(Ribeirão Preto - SP, 29/04/2019) Presidente da República, Jair Bolsonaro durante visita a estande da Agrishow 2019. Foto: Alan Santos/PR

Reportagem do Estadão publicada neste domingo, 9, traz detalhes de um esquema montado no governo Bolsonaro que seria responsável por uma espécie de “orçamento secreto” de R$ 3 bilhões para a compra de apoio parlamentar. Um verdadeiro “bolsolão”.

O desvio ocorreria através de “indicações” de políticos próximos sobre repasses realizados pelo Ministério do Desenvolvimento Regional, do ministro Rogério Marinho. Seria uma espécie de emenda informal que direcionaria dinheiro público do ministério a prefeituras, principalmente para a compra de equipamentos agrícolas superfaturados, inclusive tratores. Daí o escândalo também ser chamado de “tratoraço”.

Segundo o jornal, o esquema teria sido arranjado no bojo das negociações com o Congresso Nacional, principalmente em torno ao centrão, a fim de garantir sua base parlamentar. A reportagem se baseia em pelo menos 101 ofícios enviados por parlamentares ao ministério, indicando aonde as emendas deveriam ser aplicadas. Pela lei, uma decisão que deveria ser do próprio ministro.

Para repassar esses recursos foi até criada uma categoria especial de emenda, a fim de dificultar o controle dos repasses e passar por cima da LDO (Lei de Diretrizes Orçamentárias), chamada de “RP9”. De todas as emendas liberadas deste orçamento secreto a 285 parlamentares, os principais beneficiados teriam sido um núcleo seleto de 37 deputados e cinco senadores da base governista. Encabeçariam o esquema, além do ex-presidente do Senado, Davi Alcolumbre (DEM-AP), o atual presidente da Câmara, Arthur Lira (Progressistas-AL) e Vitor Hugo (PSL-GO), ex-líder do governo na Câmara.

Por essa negociata, só Alcolumbre teria faturado nada menos que R$ 277 milhões em emendas, sendo que normalmente cada parlamentar tem a direito a R$ 8 milhões ao ano. Outro caso emblemático é o do deputado Lúcio Mosquini (MDB-RO), que requisitou a liberação de R$ 359 mil num trator. A opção pela compra de tratores especialmente caros chama a atenção. Ainda Alcolumbre destinou R$ 500 mil num único trator, e ainda no Paraná, sendo que o estado do senador é o Amapá.

Compra de apoio parlamentar

O esquema, que pode ser ainda maior que o divulgado, aponta para um mecanismo de compra de votos ao estilo do “mensalão”. Compra de votos e apoio através de emendas ilegais e superfaturadas aos congressistas. Isso sem contar a liberação oficial de emendas, que somou o valor recorde de mais de R$ 17 bi no ano passado, em plena pandemia, e que em 2021 atingiram o valor pornográfico de R$ 48,8 bi. Emendas que custaram cortes na Saúde, Educação e até no desenvolvimento da vacina da USP anunciada pelo próprio governo Bolsonaro.

Leia também

Com mais de 400 mil mortes, política genocida de Bolsonaro e governadores prepara terceira onda

Genocida e ladrão

A nova denúncia reafirma o caráter corrupto e hipócrita de Bolsonaro e o seu entorno. A diferença é que agora não se trata de negociatas prévias ao mandato, como as “rachadinhas”, mas de um escândalo que têm ligação direta com o atual governo. Num momento em que já se contam mais de 422 mil mortes pela pandemia em números oficiais, e que Bolsonaro reclama que o país está “quebrado”, seu governo gasta bilhões para, através da corrupção, comprar o apoio de corruptos no Congresso Nacional.

O escândalo se torna ainda mais indignante porque é revelado logo após Bolsonaro elogiar a chacina realizada pela Polícia Civil na comunidade do Jacarezinho, e criticar os que denunciam a barbárie. “Ao tratar como vítimas traficantes que roubam, matam e destroem famílias, a mídia e a esquerda os iguala ao cidadão comum, honesto, que respeita as leis e o próximo“, afirmou em seu twitter. E sobre políticos que roubam e desviam dinheiro público para comprar deputados igualmente corruptos? Neste caso, muito provavelmente, Bolsonaro não acharia que “bandido bom é bandido morto”.

Leia também

Editorial: Só a classe trabalhadora pode apontar uma saída para a crise do país