Foto: Pedro Guerreiro / Ag. Pará

A troca do general Eduardo Pazuello pelo médico cardiologista Marcelo Queiroga na condução do Ministério da Saúde não vai mudar a política genocida e negacionista do governo Bolsonaro. Apesar de médico, Queiroga já deixou evidente que vai seguir à risca o modus operandi do antecessor, em que “um manda, e o outro obedece”. Quem mandava e vai continuar mandando é Bolsonaro. E a escalada de mortes só vai aumentar enquanto isso acontecer.

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Marcelo Queiroga é o quarto ministro a ocupar a pasta da Saúde desde o início da pandemia. Luiz Henrique Mandetta, deputado do DEM e ligado aos planos de saúde privado (e defensor da privatização do SUS), foi fritado por Bolsonaro ao disputar o protagonismo e ofuscar o presidente. O sucessor, Nelson Teich, também médico e empresário, durou menos de um mês no cargo por se recusar a adotar a cloroquina como protocolo para o combate à pandemia, e arriscar manchar sua reputação e carreira.

Pazuello com o novo ministro da Saúde, Marcelo Queiroga. ABr

O então interino general Eduardo Pazuello assumiu no dia 3 de junho, dia em que o país contava com 1.349 mortes no total. No cargo, obedeceu cegamente a Bolsonaro. Quando anunciou, em outubro, a compra de 46 milhões de doses da Coronavac através do Butantan, foi desautorizado publicamente por Bolsonaro, e baixou a cabeça. “O presidente sou eu, não abro mão da minha autoridade, até porque estaria comprando uma vacina que ninguém está interessado por ela a não ser nós“, declarou Bolsonaro na época.

Pazuello foi o executor da política genocida de Bolsonaro. Sua trajetória foi marcada pela omissão na tragédia em Manaus em janeiro, quando ao menos 30 pessoas morreram sufocadas em leitos de UTI. O general supostamente especializado em logística garantiu uma ampla distribuição de cloroquina, mas nada fez quando avisado da falta de oxigênio no estado. Sai da cadeira com 280 mil mortos nas costas e quase 3 mil mortes diárias.

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Pazuello sai de cena pressionado pelo desgaste do caos sanitário em que ajudou a meter o país, situação que se tornou insustentável até mesmo para o centrão, preocupado com a viabilidade do governo com o qual se aliou. A cardiologista do Incor, Ludhmila Hajjar foi então cogitada para o cargo. De bom trânsito com o centrão e renome, poderia ajudar a conter a crise na pasta.

Convocada ao Planalto, Hajjar passou por uma entrevista com Bolsonaro e seu filho, o deputado Eduardo Bolsonaro, que resume o show de horrores que é esse governo. Foi questionada se era a favor do aborto, da liberação de armas e até mesmo se sabia atirar. Quando o tema foi pra lockdown, ouviu de Bolsonaro: “Se você fizer lockdown no Nordeste vai me f…, perco a eleição“.

O simples anúncio da conversa com a médica desatou uma furiosa perseguição da milícia digital bolsonarista. Revisitaram falas da médica em que ela contesta o uso da cloroquina para a Covid-19 e defende o isolamento social. Apesar de, antes da conversa com Bolsonaro e cogitada ao cargo, Hajjar ter dito que se alinharia “100% com Bolsonaro”, e contar com as bençãos do líder do centrão Arthur Lira, foi ameaçada de morte pela gangue de extrema-direita do presidente e é obrigado a andar com seguranças.

Com a médica fora de cena, abriu-se o caminho para Marcelo Queiroga, amigo do sogro de Flávio Bolsonaro, o filho Zero Um investigado pelo esquema de peculato na Câmara de Vereadores do Rio, as tais “rachadinhas”. Antes mesmo de tomar posse, o médico já declarou que “a política é do governo Bolsonaro, não é do ministro da Saúde, a Saúde executa a política do governo“. A sua forma de dizer que “um manda, o outro obedece”. Se antes era contra o uso da cloroquina, agora relativiza para não se contrapor ao seu chefe.

Pressionado pela alta no índice de rejeição do governo, mais do que pelo colapso na saúde, Marcelo Queiroga vem tentando, nas últimas horas, imprimir um tom mais “científico” ao governo. Defendeu em entrevista o uso de máscaras e álcool gel, mas isso não esconde que, tal como Pazuello, será nada mais que um fantoche de Bolsonaro e a sua política genocida.

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Neste dia 16 de março o Brasil contabilizou a estarrecedora marca de 2.841 mortes pela Covid-19, aproximando-se das 300 mil vítimas fatais, em números subnotificados. Nesta terça-feira, o país foi responsável por 30% de todas as mortes da pandemia no mundo, numa crescente que só tende a aumentar. Não tem outra palavra que não genocídio para o que estamos sofrendo. Uma matança deliberada, arquitetada durante um ano pelo governo genocida de Bolsonaro.

O horizonte é sombrio. O cronograma de vacinação apresentado por Pazuello em seus últimos momentos como ministro é uma peça de ficção em que nem o centrão acredita. Enquanto isso, o governo continua sabotando as parcas medidas de distanciamento, e segurou ao máximo o auxílio emergencial para aprovar um valor médio de míseros R$ 150. É um auxílio para não haver quarentena ou lockdown. Nos estados, mais de 1 mil pessoas estão à espera por um leito de UTI. Não se trata de analisar quando virá o colapso na saúde, já estamos nele. Como relata a Fiocruz, através do Observatório Covid-19, é o “maior colapso sanitário e hospitalar da história do Brasil”.

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Uma tragédia sanitária acompanhada por uma catástrofe social, com o avanço do desemprego, da fome e da miséria. Crise social e econômica provocada justamente pela pandemia e a política do governo, que de forma hipócrita e criminosa, tenta contrapor o combate ao vírus à defesa dos empregos. Bolsonaro une as duas coisas: quer matar o povo com o vírus e pela fome.

São Paulo SP 19 05 2020-Centrais sindicais convocam ato contra politica do governo Jair Bolsonaro doto Roberto Parizotti/Fotos Publicas

A única forma de parar essa matança generalizada é através de um lockdown nacional. Para haver isso, é preciso um auxílio emergencial de verdade e suporte ao pequeno negócio, assim como a manutenção dos empregos e dos direitos. Tudo o que Bolsonaro não vai fazer. Arrancá-lo de lá, junto com seu séquito de assassinos e milicianos, é pré-condição para se interromper o genocídio.

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