Cartas do Haiti II – ‘Estou em casa’

Pichações como essa, exigindo 'Fora Minustah', são cada vez mais comuns
Blog 'Notes from Haiti'

Um velho avião a hélice desce no aeroporto de Porto Príncipe. Estou de volta ao Haiti, dois anos depois da primeira vez que estive aqui, com uma delegação da Conlutas.

Como negro, tenho um enorme orgulho da história haitiana. Aqui se deu a única revolução vitoriosa dos escravos de toda a história, que derrotou os exércitos de todas as potências coloniais da época, incluindo a Espanha, Inglaterra e França. O aeroporto se chama Toussaint Loverture, o grande líder da revolução, que derrotou as tropas de Napoleão.

No caminho do aeroporto para a cidade, o choque com a realidade atual: a miséria nas ruas e inúmeros quartéis da Minustah, a força de ocupação da ONU. O Haiti hoje é de novo uma colônia, vítima de uma ocupação militar, dirigida pelo exército brasileiro.

Fim de tarde em Porto Príncipe. Uma multidão caminha pelas calçadas invadindo as ruas. Homens apressados, mulheres com trouxas de roupas na cabeça. O povo negro vai se confundindo com a noite na cidade sem iluminação nas ruas.

Nesses dois anos muita coisa mudou. Naquela época, as tropas da Minustah eram vistas com simpatia. Vieram para cá mandadas por Bush em uma intervenção militar, mas capitalizavam as esperanças com a intervenção “humanitária” e a identidade cultural do povo haitiano com o brasileiro.

VEJA CENAS DA CARAVANA DE 2007

Converso com os companheiros de Batay Ouvriyé, uma organização ligada a todas as lutas sindicais e populares do país. Hoje o sentimento da população é de ódio em relação à ocupação militar.

Não houve nenhuma melhora social. Mas as tropas reprimem duramente as mobilizações. Entram nas favelas de Porto Príncipe atirando indiscriminadamente contra todos.

A polícia carioca entra nos morros atirando contra os “suspeitos”, ou seja, todos os jovens negros. As tropas brasileiras no Haiti – como todas da Minustah – fazem o mesmo nos bairros pobres. E aqui todos são negros. Existem muitas denúncias de espancamentos e de estupros das mulheres haitianas. Pixações “Fora a minustah” surgem nos muros da cidade e são rapidamente apagadas.

O governo Lula está conseguindo impor um governo neoliberal no Brasil, enganando os trabalhadores, que pensam que têm um “aliado” no governo. A enganação da “missão humanitária” no Haiti é ainda maior. Os operários e a juventude brasileira precisam saber o que se passa no Haiti. Porque aqui, a farsa acabou.

Ando pelas ruas em Petión-ville, um bairro pobre daqui. As calçadas das ruas agora são ocupadas por vendedores ambulantes, como os camelôs do Brasil, que vendem de tudo. Nas ruas escuras, lanternas iluminam as mercadorias. Os rostos negros negociam, conversam, riem, falam alto.

O povo haitiano está rompendo com as tropas de ocupação. E eu me sinto cada vez mais em casa.