUT, enquanto o partido que inspira a maioria dos seus dirigentes mantém posições chave e até ministros no Governo Lula. A antiga esquerda cutista, com uma influência que remete aos melhores momentos da vaga de ascenso operário-popular dos anos oitenta, quando seus dirigentes se provaram, se dividiu em três blocos. Um setor, a CSD, próxima à tendência Democracia Socialista do PT, se uniu à Articulação sindical, oferecendo apoio ao governo, outro se manteve em um campo de oposição ao governo, mas dentro da CUT – embora muitos já tenham se desligado do PT – e um terceiro campo vem unindo os que decidiram romper com a CUT, ainda que nem todos tenham se decidido se somar à formação da Conlutas.

A previsível polêmica foi o suficiente para fazer ressurgir o argumento de que a divisão de uma central sindical, como a CUT, só poderia ter um efeito desorganizador. Sendo tão difícil a luta pela construção da unidade na ação dos sindicatos e da própria classe, não seria uma temeridade a proposta de desfiliação dos sindicatos da CUT, e a construção de um novo pólo intersindical para a coordenação das lutas? O argumento em defesa da unidade incondicional de todos os sindicatos em uma só Central para defender melhor a classe, independente da situação política de cada movimento operário concreto, apela ao bom senso, mas não encontra respaldo, nem na história, nem na situação política brasileira atual.

A história demonstra que em situações mais tensas na luta de classes – como a brasileira, depois da eleição de Lula – as velhas Centrais sindicais foram, freqüentemente, um obstáculo para a luta e, em conseqüência, foram perdendo suas bases sociais, quando se deixaram atrelar a governos, e passaram a defendê-los, e não aos trabalhadores. O alinhamento com os governos fez as Centrais perderem sua utilidade como instrumento de luta. Surgem, então, novas formas de organização como espaços de frente única, mais ágeis, ou mais próximas do controle das bases, como foram, por exemplo, os cordões industriais no Chile, quando do governo Allende, ou em Portugal, durante a revolução, entre 1974/75, as comissões de fábrica que se articulavam sob critérios regionais. Na revolução espanhola se consolidaram várias centrais: a UGT, sobre influência do PSOE e a CNT, onde a FAI – os anarquistas – eram majoritários. Estes novos organismos podem se desenvolver em cooperação, alternativa política ou paralelamente, mas sempre respondem às novas necessidades de representação.

No Brasil, a própria CUT nasceu em oposição ao que foi o imobilismo da maioria dos aparelhos sindicais, depois do impasse da iniciativa dos Conclat’s, no início dos anos oitenta. O processo de desilusão com o governo tem sido, nos últimos dois anos, acompanhado por um crescimento da indignação com a impotência da CUT, que só não foi mais acelerado até agora, porque ainda não se iniciou uma grande vaga nacional unificada de lutas. Uma onda unificada de luta em um país continental – como o Brasil – depende, porém, em grande medida da existência de uma organização também nacional. Essa ruptura de massas com a CUT, apesar da resistência aos efeitos da política do Governo Lula ter se concentrado em setores mais organizados, já começou e independe, essencialmente, da ação de qualquer organização. Poderá evoluir, entretanto, em direções muito diferentes, com signos progressivos ou regressivos, dependendo da incidência de inúmeros fatores, entre os quais o papel das correntes sindicais mais combativas não é o menor. Estamos diante de uma experiência partilhada por milhões de trabalhadores e jovens, que estão retirando conclusões sobre o governo Lula, e sobre a atitude dos dirigentes da CUT, a partir dos fatos que se sucedem. Estão submetidos à pressão da realidade e às interpretações mais variadas. Mas, que tenham perdido, ou estejam perdendo a confiança na direção da CUT é uma conclusão incontornável.

