Homem vota em Curitiba 7/10/2018 REUTERS/Rodolfo Buhrer
Marcadas pela pandemia e pelo aprofundamento da crise econômica e social, eleições refletem, ainda que de forma distorcida, retrocesso do bolsonarismo e desgaste da democracia burguesa.

O primeiro turno das eleições municipais significou uma evidente derrota de Bolsonaro. Essa é uma das principais conclusões que se pode tirar do resultado que saiu das urnas no dia 15 de novembro. Dos 13 candidatos a prefeito que Bolsonaro propagandeou em suas lives, nove não se elegeram. Só um foi eleito, na cidade mineira de Ipatinga. Dois foram ao segundo turno, ambos em segundo lugar: Marcelo Crivella (Republicanos), no Rio, e Capitão Wagner (PROS), em Fortaleza.

O caso mais emblemático foi o de Celso Russomano (Republicanos) em São Paulo. Dos 30% que contava na largada da campanha, o candidato apoiado por Bolsonaro terminou a votação com pouco mais de 10,5%. Russomano não só perdeu pela terceira vez consecutiva, como esse foi seu pior resultado em eleições municipais. Carlos Bolsonaro (Republicanos), filho do presidente, vereador no Rio e eminência parda de Bolsonaro nas redes sociais, reelegeu-se, mas com uma votação muito inferior à de 2016.

O desastre que se anunciava momentos antes da votação fez com que Bolsonaro apagasse um post no qual indicava seus candidatos. Porém não deu tempo, e os candidatos mais associados ao bolsonarismo, nas maiores cidades e capitais, em geral se deram mal.

Ainda que se tente relativizar a derrota do governo pelo crescimento dos votos no PSL, turbinado pelo fundo eleitoral angariado pela leva de deputados eleitos com a onda bolsonarista de 2018, ou os votos do centrão, a verdade é que 2020 viu essa onda da extrema direita quebrar na praia.

Desgaste do governo

As eleições são um espelho distorcido da realidade, mas em seu reflexo pode-se vislumbrar movimentações e tendências importantes que ocorrem. Assim, a derrota eleitoral do bolsonarismo reflete, de certa forma, o desgaste com a situação do país, o seu negacionismo perante à pandemia e recentemente contra a vacina e também o desgaste em relação ao corte do auxílio emergencial pela metade.

A maré parece estar mudando, e Bolsonaro vê a recuperação de popularidade, que havia conquistado como subproduto do auxílio e certa narrativa sobre a pandemia, corroer-se. A última pesquisa Datafolha, do dia 7 de novembro, mostra uma queda importante de sua popularidade em algumas capitais: 4% em São Paulo; 3% no Rio de Janeiro; e 5% em Belo Horizonte.

Isso não significa que já seja um governo na lona ou abaixo do volume morto. Ele é ainda capaz de despejar, com apoio do Congresso Nacional e do grosso da burguesia, todo o seu pacote de maldades sobre a cabeça dos trabalhadores e dos mais pobres, tão logo termine as eleições (Leia nas páginas 10 e 11).

Contudo, essa derrocada é importante. É preciso, porém, retomar a luta para derrotar esse governo e seus ataques. Seu amigo Trump foi derrotado, antes de tudo, pela rebelião detonada a partir do assassinato de George Floyd. Aliás, a derrota de Trump e da direita na Bolívia também sopraram e continuam soprando por aqui.

ABSTENÇÃO

O não voto” ganhou nas principais cidades

Além da derrota eleitoral de Bolsonaro, essas eleições foram marcadas pelo grande índice de abstenção. Nacionalmente, a média foi de 23,14%, bem maior que nos anos anteriores. A pandemia certamente influiu nesse resultado. Porém a tendência observada nas últimas eleições, de uma alta sustentada, indica que não foi um ponto fora da curva, mas mostra um número cada vez maior de pessoas que simplesmente não saíram para votar, uma expressão do desgaste da democracia burguesa.

