Gabriela Hipólito, de Belém (PA)

Os apelos foram muitos. Mesmo antes da pandemia chegar às aldeias, os indígenas se organizaram como puderam e exigiram atuação dos órgãos oficiais. Porém, pouco foi feito. Todos sabiam que o isolamento seria difícil nas aldeias devido às condições sanitárias precárias e às muitas políticas públicas necessárias.

Hoje os números são alarmantes. Já são 44 nações indígenas afetadas, e os casos triplicam a cada cinco dias. Segundo o Comitê Nacional pela Vida e Memória Indígena, havia 103 mortos até o dia 18 de março, enquanto dados do governam somaram 23. O descaso e a postura criminosa são tão grandes, que as comunidades estão sendo obrigadas a saírem da aldeia para buscar o auxílio emergencial, arriscando contaminar os parentes.

A propagação assustadora poderia não só ser evitada, como também controlada. A primeira indígena a contrair vírus se infectou pelo médico da aldeia. Hoje é a etnia mais devastada pela pandemia, os Kokama. Sem políticas específicas, o vírus pôde seguir alastrando-se.

Invasão

Um caso absurdo de invasão e desrespeito aos territórios e vidas, no final de março, é emblemático para ilustrar a situação. Um servidor da Funai e pastor realizou um culto com 400 pessoas de dentro e de fora da terra indígena. Essa região do Amazonas, no Alto Solimões, tem hoje 160 casos confirmados e 22 indígenas mortos.

Se confirmada a previsão que Bolsonaro faz, na qual 70% da população será contaminada, seriam 28 mil indígenas mortos pela COVID-19 com a atual taxa de mortalidade que está em 25%. É o reflexo direto da falta de ação do governo. Mais do que nunca, contaminar para exterminar ainda é a máxima colonial no Brasil.

O que deve ser feito?

As medidas de saúde pública são urgentes. Várias são as diretrizes de combate à pandemia já traçadas pelos indígenas. Em primeiro lugar, a necessidade é de estrutura médico-hospitalar. Em carta, os Guarani e Kaiowá, que já somam mais de uma dezena de infectados, denunciam a falta de estrutura e os poucos leitos do Distrito Sanitário Especial Indígena (DSEI) ao qual estão vinculados 17,3 mil deles. Por isso, é fundamental que a estrutura do SUS esteja a serviço das comunidades, com leitos de UTI, estrutura médica total, condições de isolamento para os infectados e direito ao sepultamento digno (há pelo menos um caso de liderança indígena enterrada em vala comum em Manaus). Essas são exigências feitas aos governos federal e estadual.

Nenhum plano de combate à pandemia pode ignorar as necessidades específicas dos indígenas.

UMA LUTA CONTRA O CAPITALISMO
Solidariedade, apoio e o futuro da questão indígena

O combate à pandemia foi divulgado nas mídias indígenas e também por meio de artistas e intelectuais no mundo. Apesar de não ser a maior população originária no planeta (há países com mais de 10 milhões de indígenas, como o México), há uma grande visibilidade por aqui. Isso porque, no Brasil, há mais de 500 anos, o grande capital avança sobre a Amazônia, convertendo os territórios ancestralmente ocupados pelos povos originários em propriedade privada.

Se é verdade que de ponta a ponta do continente os indígenas lutam de forma heroica contra a mineração, a invasão de suas terras, a sua conversão em latifúndios e a poluição de suas águas, nenhuma dessas lutas ganhou a projeção que tem hoje a destruição da Floresta Amazônica e de seus habitantes.

Defender a Amazônia e seus povos é lutar para que ela não seja mais objeto de destruição e espoliação permanentes pelo agronegócio e pela mineração. É defender o direito à autodeterminação indígena. O fim dos roubos, saques e mortes da floresta e de seus povos tem uma relação direta com a luta pelo fim do sistema capitalista.