Enquanto fechávamos esta edição, Bolsonaro intensificava sua convocação para os atos golpistas no 7 de setembro. “Nunca outra oportunidade para o povo brasileiro foi tão importante ou será tão importante quanto esse nosso próximo 7 de setembro”, declarou.

Bolsonaro não tem condições de dar, e muito menos consolidar, um golpe no curto prazo. Mas, diante seu enfraquecimento, prepara e ameaça uma tentativa de golpe, buscando apoiar-se num setor minoritário de ultradireita, parte dele armado.

É a resposta do governo à crise cada vez mais profunda em que se encontra. O barco do governo começa a fazer água por muitos lados: sua política genocida de “imunização de rebanho” deixa um rastro de quase 580 mil mortes, em números subnotificados; a crise social e econômica é grave e avança, com a volta da fome e cenas como as de famílias inteiras disputando retalhos de ossos e comida nos lixos; a inflação dispara, principalmente sobre os produtos mais básicos, como os alimentos, e, agora, ganha força nos preços que estão diretamente sob a responsabilidade do governo, como o gás de cozinha, a gasolina e a energia elétrica.

Tudo isso em meio a índices recordes de desemprego, arrocho nos salários, informalidade e precarização crescentes.

É isso que está na base do processo de queda constante de sua popularidade, com a reprovação atingindo inéditos 54%, segundo pesquisa divulgada pela XP/Ipesp. E o apoio caindo para 23%. Desgaste que se reflete nas pesquisas eleitorais, nas quais Bolsonaro perde, em 2022, para todos os principais pré-candidatos.

A perspectiva de perder o poder e, mais que isso, de ir para a cadeia, num futuro cada vez mais próximo, o faz agitar sua base de ultradireita, reforçando o assédio sobre a base das Polícias Militares, a fim de arrebanhar e organizar milícias ao seu favor e para seu projeto de ditadura.

Impasse e divisão entre os “de cima”

Com o aumento da crise, vai se reforçando entre o setor financeiro e a burguesia a ideia de que o governo Bolsonaro é fonte permanente de instabilidade política no país e, portanto, ruim para os negócios e para a continuidade da aprovação de reformas contra os trabalhadores.

As recentes declarações de setores do agronegócio (principalmente de exportação), da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo, a Fiesp, e de banqueiros expressam esse fracionamento. O malfadado manifesto “em defesa das instituições e da democracia”, costurado entre a Fiesp e a Federação Brasileira dos Bancos (Febraban), por outro lado, mostra o impasse colocado entre os “de cima”.

Ao mesmo tempo em que vai perdendo a paciência com as aventuras golpistas de Bolsonaro, a Faria Lima (o centro nervoso da burguesia paulista) e a Fiesp compartilham da política econômica original de Guedes e Cia., incluindo a boiada com a qual o governo e o Congresso Nacional querem nos atropelar, como a nova Reforma Trabalhista, a Reforma Administrativa e o Marco Temporal, contra as populações indígenas.

A Faria Lima, a Fiesp e a Febraban, assim como os governadores (incluindo os da dita oposição) são favoráveis a passar a boiada quando se trata de arrancar direitos dos trabalhadores e promover privatizações. Ocorre que Bolsonaro começa a ser disfuncional também para a burguesia, porque suas crises políticas recorrentes e o crescimento anêmico da economia estão diminuindo o bolo no geral, e a disputa interburguesa também está se acirrando.

Derrotar o plano golpista de Bolsonaro na luta

Não existem, por enquanto, as condições para que Bolsonaro dê um golpe. A crescente divisão da burguesia mostra isso. No entanto, as ameaças golpistas que se acirram na medida em que o governo vai ficando cada vez mais acuado, não podem ser menosprezadas. O genocida ainda conta com uma base relativamente grande e, também, com o apoio de setores das PMs, das Forças Armadas e das milícias

É preciso derrotar Bolsonaro e Mourão nas ruas, juntamente com sua política genocida, de fome, entreguista e, também, seu projeto golpista de ditadura. Para isso, é preciso expressar nas ruas que a maioria do povo rechaça seu governo e suas intenções autoritárias.

Mas, para derrotar seu governo, é preciso que, primeiro, as manifestações continuem, o que só pode ocorrer se tiverem perspectiva de crescer e não de serem desmontadas pela maioria das centrais sindicais e das direções dos partidos majoritários que participam da Campanha Fora Bolsonaro, bem como é preciso que avancemos na preparação de uma Greve Geral, que atinja o bolso dos que o continuam apoiando.

À luta

Direções precisam parar de “puxar o freio” e colocar o “Fora Bolsonaro e Mourão” para já

Foto Roosevelt Cassio/SindmetalSJC

Da redação

A radicalização do discurso de Bolsonaro e a mobilização de uma base com apoio minoritário de massas, em torno de uma pauta golpista, assim como sua política de terra arrasada em relação aos empregos, aos direitos e à soberania, reafirmam a necessidade de se lutar pelo “Fora Bolsonaro e Mourão, já!” e não esperar por 2022. No entanto, não é assim que vêm atuando a oposição e as direções do PT, PCdoB, e a maioria da direção do PSOL, tanto no Congresso Nacional quanto fora dele.