Esse é um processo que se observa principalmente nas grandes cidades e capitais. Em São Paulo, por exemplo, a abstenção chegou a 2,6 milhões, quase 30% do eleitorado. É quase que a soma dos votos dos dois candidatos que foram ao segundo turno, Bruno Covas (PSDB) e Guilherme Boulos (PSOL). Somando nulos e brancos, esse índice chega a 45,27%. O fenômeno se repetiu em outras 456 cidades, onde o número de abstenções, brancos e nulos também superaram a votação dos dois candidatos melhor colocados, incluindo outras capitais, como Porto Velho, Palmas, Natal, João Pessoa, Curitiba, Rio de Janeiro, Porto Alegre e Goiânia.

Ainda que não seja um salto, esses números mostram que há descrédito e uma menor expectativa de mudanças por via dessas eleições de cartas marcadas controladas por campanhas bilionárias e pela burguesia, mesmo que, por ora, isso não se reflita em voto de protesto em candidaturas revolucionárias, ou mobilizações.

Maiores índices de abstenção

– Porto Alegre: 33,08%
– Rio de Janeiro: 32,79%
– Curitiba: 30,18%
– Goiânia: 30,72%
– São Paulo: 29,29%

Abstenções nas eleições municipais

2000 – 14,81%
2004 – 14,22%
2008 – 14,50%
2012 – 16,41%
2016 – 17,58%
2020 – 23,14%

DIREITA

Voto defensivo e fragmentação da ultradireita e da direita

Ao contrário de 2018, quando a onda que deu a vitória a Bolsonaro permitiu que vários políticos surfassem no processo, desde o atual governador de São Paulo, João Doria (PSDB), com seu “bolsodoria”, passando pelo então desconhecido Wilson Witzel (PSC), no Rio de Janeiro, desta vez o presidente não só não conseguiu puxar votos como se transformou num fardo do qual seus aliados logo tentaram se desvencilhar.

O que se viu foi uma fragmentação da ultradireita e da direita tradicional, passando pelos partidos da oposição parlamentar, com o enfraquecimento do PT em sua localização de partido hegemônico na oposição parlamentar, e o avanço eleitoral do PSOL, ocupando parte desse espaço.

Fragmentação da direita e da ultradireita

A perda da influência de Bolsonaro se refletiu primeiro no fiasco da legalização de seu próprio partido, o Aliança pelo Brasil. Sem ele, ensaiou uma reaproximação com sua antiga sigla, o PSL, e viu os votos da ultradireita, e de parte da direita tradicional, que compõem o que a imprensa chama de centrão, espraiarem-se.

Analisando a votação em termos absolutos, muitos dizem que há um fortalecimento da ultradireita e da direita. O PSL, por exemplo, triplicou o número de prefeituras, bem como o também bolsonarista Avante. Ambos, porém, em cidades pequenas, nos grotões do país. O PSL, por exemplo, foi um dos partidos que elegeu menos candidatos proporcionalmente, tendo destaque o completo fiasco da candidatura milionária de Joice Hasselmann em São Paulo.

Já MDB, PSDB e PTB perderam votos e prefeituras. Nas capitais, que determinam a dinâmica do processo, quem registrou importante avanço foi o DEM, que já levou três (Salvador, Florianópolis e Curitiba) e pode levar outras duas, incluindo o Rio de Janeiro.

Isso não expressa, porém, um avanço da direita ou do centrão, muito menos uma volta à “moderação” como muitos analistas da burguesia descrevem, mas uma substituição da polarização entre PT e o PSDB em 2018. Isso se dá muito mais pelo enfraquecimento desses setores do que pelo fortalecimento de algum movimento ou alternativa de centro.