Poderia ser ponderado que mesmo com a cumplicidade diante do Governo Lula, e mesmo com a associação com o projeto da Reforma Sindical, a CUT ainda permanece como a principal referência de massas, entre os setores organizados. Este argumento ignora a tendência do processo: a CUT é uma Central em dinâmica de afirmação, como nos anos oitenta, ou em decadência, cada vez mais desprestigiada? Parece um bom critério olhar a situação concreta. Nem citemos, porque é muito conhecido, o que pensam os ativistas do funcionalismo que viveram a greve contra a reforma da Previdência em 2003. Que conclusões podem ser retiradas das assembléias dos bancários de São Paulo, em greve por um mês, quando a direção do sindicato – um dos três pilares da CUT, junto à APEOESP e metalúrgicos de São Bernardo – uma e outra vez, foi vaiada, junto a manifestações iradas de fúria contra a CUT? Que conclusão retirar do fato de que, na APEOESP, a maioria das subsedes da Grande São Paulo são dirigidas pela oposição sindical de esquerda? O que nos diz o fato de que na Volkswagen da Anchieta, na eleição da comissão de fábrica, quase a metade dos líderes eleitos – mais de 45% – não responderem mais à liderança de Luís Marinho?
A superação da CUT não poderá ser, evidentemente, instantânea. Não haverá um colapso do aparelho da CUT. Mas não haverá, também, uma recuperação, mesmo que Lula não obtenha a reeleição, porque o compromisso da CUT é com a governabilidade, como ficou claríssimo desde o segundo mandato de FHC. Não obstante, uma nova intersindical terá, ao nascer, uma adesão minoritária e exige ousadia. O desafio tem, por suposto, riscos. No entanto, a mentalidade conservadora do “cálculo matemático” de custos e benefícios – um “perdas zero” dos dirigentes sindicais – é uma pressão aparatista do período de refluxo que já conta, pelo menos, dez anos. Nenhuma das forças da esquerda cutista passou impune por essas pressões. Acontece que esta avaliação, quando se transforma em acusação, desvaloriza a prudente decisão do Encontro Nacional da Conlutas de não se precipitar na fundação imediata de uma nova Central.

Evidentemente, o bom e velho critério de que os trabalhadores devem ser livres para se auto-organizar, mas que defende que os marxistas devem lutar para que os sindicatos de base sejam os mais massivos e unitários possíveis, continua mais válido do que nunca. Ocorre que a CUT não é um sindicato, mas uma federação de sindicatos. Nenhum trabalhador é filiado à CUT, individualmente. Pior, não é uma Central sindical qualquer, ou em qualquer situação política. A CUT é, desde a posse de Lula, a mais governista de todas, portanto a mais perigosa, e aqui reside toda a questão estratégica. Iniciar a construção de um novo instrumento de luta intersindical, exterior e contra a CUT é, portanto, uma proposta muito diferente de romper os sindicatos de massas que existem, e que ainda são o campo onde se pode construir a frente única para lutar – como ficou claro na greve nacional bancária de 2004 – mesmo quando a Articulação seja maioria. Quis a ironia da história que a defesa do caráter de massas dos sindicatos unitários – que ainda são os instrumentos de luta mais importantes que a classe trabalhadora possui para se defender – dependerá, e em muito, da formação de uma estrutura inter-sindical exterior à CUT.

Permanecer na CUT ao longo dos últimos quinze anos, um intervalo em que parece forçoso admitir que, só muito excepcionalmente, ela foi um espaço de frente única para lutar – predominando uma crítica retórica aos terríveis ataques que vitimaram a classe trabalhadora – foi uma imposição da experiência dos trabalhadores. Não era possível construir um ponto de apoio superior à CUT. Defender a permanência na CUT, depois que Lula chegou ao governo, significa renunciar à mobilização para defender os trabalhadores. Desprezar a experiência que os trabalhadores já estão fazendo, e abortar a possibilidade de afirmação de um pólo classista que já pode nascer com peso de massas, não é somente um erro, mas, objetivamente, cumplicidade com o governo.

Não surpreende que a direção da CUT se preocupe em evitar que as mobilizações de massas, quando não as consegue bloquear, como durante a resistência do funcionalismo federal à Reforma da Previdência, se radicalizem contra o Governo. Isso é assim porque a direção da CUT defende o Governo e está associada, umbilicalmente, à proposta de Reforma sindical que, ela sim, prepara o caminho para uma divisão de boa parte dos sindicatos de base.

