Ciro Gomes e os limites do projeto desenvolvimentista

Foto Agência Brasil

Desde a queda de Dilma Rousseff (PT), tem se desenvolvido um grande debate no Brasil sobre os caminhos e descaminhos da esquerda. Em especial, a ideia de que, diante do crescimento da direita, seria necessária a unificação da esquerda numa só frente ganhou algum fôlego, sobretudo com o crescimento eleitoral de Jair Bolsonaro.

Apesar desse clamor pela unidade da esquerda, sabemos que ela não se realizou. Temos, de um lado, a candidatura petista de Lula, que, com sua impugnação, deverá transformar-se na dobradinha Fernando Haddad e Manuela D’Ávila (PCdoB). De outro, estão Ciro Gomes (PDT) e Guilherme Boulos (PSOL). Todas essas candidaturas têm um ponto em comum: a defesa do ex-mandato de Dilma e, principalmente, os dois mandatos de Lula. Consideram tais governos como progressivos. A única exceção na esquerda, como sabemos, é Vera Lúcia, do PSTU. É a única candidatura que se mantém na oposição ao PT e defende uma saída socialista para o Brasil, fora das eleições burguesas.

Se isso é assim, porque Ciro, Haddad e Boulos não se unem numa candidatura única? Seriam tais candidaturas iguais? Se são, por que saem em chapas separadas? Na verdade, esses nomes expressam projetos distintos em torno de uma única base: a possibilidade de resolver os problemas do país no interior da democracia burguesa preservando o capitalismo, e não só isso. Esse processo carrega, também, uma estratégia do PT para continuar hegemonizando a esquerda brasileira. Neste artigo, começaremos nossa análise por Ciro Gomes. Na próxima edição do Opinião Socialista, discutiremos o projeto apresentado por Guilherme Boulos.

O projeto de Ciro Gomes
Diferentemente de Lula ou de Haddad, Ciro Gomes não tem atrás de si um partido e um movimento organizado dos trabalhadores. Trata-se de um voo solo que apresenta um projeto para o Brasil. Em que consiste esse projeto? Ciro Gomes acredita que é possível desenvolver o Brasil, transformá-lo num país de ponta e, assim, elevar o nível geral de vida da classe trabalhadora brasileira. Para atingir esse objetivo, ele acredita que o Brasil possui um vilão: o capital bancário e especulativo.

Com as mais elevadas taxas de juros do mundo, o Brasil tem sua riqueza sugada por especuladores nacionais e internacionais. Esse problema é um fato inquestionável. Ano após ano, os recursos nacionais são canalizados para a dívida pública. Metade do Orçamento da União, por exemplo, é gasto no pagamento dos juros e amortização da dívida. Ao mesmo tempo, os trabalhadores se endividam por décadas para adquirir uma casa ou um carro. Quem são os heróis de Ciro Gomes?

Ciro não vê na classe trabalhadora brasileira o agente capaz de mudar essa situação. Seus heróis são os membros da burguesia proprietária das indústrias produtoras de mercadorias: o capital produtivo. Para Ciro, ele mesmo um burguês, o capital bancário, ao sugar as riquezas nacionais, não permite que o capital produtivo se desenvolva. Por isso, ele se alia aos proprietários do agronegócio, da siderurgia, da indústria automobilística e de consumo.

A saída para o Brasil estaria na luta entre um setor da burguesia contra o outro. Por isso, Ciro tem como vice a líder ruralista Kátia Abreu. Antes, tentou que o vice fosse Benjamin Steinbruch, acionista majoritário da Companhia Siderúrgica Nacional (CSN) e ex-presidente da Fiesp. Seu grande modelo é a Coreia do Sul, que conseguiu desenvolver uma robusta indústria automobilística puxada pela Hyundai e com subsídios estatais. Nesse sentido, tal projeto diferencia Ciro do projeto social-liberal do PT, cujo centro é garantir a estabilidade da economia com a interferência estatal no sentido de manter o consumo-família. Mas seu projeto pode ser considerado de esquerda?

O desenvolvimento nacional sonhado por Ciro não representaria o fim do neoliberalismo. Apesar das críticas que faz aos especuladores, Ciro já disse que vai pagar a dívida e inclusive antecipar seu pagamento. Orgulha-se de ter tido o maior superávit primário da história quando era ministro da Fazenda em 1994. Critica a reforma da Previdência de Temer, mas diz que vai fazê-la e propõe um modelo de Previdência capitalizada semelhante ao do Chile, que resultou no fim da Previdência pública.

Por outro lado, diz que é necessária uma reforma trabalhista, sem, contudo, que se perca todos os direitos. É favorável à privatização dos serviços de telefonia realizado há duas décadas no Brasil, mas não à venda da Embraer para uma empresa estadunidense como a Boeing.