Um voto defensivo numa conjuntura de refluxo

De forma geral, o que se viu no primeiro turno foi uma espécie de voto defensivo. Numa conjuntura marcada pela pandemia, pela crise econômica e social com a explosão do desemprego, mas marcada também pela ausência de lutas, numa eleição morna, votou-se para que as coisas não piorassem. Dessa forma, ganharam votos principalmente aqueles prefeitos que a população avaliou como tendo uma gestão “responsável” frente ao negacionismo genocida de Bolsonaro. Todavia essa não é toda a realidade, já que muitos disfarçaram ou pelo menos não desrespeitaram os mortos ou chamaram a pandemia de “gripezinha”. Porém, de forma geral, tanto prefeitos quanto governadores acabaram seguindo a política de “liberou geral” do presidente.

Isso se refletiu no aumento da taxa de reeleição de 63% dos prefeitos pelo país contra 46% em 2016. Nas capitais, seis das sete eleições que terminaram no primeiro turno deram a vitória a prefeitos que disputaram a reeleição ou a vices que estavam no cargo.

ESQUERA PARLAMENTAR

PSOL cresce, ocupa parte do espaço do PT, mas avança rumo à adaptação institucional

Embora o PT tenha recuperado parte do espaço perdido no auge da crise do partido em 2016, essas eleições marcam a perda da sua hegemonia no campo da esquerda parlamentar, com resultados pífios nas capitais, sobretudo em São Paulo, onde a candidatura de Jilmar Tatto não só deixou o partido fora do segundo turno pela primeira vez em 35 anos, como teve sua pior votação, terminando com 8,6%, em sexto lugar.

Ainda que continue sendo o partido com peso e o maior de oposição parlamentar, o resultado eleitoral confirma o processo de crise e ruptura de um setor de massas com o PT. Espaço esse que eleitoralmente foi ocupado em parte pelo PSOL. Junto com isso, surfando num ascenso das pautas identitárias, principalmente entre a juventude de classe média, com um programa policlassista, o PSOL teve um importante crescimento eleitoral, não só indo ao segundo turno em capitais como Belém e São Paulo, como ampliando suas bancadas de vereadores.

Isso se dá, no entanto, de forma simultânea a um processo de direitização e adaptação institucional, refazendo, num período mais curto de tempo, o caminho trilhado pelo PT, mas sem contar com o lastro social do petismo. Em São Paulo, por exemplo, Guilherme Boulos se esforça para suavizar sua imagem e seu programa, tentando dissociar-se das ocupações do movimento de sem-teto e da pecha de “radical” para aparecer mais como um filho de classe média preocupado com questões sociais, reunindo-se com grandes empresários na Associação Comercial de São Paulo e acenando para uma gestão que governe em comum acordo com a burguesia.

PARTIDO

Enfrentando regra eleitoral antidemocrática, PSTU apresentou alternativa revolucionária e socialista

O PSTU fez uma forte e vitoriosa campanha eleitoral, mesmo tendo de enfrentar as regras antidemocráticas e o poder econômico. Não nos furtamos da tarefa de apresentar aos trabalhadores e ao povo pobre uma alternativa revolucionária e socialista. Apresentamos um programa que partia das necessidades mais sentidas da nossa classe, pontuando a defesa estratégica do socialismo e da revolução.

Apresentamos candidaturas em 55 cidades do país. Candidaturas operárias, negras, de mulheres trabalhadoras e LGBTs. Milhares de militantes e de ativistas assumiram a campanha, defendendo um programa de classe, revolucionário e socialista.

“Fizemos uma campanha vitoriosa, frente ao desafio de levantar a bandeira do socialismo como única saída à crise do capitalismo, num momento em que a oposição parlamentar defende a democracia burguesa como projeto e limite, defendendo um programa para governar e administrar o capitalismo em crise”, ressalta Vera, operária e primeira mulher negra candidata à prefeitura de São Paulo.

O professor e ativista do movimento negro Hertz Dias destaca os setores e lugares nos quais foi realizada a campanha do PSTU. “Nossa campanha foi realizada na periferia, nas fábricas e nas ocupações, bem como junto a trabalhadores da saúde, de transportes e tantos outros. Conseguimos reunir operários, trabalhadores e setores marginalizados e oprimidos a nossa classe”, disse o candidato a prefeito de São Luis (MA).

