Imagem Reprodução Tv Globo

Julia Eid e Lucas Simabukulo, da Zona Sul de São Paulo

No último sábado, 16 de outubro, um desabamento de um sobrado na comunidade de Paraisópolis sensibilizou as famílias da região. O acidente atingiu 8 casas e causou uma vítima fatal, além de 4 pessoas que ficaram feridas e fora retiradas dos escombros.

Paraisópolis é a segunda maior favela de São Paulo e a quinta do Brasil. Dois anos atrás, entrou nos noticiários em todo o país após o lamentável episódio conhecido como “Massacre de Paraisópolis”, em que a truculência da PM de Dória com a juventude fez aumentar a estatística de jovens negros mortos na periferia. Houve atos contra o genocídio negro e o PSTU foi parte dessa luta (leia mais aqui e aqui).

A comunidade atravessa o bairro do Morumbi, que possui um IDH (Índice de Desenvolvimento Humano) semelhante ao de países europeus. A região, na Zona Sul de São Paulo, é um exemplo do capitalismo: enquanto os ricos lucram cada vez mais nas suas mansões e podem desfrutar de isolamento social na pandemia, os trabalhadores, em sua maioria negros, lutam contra o desemprego, os despejos e a violência policial.

A casa que desabou e causou o acidente era um sobrado em uma região que deveria passar por um processo de urbanização porque fica nas proximidades de um córrego. Além do risco de desabamento as casas, nos períodos de chuva o córrego enche e causa alagamentos que, inclusive, chegam a adentrar às casas. As chuvas dessa semana na cidade abrem o alerta sobre possíveis novos desabamentos em regiões de risco.

Esse dilema é vivido por milhares de pessoas que moram nas periferias de São Paulo. Só na região no entorno do córrego, em Paraisópolis, onde houve o desabamento, moram 1500 famílias, todas em situação de risco. Ao todo em São Paulo, segundo estudo da prefeitura da capital, o déficit de imóveis na cidade chega a cerca de 500 mil residências, 400 mil casas ficam em regiões de favelas e cerca de 80 mil famílias moram em ocupações urbanas. Nas cidades da região metropolitana, três a cada dez residências estão em áreas de risco.

A politica da prefeitura de São Paulo é completamente insuficiente. Nesse mandato o prefeito Ricardo Nunes espera construir cerca de 30 mil imóveis populares. Enquanto isso, o número de imóveis vazios que alimentam a especulação imobiliária só aumenta, ainda mais agravado pela crise gerada na pandemia em que muitas famílias não puderam manter o pagamento dos aluguéis.

A prefeitura insiste que os moradores da região onde ocorreu o desabamento saiam de seus lares, para realizar obras de urbanização, em um período de crise em que muitos estão desempregados, e oferece para eles um “auxílio” de R$ 400, um valor insuficiente para alugar uma casa em São Paulo. Segundo um estudo recente realizado pelo Imovelweb, divulgado em junho desse ano, o bairro com o menor valor médio de alugueis é o Cidade Tiradentes, na Zona Leste da cidade, em que o preço médio é R$ 1.060,00. Ao mesmo tempo que não lhes dá nenhuma garantia de que serão assistidos com aluguel social até a construção de novas moradias.

O desabamento demonstra o descaso dos governos com o direito à moradia digna e com a urbanização de favelas e áreas de risco. A prefeitura de São Paulo e o governo do Estado, precisam fornecer assistência para as pessoas diretamente afetadas pelo desabamento e promover a reurbanização da área, primeiro garantindo um aluguel social de valor adequado para que essas famílias possam morar dignamente sem ter que sair de seu bairro. Mas tambem investindo em construção de imóveis adequados para essas pessoas. A “passos de tartaruga”, como seguem os governos municipal e estadual, assim como o governo federal, o problema da habitação não será resolvido e continuarão acontecendo novos desastres, como o desse fim de semana.

Não existe solução para o problema imobiliário em São Paulo sem atacar a propriedade dos grandes proprietários de imóveis que não se preocupam com os desastres como o que aconteceu em Paraisópolis, nem com o aumento do número de pessoas vivendo nas ruas. A lógica daqueles que lucram com a especulação é de manter imóveis vazios para aumentar o seu valor de mercado.

O PSTU se solidariza com as famílias e está junto nessa luta. E é preciso também que discutamos na luta por moradia, a necessidade de uma sociedade em que todos que trabalham tenham direito a um teto, uma sociedade socialista.