BURGUESIA BRASILEIRA
Sócios-menores dos capitalistas estrangeiros

As ideias de Ciro Gomes podem até parecer um mal menor diante de outras candidaturas que estão colocadas. Em alguns casos, seu discurso parece até mais radical do que o discurso petista de 2002. Porém seu projeto não é realizável e está condenado ao fracasso desde o início, sobretudo por duas razões.

Em primeiro lugar, o capitalismo atual, na época imperialista, caracteriza-se pela fusão entre o capital bancário e industrial, resultando no capital financeiro. Muitas vezes, os bancos são proprietários diretos ou indiretos das ações das indústrias. Cada grande monopólio industrial possui seu braço bancário. Assim, a CSN de Steinbruch tem como braço financeiro o banco Fibra. Inclusive, o presidente desse banco é sobrinho de Steinbruch.

Quando Ciro declara guerra ao capital especulativo e apoio irrestrito ao setor que produz, ele deve gerar uma profunda crise de identidade nesses setores. Ele quer nos apoiar ou destruir?, pensam.

Além disso, Ciro Gomes despreza a covardia e a subordinação da burguesia brasileira. Ela não tem nenhum interesse em desenvolver o país. Visa apenas garantir retorno financeiro rápido e de pouco risco como sócia-menor do capital internacional.

O caso do PT torna esse processo transparente. O PT não chegou ao poder com o mesmo projeto de Ciro Gomes. Quando chegou ao poder, o PT manteve o pagamento da dívida e o superávit primário. Criou uma série de políticas sociais compensatórias, como o Fome Zero, e, a partir do BNDES, ofereceu generosos empréstimos ao setor privado. A tudo isso, somam-se isenções fiscais a setores da indústria e a programas como Minha Casa, Minha Vida, que financiaram construtoras privadas. Também fomentou toda a agroindústria e os setor de mineração.

Nesse sentido, a política do PT de financiar as chamadas campeãs nacionais resultou no avanço da reprimarização da economia brasileira, ou seja, o país se tornou um mero exportador de produtos agropecuários e produtos de baixa tecnologia ao custo da desindustrialização de outros setores da economia. Tudo isso foi vendido como crescimento, mas seu único papel foi aprofundar a dependência do Brasil.

Essa política econômica também visava evitar crises econômicas do capitalismo, fomentando o que se chama consumo-família: as ditas políticas anticíclicas. O ex-Ministro da Fazenda, Guido Mantega, estudou Marx. Sabia que o capitalismo é constantemente afetado por crises periódicas e violentas. Tais crises normalmente se caracterizam por haver muitas mercadorias para vender, mas poucos com capacidade de comprá-las. Por isso, para ele, o mais importante não era desenvolver a produção de mercadorias como quer Ciro Gomes, mas sim a capacidade de consumo da população para evitar as crises. É exatamente com essa intenção, elevar a capacidade de consumo da população, que surgiu o Bolsa Família e o programa Minha Casa, Minha Vida. Foi exatamente isso que levou a população ao maior endividamento da história. Já Ciro Gomes diz que vai tirar os endividados do SPC…

Como sabemos, tais medidas foram um completo fracasso. Desindustrializado, com uma classe trabalhadora endividada, dependente da venda de matérias-primas, o Brasil sucumbiu à crise econômica em 2012. Dilma pedia desesperadamente para que a população continuasse consumindo e não reservasse seus fundos em poupanças. O desemprego disparou e, com ele, os índices da criminalidade. Começaram a ganhar audiência, no país, toda sorte de alternativas políticas conservadoras e liberais, contanto que se proclamassem antipetistas.

O PT perdeu sua base social, sofreu, contra si, as maiores manifestações de rua em décadas e, com elas, perdeu a confiança da burguesia brasileira. Além disso, a corrupção generalizada, fruto das relações promíscuas entre empresários e governo, veio à tona com a Lava Jato.

As medidas propostas por Ciro Gomes e Guido Mantega, comparadas àquelas defendidas por Henrique Meirelles ou Bolsonaro, podem até parecer um mal menor. No entanto, quando são colocadas em prática e fracassam, o resultado que temos é a desmoralização dos trabalhadores que depositaram neles sua confiança. Além disso, vê-se crescer toda sorte de ideias reacionárias, principalmente entre os setores médios da sociedade.

Mais do que isso, vemos possibilidade de que novas alternativas à esquerda possam substituir as antigas. O fracasso dos projetos reformistas abre a possibilidade de se ganhar uma parcela dos trabalhadores para uma saída revolucionária.

Nesse cenário, é fundamental apresentar aos trabalhadores uma candidatura socialista e revolucionária. Uma candidatura que aponte para a única saída possível para os seus problemas e necessidades. Ou continuaremos a girar em círculos: o fracasso das saídas reformistas leva à ascensão de saídas conservadoras e liberais que, por sua vez, conduz novamente a saídas reformistas. Enquanto isso, todos os direitos e conquistas da classe trabalhadora brasileira vão para o ralo.