Trata-se de uma discussão desta natureza, portanto, da máxima gravidade. Quando estamos diante de grandes mudanças – e a pressão estatizante sobre a CUT, que vem de longe, mas deu um salto de qualidade, é umas dessas grandes mudanças – surgem decisões difíceis. Mas, é um péssimo critério deixar o passado governar o presente. É o futuro, a dinâmica do novo, que ilumina o caminho, enquanto construímos um caminho. Crises, claro, trazem perigos e oportunidades.

Muitos concordariam com o exposto acima, mas argumentariam que a nova situação de desgaste do petismo/lulismo/cutismo favorecerá uma luta interna para libertar a CUT da sua atual direção, a Articulação Sindical. O argumento parece razoável, mas, de novo, não tem respaldo, nem na tradição marxista, nem na experiência histórica internacional nem na própria trajetória política da esquerda cutista na década dos noventa.

Os argumentos de autoridade não devem ser os mais importantes, mas não se encontrará na tradição marxista qualquer referência que sustente a defesa incondicional da permanência em uma Central sindical, porque o marxismo é, por definição, avesso às normatizações apriori, já que a história não se repete, e cada situação é um contexto que deve ser apreciado em sua própria complexidade. O dogmatismo é sempre perigoso, mas especialmente nocivo, quando estudamos as possibilidades de intervenção em organismos de representação indireta das massas. O que as correntes revolucionárias sempre defenderam – desde a esquerda internacionalista da Segunda Internacional, até às resoluções dos primeiros congressos da Terceira – foi a presença nos sindicatos de base, mesmo quando as direções destes sindicatos eram burocráticas, desde que os trabalhadores reconhecessem esses sindicatos como os seus. O critério decisivo da escolha dos espaços a serem priorizados sempre foi: para onde vão as massas em seu movimento de luta, em especial os setores mais combativos? Foi a observação do critério anterior que motivou, inúmeras vezes, à presença dos revolucionários em mais de uma Central, condicionados pela filiação dos seus sindicatos de base.

Que existam muitas páginas dos clássicos insistindo com a defesa da presença dos comunistas nos sindicatos com influência de massas, mesmo com maioria reformista na direção, não parece surpreendente. Lênin estava polemizando, no início dos anos vinte – quando ocorreu o bloqueio da vaga revolucionária que, começando em Petrogrado, se fechou em Berlim, portanto, na seqüência de derrotas – com pressões ultra-esquerdistas e ou sectárias, freqüentes entre os partidos que se uniram à Terceira, muitas vezes com maioria de líderes operários que vinham do anarquismo. Trotsky voltou ao mesmo tema, nos anos trinta, depois da ascensão de Hitler, porque nas fileiras das organizações anti-estalinistas, predominavam ativistas jovens ou intelectuais, mas quase sempre com pouca experiência no movimento operário. Interpretá-las fora desse contexto não é razoável. Esse é o maior perigo que a esquerda vive hoje no Brasil, quando mais de 90% dos quadros da geração dos anos oitenta se acomodaram aos cargos e se renderam diante do governo Lula? Nunca existiu, portanto, nem para Marx, nem para Lênin, nem para Rosa, Trotsky ou Gramsci, um décimo primeiro mandamento que prescreve lealdade incondicional a uma Central sindical.

Por outro lado, se o critério forem as condições para derrotar a burocracia sindical, elas ficaram mais difíceis, depois da chegada de Lula ao Planalto, não mais fáceis. Não parece muito misterioso compreender porque é assim. Há muito que o Estado brasileiro vem exercendo pressão no sentido de integrar a CUT – as outras Centrais foram sempre, descaradamente, financiadas pelo Estado – ao regime democrático-liberal como uma das “parceiras da sociedade civil”, um papel de cumplicidade com a governabilidade do regime ao qual sua direção não ofereceu resistência. O aparelho da CUT foi ficando promiscuamente “estatizado”, porém, inexpugnável. Mas, agora, o governo está interessado em preservá-la a qualquer preço, consciente do seu desgaste, e o fará, como em outros países, reforçando o acesso da Central ao mercado financeiro, via fundos de pensão, por exemplo. Ex-dirigentes da CUT ocupam cargos em praticamente todas as agências de regulação, em muitos casos, presidindo-as – um deles é ministro do trabalho -sem falar na sua máquina eleitoral, para transformar ex-presidentes em deputados. Vale lembrar ainda as representações remuneradas em conselhos de empresas estatais, a participação da CUT em tudo quanto é tipo de “Conselho”, sem esquecer a “mãe” de todas as dependências estruturais do dinheiro do Estado, o generoso FAT (Fundo de Amparo ao Trabalhador).

Não fosse isso o bastante, não se deve subestimar que os estatutos da Central foram mudados – e continuarão sendo corrigidos, quando necessário – de tal maneira, que será impossível, praticamente, constituir uma oposição classista que possa ser maioria. O destino da esquerda cutista que insiste em defender a CUT, por teimosia, mesmo sendo oposição ao Governo Lula, será o de ser uma eterna minoria, que oferecerá, mesmo que involuntariamente, uma aparência de legitimidade democrática às instâncias que a Articulação precisa preservar.

Os que encaram com reservas o desafio de ir além da CUT, se perguntam, com razão, se já existem condições de construir um novo instrumento de luta. Entre todas, esta parece ser a questão decisiva. A ruptura com a CUT está sendo vivida por amplos setores de massas, mas a construção de um novo pólo ainda é de vanguarda.

Identifiquemos o desafio: o combate pela mobilização dos trabalhadores, exterior à CUT, pode se desenvolver em melhores condições? A esquerda classista terá mais eficácia, por dentro da CUT ou por fora, em seu esforço de resistência à ofensiva do Governo pela Reforma sindical, e à trabalhista que virá, possivelmente, na seqüência? Ocorre que essa pergunta não pode ser respondida, sem imensas margens de erro, porque depende da flutuação das relações sociais e políticas de forças.

Elas não são estáticas, se transformam, permanentemente, e o peso que a esquerda classista já possui, de conjunto, é um fator objetivo. Essas relações de forças serão alteradas, portanto, dependendo da dinâmica maior ou menor do próprio processo de ruptura – considerando-se a dimensão, impacto, iniciativa – e, sobretudo, da capacidade do novo pólo intersindical de abrir um caminho para a luta de massas. Um instrumento mais útil do que a CUT pode ser erguido, com até menos sindicatos dos que se uniram em 1983 para fundá-la, na condição de ser uma organização de frente única que ocupe um espaço na vaga de lutas que é necessário preparar.

A insistência de grande parte da esquerda cutista sugere que a ruptura das lideranças sindicais com a CUT será tão lenta quanto a ruptura da esquerda do PT com o governo Lula. Este giro, contudo, será decisivo para o movimento operário e sindical brasileiro, em uma proporção tão grande, senão superior.

Estratégias devem governar as táticas e não o contrário
Em uma perspectiva histórica, o esforço das classes populares pela construção de suas lutas esteve inscrito em duas estratégias alternativas: a estratégia de reformar a ordem existente ou a estratégia da conquista do poder. A primeira nunca foi mais que uma estratégia de pressão sobre as classes dominantes para conseguir algumas reivindicações, e ficou imortalizada na fórmula ambígua da “acumulação de forças”, cujos direitos autorais podem ser atribuídos à socialdemocracia alemã de cem atrás. Estas pressões poderiam ser bem sucedidas tanto com a presença do partido operário na oposição, como em governos de colaboração de classes. Ocorre que o reformismo contemporâneo – em função da época histórica da crise do capitalismo – é um reformismo de contra-reformas. Quando chegaram ao poder, nem Walesa na Polônia, nem Mandela na África do Sul, nem agora Lula, realizaram concessões. As reivindicações mais elementares, como planos de emergência contra o desemprego, elevação dos salários mínimos, ou defesa dos serviços públicos universais de educação e saúde, não foram atendidas. O balanço das políticas sociais compensatórias, como o Fome Zero, não resiste, pelo menos entre socialistas, cinco minutos de pé.

