Julia Eid, do PSTU-Zona Sul de SP

Nessa terça feira, 14 de dezembro, enquanto trabalhadores e trabalhadoras do funcionalismo público de Taboão da Serra realizavam uma passeata pela BR 116 e ocupavam a Câmara dos Vereadores da cidade, Boulos, pré-candidato ao governo do estado de São Paulo pelo PSOL, reunia-se com o prefeito Aprígio, do Podemos e com seus vereadores. Convidado pelos manifestantes a apoiar e participar da luta, Boulos não foi e sua assessoria respondeu ao movimento que não tinha agenda para o funcionalismo.

Os funcionários públicos de Taboão, diante do ocorrido, lamentaram: “Infelizmente, nesta luta, Boulos preferiu ficar do lado do prefeito que paga salário de miséria para o funcionalismo, abaixo do mínimo para 3 mil trabalhadores e trabalhadoras da prefeitura. É uma virada de Boulos para o lado do patrão.” (#viradapaulista | Virado praque lado,… – Funcionalismo Taboão | Facebook)

Os servidores públicos de Taboão estão na luta para reivindicar direitos básicos como vale-transporte, vale-alimentação e o pagamento do piso salarial, negados pelo prefeito. