COLÔMBIA | Confrontos com a repressão em Bogotá, em 4 de maio

As manifestações iniciadas no dia 28 de abril, com a convocação de uma Paralisação Nacional, continuam sacudindo o país que faz fronteira com a região Norte do Brasil. Já são 11 dias consecutivos de intensas mobilizações, paralisações, greves, passeatas e protestos, que já provocaram a retirada, em 2 de maio, do projeto de Reforma Tributária, através do qual o presidente Iván Duque pretendia transferir os custos da crise para cima dos trabalhadores; e a queda, no dia seguinte, do ministro da Economia Alberto Carrasquilla.

Lamentavelmente, contudo, esses dias foram também marcados por violentíssima repressão a mando do presidente Duque. O número de mortos, feridos, desaparecidos e vítimas de graves violações de direitos humanos (particularmente estupros) é incerto. Mas, fala-se em dezenas de mortos e centenas de feridos e desaparecidos (vide abaixo).

Mas, nada disto conseguiu conter a ânimo do povo colombiano, tanto nas cidades e no campo, quanto nas comunidades indígenas e de descendentes africanos. Pelo contrário. O crescente ódio ao presidente colocou o “Fora Duque” nas ruas.

COLÔMBIA | Confrontos com a repressão em Bogotá, em 4 de maio

Enquanto isto, órgãos internacionais – como a Organização dos Estados Americanos (OEA), a União Européia e a Organização das Nações Unidas (ONU) – e governos de países latino-americanos ou imperialistas estão repetindo a ladainha de sempre, declarando “preocupação” com os informes sobre a brutal repressão e pedindo uma “solução” para os conflitos. Posturas formais e hipócritas, adotadas em função da preocupação com os lucros e negócios abalados no país, não com o povo.

Por isso mesmo, é cada vez mais importante que os trabalhadores, a juventude e o povo colombianos recebam a solidariedade de seus irmãos e irmãs de classe e verdadeiros aliados na luta contra a opressão e a exploração, como tem acontecido em várias partes do mundo. Aqui no Brasil, em 6 de maio, tivemos atos em São Paulo – leia o artigo Ato em São Paulo se solidariza à luta do povo colombiano” e em Vitória (ES). No dia 7, também ocorreram manifestações na frente das embaixadas e consulados da Colômbia em diversos países.

COLÔMBIA | Manifestação Bogotá 5 de maio
COLÔMBIA | Manifestação em Bogotá 5 de maio

Paralisação e protestos se intensificam, mas repressão também

Em artigo publicado no site da Liga Internacional dos Trabalhadores (LIT-QI), em 5 de maio (A paralisação continua: Abaixo Duque e seu Plano, que os ricos paguem pela crise), o Partido Socialista dos Trabalhadores (PST), organização-irmã do PSTU, na Colômbia, destacava que as mobilizações já tinham se alastrado por centenas de municípios do país, atingindo camponeses e as comunidades afros e indígenas.

Além dos protestos de ruas, muitas estradas e avenidas centrais de algumas das principais cidades – como Bogotá, Cali e Medellín – foram bloqueadas por caminhoneiros, paralisando setores inteiros da economia. Também são inúmeros os relatos de postos policiais e prédios representativos das instituições de poder que têm sido pichados e atacados ou, ainda, de símbolos da opressão, do passado colonial e da exploração capitalista, que têm sido derrubados, como a estátua do espanhol Gonzalo Jiménez de Quesada, fundador de Bogotá, derrubada, no dia 8 de maio, por indígenas da etnia Misak. Mesmo destino do monumento em homenagem ao fundador de Cali, Sebastián de Belalcázar, no dia 28 de abril.

COLÔMBIA | 7 de maio, manifestação de povos indígenas

Ao mesmo tempo, a juventude, que já compunha um setor expressivo das manifestações desde o dia 28, aumentou ainda mais sua presença na medida em que professores e profissionais da Educação engrossaram os protestos, reivindicando, também, a retirada de um plano dos governos nacional e locais que está promovendo o retorno “progressivo e gradual” das aulas presenciais. Projetos tão criminosos quanto os do Brasil, já que, para atender os interesses dos setores privado, expõem a população ainda mais à pandemia.