A segunda estratégia, a revolucionária, consistia em procurar, em cada situação, mesmo as mais adversas, as vias para alterar a relação de forças sociais e políticas a favor dos trabalhadores – abreviando o caminho para a revolução – teve duas dimensões, que foram indivisíveis. A primeira é a da disputa de projetos – a luta de idéias – para tentar afirmar os interesses dos trabalhadores, conquistando hegemonia, e atraindo a maioria do povo para a necessidade da luta pelo poder. Esse é o sentido da máxima leninista: “fora do poder, tudo é ilusão”. Se a classe trabalhadora não desenvolver “instinto de poder” – a percepção de que é a força social mais poderosa, e deve governar – não há projeto socialista.

A outra é a luta pela construção de uma expressão e representação sindical ou política independente, as superestruturas “institucionais” próprias – as lideranças organizadas em coletivos – ou o material humano que será porta-voz e organizador de seu combate. Contribuir na formação dessas lideranças autênticas da luta pela libertação proletária é a vocação de todas as organizações marxistas sérias. Nessa perspectiva, para os marxistas, todas as organizações de massas são transitórias – são um instrumento ao serviço da aprendizagem dos limites da estratégia reformista – e merecem ser defendidas, tão somente, enquanto forem úteis para lutar. O fetiche de qualquer forma organizativa é uma arbitrariedade dogmática, uma perspectiva esquemática, portanto, despolitizadora, exterior à dinâmica concreta da luta de classes.

Já se disse que uma das premissas do marxismo é que o proletariado sendo “egoísta”, isto é, indo até ao fim na defesa dos seus interesses de classe, estaria defendendo a universalidade dos interesses da maioria do povo, de cuja sorte depende a vitória de uma saída anticapitalista para a crise. Também já sabemos que o proletariado é social, cultural, e até geracionalmente heterogêneo, e que a construção da unidade para lutar contra inimigos comuns depende de um processo de aprendizagem e, mais importante, conquista de confiança em si próprio que não é simples. Não deveria, portanto, ser uma surpresa muito grande se a experiência com organizações como a CUT vier a ter ritmos desiguais, assim como a experiência com o velho peleguismo nos idos dos anos oitenta. A questão, a saber, é se a esquerda classista estará impulsionando ou bloqueando a ruptura.

Os líderes que se afirmaram por fora das lutas, ou desviando as lutas, tiveram sempre uma existência artificial, porém, não necessariamente breve ou inofensiva, porque eram fomentados pelos inimigos sociais do proletariado. Que a CUT seja hoje uma estufa de formação de chefes burocráticos corruptos, não faz dela um pólo de atração dos jovens ativistas e não surpreende que desperte repulsa.

Foi negligenciado, também, freqüentemente, o tema das relações da classe trabalhadora com a sua vanguarda, ou seja, aqueles elementos mais ativos ou mais determinados que nascem em cada combate mais sério, espontaneamente, e se colocam na primeira linha da defesa dos interesses da maioria. Todas as classes exploradas e oprimidas (ou frações de classe) geram nas lutas sociais um setor mais avançado – mais disposto ao sacrifício – que surge como liderança conquistando uma autoridade político-moral pela sua capacidade de traduzir em idéias ou em ações, as aspirações da massa. Nesse material humano se selecionaram, ao longo da História, as lideranças das classes populares.

Já a burguesia, como as outras classes proprietárias da história, descobriu outros caminhos para resolver o problema da formação dos seus quadros dirigentes. Quando não os encontram em suas fileiras – pela tradição de comando ou pela seleção de talentos – vão buscá-los na “inteligência disponível”, e remunerá-los bem.
O proletariado e as classes populares não podem depender desse recurso. Embora a força de atração de uma classe explorada se expresse, também, colateralmente, na capacidade de atrair para a sua causa os quadros mais sensíveis e abnegados que rompem, ideologicamente, com sua classe de origem. Os trabalhadores têm que formar as suas lideranças, arduamente, nas lutas. Em condições de normalidade política, ou seja, de defensiva, os sujeitos sociais subalternos não geram uma vanguarda ativista muito ampla. Se a maioria dessa vanguarda não encontra um ponto de apoio, se desmoralizará. Esperar que a CUT possa vir a ser este ponto de apoio, como nos anos oitenta, é um delírio. Acreditar que por dentro da CUT se pode afirmar esse pólo com visibilidade é uma ilusão.

