PSTU Campinas (SP)

Conversamos com José Vitório Zago, professor aposentado da Unicamp, sobre a experiência dos governos do PT em Campinas. Zago iniciou sua militância na Convergência Socialista (1978-1994) e no PSTU desde sua fundação. Aos 75 anos, ele traz a bagagem das lutas sindicais da categoria, foi o primeiro presidente da Adunicamp, diretor do STU, da Fasubra e do Andes-SN, e nos conta como foram os enfrentamentos dos trabalhadores nos governos “ditos de esquerda” do PT na cidade e quais lições tirou desses processos.

Confira a entrevista!

Em 1988, o PT venceu às eleições em prefeituras de cidades importantes como Erundina em São Paulo e Jacob Bittar em Campinas. Havia uma grande expectativa de como seria esses governos. Jacob Bittar prometeu inclusive estatizar o transporte na cidade. Como foi a administração de Jacob Bittar? 

Zago: As eleições em 1988 eram em um só turno. Com o desgaste do governo Sarney, repressão com mortes na greve da CSN e o ataque do governo Quércia à manifestação do funcionalismo estadual em greve, o PT elegeu os prefeitos de São Paulo e Campinas dentre outras cidades. Erundina e Jacó reprimiram greves de condutores e prepararam a privatização dos transportes públicos. A administração de Jacó foi uma administração a serviço das construtoras e dos empresários do transporte. O seu vice Toninho rompeu com ele e o Jacó terminou o mandato no PDT!

Ao chegar nas Prefeituras, a maioria do PT dizia que iria “governar para todos”, fazendo pequenas reformas que democratizassem e tornasse o Estado capitalista mais “justo”, mais “solidário”. Como você avaliaria esse “modo petista de governar”?

Governar para todos numa sociedade de classes, com o Estado Burguês, suas leis e instituições que defendem a propriedade privada dos meios de produção significa governar para os patrões e não para os trabalhadores.

Em 2000 Toninho se elegeu prefeito de Campinas apoiado no movimento dos trabalhadores e com base no sentimento de mudança. Como foi a candidatura e o posicionamento do PSTU naquela eleição?

Em 2000 as eleições já eram em dois turnos.  Depois de gestões do PMDB e PSDB e com o desgaste do governo do FHC, o PT ganhou o primeiro turno. Neste turno, nós do PSTU estávamos em coligação com o PT. O nosso partido, fez críticas a insuficiência do programa, mas consolidamos um acordo eleitoral no 1º turno. Mas já deixávamos claro que nos recusaríamos a assumir cargos governamentais em caso de vitória. No segundo turno, visando apenas a vitória eleitoral, o PT negociou o apoio dos partidos burgueses. Foi assim que ganhou as eleições no 2º turno e depois os incorporou ao seu governo. Nós, então não os apoiamos devido a aliança com esses partidos burgueses.

Com a morte de Toninho, Izalene Tiene, também do PT, assume a prefeitura. Como você analisa o governo da Izalene?

Com a participação dos partidos burgueses e um programa de conciliação de classes, o governo foi muito ruim para os trabalhadores. Na campanha salarial dos servidores municipais os trabalhadores saíram em luta, e foram recebidos com repressão e zero de reajuste. Por isso inclusive, o seu governo ficou marcado por “Izalene é Zero”.

De lá pra cá, o PT foi base de apoio e compôs os dois governos do Dr. Hélio, o primeiro mandato com Gerson Bittencourt na Secretaria de Transportes, e no segundo com o vice da chapa Demétrio, que inclusive foi cassado pela Câmara Municipal. Além disso, no mandato de Jonas Donizette, Canário foi Secretário do Trabalho. O PT mudou a estratégia do “PT das origens” ou foi essa estratégia que levou o PT para o caminho dos partidos da ordem?

O PT das origens era classista, contudo nunca foi um partido socialista e revolucionário. Em 1982 na sua primeira eleição seu mote era Vote no 3 (o número do PT na época) que o resto é burguês. O que era muito progressivo na época. A Convergência Socialista (CS) elegeu um vereador com o slogan Nem patrões Nem generais. Haviam muitas tendências internas que eram socialistas e revolucionárias. Mas em poucos anos a estratégia democrática e popular, ou seja, reformista, já era majoritária. Vivi esse momento dentro do PT e quem tinha a estratégia da revolução socialista, como a CS, foram expurgadas.

O PSOL e PT se aliaram em várias cidades com a justificativa de derrotar a ultradireita. Na cidade, Pedro Tourinho do PT, encabeçará essa frente. Como você avalia essa estratégia? E porque o PSTU resolvemos apresentar sua própria candidatura e não fazer parte dessa coligação?

A derrota da ultradireita não se dará com coligações eleitorais, mas sim com a conformação de uma frente única operária. O PT nestas eleições está fazendo coligação com qualquer partido incluindo o DEM e o PSL, defendendo a conciliação de classes e a democracia burguesa. O PSOL, apesar de ter algumas tendências que se reivindicam socialistas e revolucionárias, tem a mesma estratégia e defendem o mesmo programa. Isso fica claro na disputa em São Paulo, com a defesa da “Revolução Solidária” e dos empresários “responsáveis”. O PSTU não faz parte desta coligação porque tem outra estratégia e outro programa: participamos das eleições para construir uma alternativa socialista e revolucionária.

Então, qual objetivo dos revolucionários nas eleições?

O PSTU participa das eleições para desmascarar o sistema capitalista, o regime democrático burguês e para defender o programa da revolução socialista, vinculando-o às necessidades mais prementes da classe trabalhadora e às suas lutas.

Por isso dizemos que o voto útil de todas e todos que defendem a necessidade de destruir o capitalismo é o voto nos nossos candidatos. Cada voto a mais fortalece um projeto socialista!