Durante a semana, as mulheres também intensificaram sua já marcante presença nos atos, principalmente depois de que se intensificaram as notícias e imagens de agressões machistas e violência sexual por parte das forças de repressão.

Como relatado no artigo “Parar a repressão e a violência sexual como arma contra a paralisação”, publicado pela Comissão de Mulheres do PST, vídeos têm comprovado que há “uma política sistemática de instrução e tortura contra as jovens manifestantes e contra as mulheres em geral”, particularmente pelos membros do famigerado Esquadrão Móvel Antidistúrbios (ESMAD), sendo que já foram registrados pelo menos 12 casos de estupros (até o dia 8 de maio, um deles cometido contra uma jovem que, por coincidência, é filha de um policial), além de inúmeras ameaças e agressões.

Como mencionado, é difícil precisar os números relativos à repressão. Os dados oficiais, evidentemente, são os menos confiáveis. Segundo a Defensoria Pública, no dia 8 de maio, havia o registro de 27 pessoas mortas e  359 desaparecidas. Os movimentos sociais colombianos, contudo, têm trabalhado com os dados de organizações não-governamentais (ONGs), como a Indepaz e a Temblores, que trabalham em parceria com uma rede de organizações sociais, de bairro, estudantis, ambientais, de mulheres, de comunicação e de direitos humanos.

No último boletim expedido pela ONGs, com dados entre 28 de abril e às 6 horas da manhã do dia 8 de maio, os dados são os seguintes: 47 mortos (dentre os quais, 39 comprovadamente pelas forças policiais), 963 presos, 12 casos de violência sexual, 548 desaparecidos, 28 pessoas feridas nos olhos, 278 casos de agressão policial e pelos menos 1.876 de violência policial (como brutalidade, espancamentos e agressões nos protestos).

O que se pode afirmar, com certeza, é que a repressão assumiu contornos de um massacre, o que só tem contribuído para aumentar a fúria da população que, corretamente, também já aponta Duque como responsável pelas mortes por Covid-19 que estão numa curva ascendente: em 14 de março, foram registradas 97 mortes; em 4 de maio, 463, elevando o número de óbitos para cerca de 77 mil (com quase 3 milhões de infectados), em um país que tem 50 milhões de habitantes.

Por isso mesmo, uma das palavras de ordem mais repetidas nas ruas é “¡Sí, señor! Cómo no? El gobierno los mató!” (“Sim senhor! Como não? O governo os matou!”), em referência tanto às vítimas da pandemia quanto da repressão aos protestos.

Diante disto, e particularmente no que se refere à ação criminosa e assassina das forças policiais, o PST da Colômbia está defendendo uma série medidas, a começar pela auto-organização dos trabalhadores e demais setores sociais em comitês que também garantam a autodefesa (leia no artigo “Fora Duque, assassino: Nada justifica este massacre”).

Acuado, governo procura negociação, mas promete mais ataques

Neste mesmo artigo, a seção colombiana da LIT (QI) lembra que não tendo conseguido até o momento por fim ao movimento, o governo começa a procurar outros caminhos. “Não conseguiu com a repressão, não conseguiu com o engano e o temor, agora tenta conseguir consensos”, destaca a nota do Comitê Executivo do PST, publicada no dia 7 de maio.

Não que isto signifique que Duque esteja disposto a abandonar completamente a via do terror. Como é típico da burguesia, acena com uma mão; enquanto, na outra, mantém a espada em riste. Prova disto é que, desde meados da semana, o presidente Duque está ameaçando decretar “Estado de Comoção Interna” (algo similar ao nosso “Estado de Emergência”), o que ampliaria, de forma extraordinária, seu poder para reprimir o movimento, lhe concedendo “poderes especiais” (leia-se, ditatoriais) para “restaurar a ordem”, como a restrição ou proibição de manifestações públicas, a censura prévia à imprensa, a interceptação de comunicações e a suspensão e substituição de autoridades locais.

Contudo, de imediato, sua tática é tentar negociar e uma tentativa neste sentido foi o anúncio da convocação de uma reunião com o Comitê Nacional de Paralisação (CNP), para esta segunda, dia 10. O problema é que o CNP, hoje, está reduzido às entidades vinculadas à burocracia sindical do país e sequer representar o movimento que há 11 dias toma as ruas.