Classe, vanguarda e direção
A vanguarda das lutas, as lideranças enraizadas nas fábricas, escolas, empresas, bairros ou faculdades, só se formam nos processos de mobilização, e podem ou não, avançar até à organização sindical e política permanente. Freqüentemente, uma maioria desta vanguarda retrocede ao final da luta, em maior medida ainda, se esta for derrotada. A vanguarda é um fenômeno, no sentido de que é um fator subjetivo da realidade em movimento, e pode tanto se organizar em uma super-estrutura já existente, quanto pode voltar a se integrar na massa, e abandonar a luta ativa ao final do combate. Muitos “entregam os pontos”, como sabemos, porque se dão conta do perigo das represálias. No entanto, na medida em que o impulso da luta for maior e mais consistente, a vanguarda se sentirá estimulada a aprender as lições das lutas anteriores. Procurará, então, se educar politicamente, e fará mais relações entre os fins e os meios, isto é, entre estratégia e tática, escolhendo a adesão a um partido e ou sindicato, como via para a sua própria construção como liderança permanente.

Entretanto, nesse processo, a vanguarda vive um conflito que pode se resolver, esquematicamente, de três maneiras. O conflito é a luta, em um certo sentido, contra si mesma, para elevar-se acima das angústias e impressionismos das massas que hesitam, vacilam e retrocedem durante uma luta, para depois voltar a avançar, e depois voltar a retroceder. Não é incomum que a vanguarda se exaspere diante destas fraquezas das massas – uma compreensível insegurança de quem vive do trabalho e depende somente da solidariedade – e desenvolva um sentimento de frustração e decepção em relação aos seus representados. Esse sentimento conduz, grosso modo, a três atitudes diferentes: uma parte da vanguarda fica tão desmoralizada com as limitações das massas em luta, que abandona o combate e desiste de tudo, guardando um ressentimento tão grande contra sua própria base social, quanto o ódio de classe; outra parte da vanguarda, amargurada com o recuo das massas, se separa destas, e se inclina por ações isoladas e exemplares, para decidir sozinha a sorte do combate; uma terceira camada escolhe o caminho de avançar junto com a massa e recuar, também, junto com ela, para ajudá-la a aprender as lições da luta, e garantir melhores condições de organização nos combates que se colocarão no futuro.
Se esta vanguarda encontra, durante a luta, um ponto de apoio para a sua formação como liderança de massas, uma boa parte dela pode se preservar organizar permanentemente – se educar, sem precisar recomeçar tudo do princípio – e se construir como direção para na luta seguinte combater em melhores condições. Mas, se não encontrar uma referência, a maior parte das lideranças “naturais” se perderão, e será necessário um novo ciclo de lutas para que se possa formar uma nova geração de ativistas. A CUT foi essa referência nos anos oitenta, mas hoje não é mais. A questão decisiva é considerar, portanto, se o melhor do movimento sindical brasileiro não está atrasado na construção de uma nova referência. Este processo de seleção “selvagem” de lideranças, em que uma incrível quantidade de energias se desperdiça, tem sido uma das maiores dificuldades da construção de uma subjetividade do proletariado na última década.