Uma campanha aguerrida

Essa foi a primeira eleição na qual o PSTU foi totalmente excluído do horário eleitoral na televisão, resultado das regras cada vez mais antidemocráticas, e vetado da grande maioria dos debates. Juntando isso à abissal desigualdade da distribuição do fundo eleitoral e as doações milionárias que irrigaram as demais candidaturas, o partido enfrentou uma situação de quase semilegalidade na prática. Mas isso não impediu que o PSTU movesse alguns milhares de ativistas pelo país, aproximando lutadores interessados em discutir socialismo e se organizar.

“Na primeira eleição em que foi totalmente excluído da TV, o partido cumpriu o papel de levantar um projeto socialista. Nossa campanha não se guiou de forma prioritária pela obtenção de votos ou mandatos, pois se assim ocorresse, sacrificaríamos o principal, que é o programa e o objetivo de construir uma alternativa e uma organização revolucionária, transformando-se numa esquerda eleitoral nos limites do sistema”, destaca Cyro Garcia, candidato a prefeito da cidade do Rio de Janeiro.

Isso não quer dizer que não seja importante obter votos. Pelo contrário. O PSTU lutou para ter o máximo de votos possível no marco da defesa do seu programa, sem abrir mão das suas ideias, dentro das limitações impostas pelo poder econômico e das restrições democráticas. Porém, essa não é a medida principal para avaliar a campanha eleitoral dos revolucionários. A medida principal para definir a campanha é a apresentação correta do programa pela a organização revolucionária e o avanço quanto à sua organização, implantação e construção.

“Apesar de uma baixa votação, o PSTU sai da campanha fortalecido, com a militância orgulhosa de fazer parte da luta em defesa do socialismo num momento em que o sistema capitalista oferece apenas a barbárie aos trabalhadores e ao povo pobre”, avalia Raquel de Paula, candidata a prefeita da cidade de São José dos Campos (SP).

PERFIL

Uma campanha operária que deu voz aos oprimidos e explorados

A campanha do PSTU deu voz aos setores mais oprimidos e explorados da nossa classe. Com o maior índice entre todos os partidos, 61% das candidaturas do PSTU foram encabeçadas por negros e negras.

“O fato de a nossa militância ter composto chapas de trabalhadores e trabalhadoras com um perfil negro tão acentuado nos causa orgulho exatamente porque vivemos no no país com a maior população negra fora do continente africano e que manteve por mais tempo o crime da escravidão. Esse perfil foi combinado com um programa que apresenta uma saída de classe, socialista e revolucionária para atender às necessidades dos mais explorados e historicamente oprimidos”, pontua o petroleiro Ednaldo Sacramento, candidato a prefeito da cidade de Alagoinhas (BA).

Para Preta Lu, candidata a vereadora em São Luís (MA), diferentemente daqueles que querem manter ou aprofundar a lógica excludente e opressiva do sistema capitalista ou dos que pregam a possibilidade de reformá-lo, o centro da campanha foi apresentar uma alternativa socialista.

“Foi uma campanha a serviço da organização do nosso povo. Discutimos a necessidade de aquilombar os de baixo em conselhos populares, comitês de autodefesa, comissões nos locais de trabalho e estudo, associações de moradores nas quebradas e quilombos e todas as formas possíveis”, disse Preta Lu.

Mulheres, indígenas e LGBTs

Aquilombar os de baixo também significou combater as opressões e os preconceitos para unificar a classe trabalhadora contra a burguesia, que tenta, de forma permanente, dividirnos com a propagação de um sem número de discriminações e preconceitos para aumentar a exploração.

Por isso, O PSTU se orgulha de ter tido 43% de nossas candidaturas às prefeituras encabeçadas por mulheres (40% entre vereadores); 10% das candidaturas foram encabeçadas por LGBTs; e 4% por indígenas, o maior percentual entre todos os partidos.