Em primeiro lugar, porque o Comitê já está bastante queimado diante dos setores em luta, principalmente por terem defendido, no dia 1º de maio, uma negociação com o governo, quando o movimento estava se radicalizando exatamente no sentido contrário. Além disso, O CNP simplesmente não representa a diversidade de lutas que se unificaram em torno da luta pelo “Fora Duque”, como discutido no artigo “O Comitê Nacional da Paralisação não deve participar dos “diálogos” de Duque: Encontro Nacional Emergencial Já!, publicado pelo PST, em 8 de maio.

“[O CNP não tem condições para ser] o porta-voz da juventude, dos setores populares, das mulheres, das comunidades afros e indígenas e da classe trabalhadora, em geral, que em todos os dias da Paralisação Nacional demonstraram uma firmeza e uma combatividade que as centrais sindicais tentam desmontar”, lembra o artigo do PST, destacando, inclusive, que foi este o mesmo papel que o CNP cumpriu no final de 2019, quando contribuíram de forma decisiva para estancar uma onda de lutas iniciada com uma Paralisação Nacional, no dia 21 de novembro.

Hoje, alguns setores em luta atribuem a não representatividade do CNP ao machismo, às diferenças geracionais e de métodos com o atual processo. Contudo, o problema é ainda mais profundo e decisivo, como também é sintetizado pelo PST: “a principal causa do comportamento desta burocracia são seus interesses de classe”. Privilégios, traduzidos em migalhas que satisfazem toda e qualquer burocracia sindical, em qualquer lugar do mundo, como o gerenciamento dos fundos das organizações sindicais ou o recebimento de salários extras que muitos dirigentes recebem para atuar nas Juntas Diretivas e Comitês Executivos das centrais ou federações.

E é exatamente nisto que o governo Iván Duque está apostando suas fichas. Não foi por acaso, por exemplo, que o CNP foi convocado a se reunir logo depois do governo ter feito uma série de encontros com os principais sindicatos patronais do país, os partidos de sua base e representantes de outros setores da burguesia. O que se espera é que o CNP cumpra seu papel como amortecedor das lutas.

Derrubar Duque e avançar na organização independente dos trabalhadores

Diante disto, o Partido Socialista dos Trabalhadores têm insistido na necessidade na unificação dos setores e criação de organismo que coordenem a luta e sua continuidade. Uma proposta que tem eco dentre de várias organizações e ativistas que estão conquistando uma consciência cada vez mais política no calor das lutas e, neste momento, se traduz na pressão para que seja convocado um “Encontro Nacional Emergencial”.

O CNP, evidentemente, está resistindo em convocar o Encontro. Contudo, há possibilidades concretas de que ele ocorra, respaldado em processos como a organização das populações indígenas da região de Cauca, que também têm atuado em Cali, a cidade que é um dos epicentros da rebelião, bem como em processos de organização e auto-organização registrados em todos os cantos do país.

Para os companheiros e companheiras do PST colombiano, a realização deste encontro é parte fundamental de um programa que permita aos trabalhadores(as), indígenas, negros(as), a juventude, mulheres, LGBTIs e todos demais setores oprimidos e explorados avancem num processo que não só ponha um fim ao massacre em curso, derrube Duque e paralise os projetos sociais e econômicos que atacam a todos, como também apontem para a construção de um governo operário e camponês.

Algo que, de imediato, significa a manutenção da Paralisação Nacional por tempo indeterminado e é sintetizado nos seguintes pontos o PST tem levado às assembleias, aos protestos e às atividades que estão acontecendo (leia, também, o artigo A Paralisação continua: Abaixo Duque e seu Plano, que os ricos paguem pela crise.

  • Abaixo Duque e seu Plano! Fora Duque e todos os corruptos assassinos!

  • Que os ricos paguem pela crise, não ao pagamento da Dívida Externa!

  • Abaixo o PL 010, que privatiza a saúde!

  • Vacinação massiva Já!

  • Diante do massacre policial e a militarização, julgamento e punição dos culpados, desmonte imediato do Esmad!

  • Para defender a mobilização, organizar a Guarda Operária e Popular!

  • Paralisação Nacional por tempo indeterminado, parar a produção!

  • Encontro Nacional de Emergência JÁ! Convocar já as assembleias populares!

  • Às ruas para lutar contra Duque e seu Plano! Por um Governo Operário e Popular!