Também se poderia dizer que a construção de um novo instrumento de luta, da qual a Conlutas pretende ser um embrião, elevaria de tal maneira a violência da disputa interna ao movimento sindical – já muito crispada – que afastaria os ativistas inexperientes, sendo contraproducente. Sendo várias as tendências sindicais competindo, umas contra as outras, para conquistar maior influência, é previsível que a vanguarda, em um primeiro momento, se enerve contra todas elas, simplesmente por lhe ser difícil compreender quais são as diferenças que as separam, sejam elas moderadas ou radicais. Mas, os militantes sindicais aprendem, rapidamente, a distinguir quais são as reais opções em confronto, e nada pode substituir a prática democrática da apresentação das diferentes posições. Não há um atalho indolor.
Por suposto que a unidade sindical na esfera das Centrais, e com muito mais razão na dos sindicatos, é uma arma que favorece as condições de mobilização das amplas massas dos trabalhadores, mas seria uma conclusão apriorística esquemática, se hierarquizada como um princípio, acima das necessidades concretas da luta. A defesa inflexível da unicidade sindical foi, freqüentemente, o esconderijo de inúmeras burocracias sindicais, em especial daquelas que usam os métodos do monolitismo para se manterem eternizadas à frente de seus aparelhos, para camuflar o seu imobilismo. Todos juntos, mas paralisados em reunião permanente, ou como alertava Rosa Luxemburgo: “Estamos de punhos fechados, mas com as mãos nos bolsos”. Os que inspirados na tradição socialista condenam a proposta de ruptura com a CUT, esgrimem vários argumentos, que consideramos neste artigo, sendo o mais ácido a crítica ao que seria uma aventura sectária, uma ficção ou tendência ao gueto. Mas o desafio pode ser colocado em termos inversos: qual foi o destino dos sindicalistas do PCB e do PCdB que, em 1983, insistiram em ficar ao lado de Joaquinzão, e recusaram unir-se à CUT em formação? Quem se aproximou das massas? Os que ficaram associados à velha pelegada, que ainda controlava a maioria dos sindicatos, ou os que se uniram à CUT? Qual é hoje a opinião da vanguarda jovem em relação aos dirigentes da CUT?

Esta linha de raciocínio é, todavia, somente uma forma mais elegante de diminuir o significado da Conlutas, acusando-a, injustamente, de ser uma colateral do PSTU. Estamos diante de um prognóstico terrível, quase uma maldição lançada ao futuro. Se vier a ser assim, a iniciativa de reorganização que o Conlutas representa teria fracassado. Quem conhece o abecedário do movimento sindical sabe que a Conlutas, mesmo minoritária, já nasceu muito mais ampla do que é hoje a influência dos sindicalistas do PSTU, contando com líderes sindicais não filiados a qualquer partido, ou vinculados ao Psol, ao PT, e a outros.

A acusação da partidarização não é, todavia, nem inocente, nem irrelevante. Poderá ter efeitos devastadores, considerando-se o desgaste que a forma partido tem hoje no Brasil – muito em função da repulsa pelo que foi o acomodamento dos chefes do PT ao que de mais podre ocorre na política eleitoral burguesa – e tem péssimos precedentes. Não foi outra a acusação do governo Sarney e de seus aliados contra a CUT nos anos oitenta. Se a influência dos militantes sindicais do PSTU é grande na Conlutas, o que não pode ser ignorado, isso independe de sua vontade. A vocação da nova intersindical ou central que deverá ser erguida é a de um espaço de frente única o mais amplo possível.

Poderia ser argumentado que a relação da vanguarda “emergente” com as organizações sindicais pré-existentes, como a CUT, que expressam a tradição anterior de organização das classes populares, recomendaria prudência, porque a nova geração procurará, necessariamente, o que existe há mais tempo como referência, condenando uma nova Central a uma posição minoritária. Seria tolice ignorar que existem riscos. A própria CUT foi minoritária por algum tempo, nos anos oitenta, o que não diminuiu o acerto que foi a sua fundação contra os pelegos em 1983.

Há situações extraordinárias, contudo, em que a nova vanguarda não se sente identificada ou representada pela direção majoritária pré-existente. Diante de grandes acontecimentos, excepcionais, muito raros, e somente nesses contextos, pode ocorrer uma mudança qualitativa da representação política dos trabalhadores. O fiasco colossal do Governo Lula é um desses momentos. Nessas circunstâncias, abre-se um período de disputa aberta pela direção da classe, de “rebelião de base”, de reorganização sindical e política. Um período assim, só é possível depois de esgotada uma experiência histórica e exige, muito além de argumentos ou, com mais razão, da repetição de velhos argumentos copiados, a força inapelável de grandes eventos. No Brasil assistimos a um processo deste tipo, entre 1978 e 1984, quando a velha direção do PCB, e dos líderes educados sob sua influência, foi substituída, em grande medida, pelo que veio a ser o PT e a CUT. Com a eleição de Lula e as terríveis decepções que torturam a geração que viveu os anos oitenta, abriu-se uma nova etapa ou ciclo na história do movimento operário brasileiro. Esse processo não poderia ocorrer de forma indolor, e sem uma enorme confusão, com diferenças de ritmos e experiências, mas é inexorável. Aquilo que ficou velho e degenerado, o PT e a CUT, precisam sucumbir e o novo precisa se afirmar.