Cumplicidade

No último dia 24, ocorreu mais uma demonstração da política da oposição parlamentar de não fustigar o governo Bolsonaro. Por 55 votos a 10, ou seja, com expressivos votos da oposição (que conta com pelo menos 15 senadores), foi aprovada a recondução do atual Procurador Geral da República (PGR), Augusto Aras, a um novo mandato de dois anos. A PGR é o órgão responsável por oferecer denúncias contra o presidente ao Supremo Tribunal Federal (STF). E Aras se notabilizou exatamente por estar sempre na vanguarda da defesa de Bolsonaro e sua política genocida.

O procurador aprovado pela oposição, incluindo o PT, deixou rolar o morticínio durante a pandemia, tampou os olhos à sucessão de crimes praticados por Bolsonaro, assim como para a corrupção que acontecia durante as tentativas de compras fraudadas de vacinas e, ainda, passa o pano para as ameaças de golpe. Não esconde que é cúmplice do atual governo e que não vai poupar esforços para mantê-lo lá, impune.

Costurando alianças com o que há de pior

Lula, por sua vez, faz uma maratona eleitoral pelo Nordeste, reunindo-se com nomes como o senador tucano Tasso Jereissati, Cid Gomes (PDT) e o ex-presidente do Senado, Eunício Oliveira (MDB). Encontrou-se, ainda, com José Sarney, no Maranhão, e com o deputado federal baiano Sargento Isidório (Avante), conhecido inimigo das LGBTIs, além de outras figuras do Centrão.

Ao invés de chamar os trabalhadores e o povo às ruas, enquanto Bolsonaro atiça a extrema-direita, Lula costura uma aliança eleitoral com a burguesia e o que há de pior no Congresso. Seu plano é firmar uma ampla aliança nos estados, que ampare uma Frente Nacional com a burguesia e a direita.

Enquanto isso, a maioria do PSOL segue para juntar-se à frente eleitoral com Lula e seus aliados no primeiro turno, colocando-se a reboque de uma aliança construída na conciliação de classes com banqueiros, grandes empresários e setores do agronegócio.

“Puxando o freio” da luta e flertando com a burguesia

Essa movimentação eleitoral na superestrutura se reflete, no movimento, na desmobilização para os atos contra Bolsonaro por parte das direções majoritárias, indo na contramão do crescente desgaste do governo dentre os “de baixo”. Ao mesmo tempo, defendem, além de alianças com a direita, um programa nos marcos do capitalismo. Lula, por exemplo, postou um vídeo, em julho passado, contra a taxação das grandes fortunas, uma medida mínima, defendida até mesmo por alguns bilionários.

Desta forma, assim como pisam no freio das lutas, vão reeditando o mesmo programa capitalista e as mesmas alianças que fizeram com que Lula atacasse, em seu primeiro mandato, a aposentadoria dos servidores públicos, com a Reforma da Previdência. Ou que Dilma confiscasse o PIS-Pasep tão logo foi reeleita, impondo um estelionato eleitoral aos “de baixo”.

É preciso o contrário disso: chamar o fortalecimento das mobilizações para derrotar Bolsonaro e qualquer intento golpista, e defender os direitos e as condições de vida dos trabalhadores e do povo.

Saída

A hora do polo socialista e revolucionário

É necessário aumentar a mobilização para botar abaixo Bolsonaro e Mourão, já. Mas precisamos, ainda, avançar na discussão de um programa e de um projeto para o país, independente da burguesia. Um projeto da classe trabalhadora para o Brasil, para defendermos nas lutas e nas eleições.

Um projeto que represente uma alternativa socialista e revolucionária frente às diferentes alternativas que estão se apresentando, seja de unidade com a burguesia defendida pelo PT e por setores majoritários do PSOL, seja da direita “clássica”, como o PSDB e o DEM, que trabalham para habilitar uma candidatura de “terceira via”.

Um projeto que faça com que os ricos paguem pela crise, que proponha medidas que ataquem os lucros e as propriedades dos bilionários; que defenda o fim do pagamento da mal-chamada dívida pública; a estatização sob controle dos trabalhadores do sistema financeiro; a redução da jornada, sem redução dos salários, para combater o desemprego; a revogação da Reforma Trabalhista; a estatização da saúde e da educação privada; assim como o fim das privatizações, com a retomada de todas as empresas entregues, colocando-as sob controle operário.

Sabemos que essas mudanças não virão através das eleições, mas precisamos construir um polo para que possamos avançar na consciência e organização para que os trabalhadores e trabalhadoras venham a governar. O PSTU se coloca como parte desse esforço de não deixar nossa classe a reboque de alternativas burguesas e propor, de fato, uma alternativa que represente uma mudança para os trabalhadores, o povo pobre, as mulheres, as LGBTIs e os negros e negras.