A esquerda cutista diante de uma encruzilhada decisiva

Um outro aspecto político-cultural merece nossa atenção. As relações entre sujeitos políticos e sociais não pode ser harmoniosa, já que todas as classes são socialmente heterogêneas e a disputa pela direção é um processo exasperado. O movimento operário dos últimos cento e cinqüenta anos à escala internacional, esteve dividido, grosso modo, em três grandes correntes históricas: a reformista, a centrista e a revolucionária.

Em situações defensivas, os reformistas foram sempre esmagadora maioria, e os centristas permaneceram na sua órbita de atração, enquanto os revolucionários eram minoria. Só em situações revolucionárias, as idéias anti-capitalistas podem conquistar maioria. Ocorre que esse processo depende, e muito, da capacidade das forças revolucionárias vencerem obstáculos que estão inscritos, por ironia da vida, na sua própria história. Expliquemo-nos: já foi dito que a maior maldição dos revolucionários é a de passar décadas à espera de uma situação revolucionária, e não a reconhecer, quando ela começa a se desenhar em frente dos seus olhos. Parece incompreensível, no entanto, é freqüentemente assim.

A experiência histórica sugere que acontece uma inversão no descompasso relativo das relações políticas das massas trabalhadoras e suas organizações, quando se abre uma situação revolucionária. Em situações reacionárias, em que as pressões sociais hostis são imensas, as direções dos partidos marxistas-revolucionários estão, tendencialmente, à “esquerda” das suas bases, e estes militantes estão à “esquerda” da vanguarda, e a vanguarda está, por sua vez, à “esquerda” das massas.

Sabemos como este processo de deslocamento pode conduzir, involuntariamente, a um “exílio social” dos revolucionários em relação à massa dos trabalhadores, que favorece pressões doutrinárias e, marginalmente, até “patologias” sectárias. Os “nomadismos” intelectuais e as “diásporas” políticas são uma das conseqüências das inevitáveis rupturas que se precipitam em série.

Estas relações políticas entre representantes e representados se invertem, porém, quando as relações de força começam a mudar a favor dos trabalhadores e do povo. As massas giram abruta e velozmente à “esquerda” e ultrapassam a sua vanguarda, e superam até as organizações revolucionárias que, pela pressão das forças de inércia política, reagem sempre atrasadas, tendencialmente, à evolução acelerada das relações de força. Se este processo se confirmou como um padrão em todas as revoluções urbanas, e atingiu seriamente até o bolchevismo, seria ingênuo imaginar que não voltaria a se repetir no futuro. Não estamos ainda em uma situação revolucionária no Brasil, mas não é difícil reconhecer, relembrando o que foi a segunda metade dos anos noventa, e olhando à nossa volta na América do Sul, que a realidade mudou, e a relação de forças ficou mais favorável.

Ocorre que a inércia política, os acomodamentos mentais, e um certo conservadorismo tático – além das pressões sociais hostis, que anos de baixa atividade sindical das massas não puderam contra-balançar – são uma das piores heranças dos anos de refluxo. Historicamente, não existe nada como as grandes lutas para que os líderes sintam a vigilância de suas bases. Não nos deveria surpreender, portanto, se muitas das forças mais combativas do movimento sindical e popular brasileiro ainda hesitam, quando se trata de romper com as velhas organizações, como a CUT e o PT. Mas, quantos milhares de ativistas de base honestos não estão já se perguntando se não chegou a hora de romper com a CUT e o PT? Se os melhores militantes nas fábricas, nos acampamentos, nas empresas e escolas, já estão se fazendo a pergunta, então, a hora dos seus chefes de dar um passo em frente já passou, e estão atrasados. Se não o fazem, é porque sofrem a pressão do seu próprio passado. Um passado que os aprisiona.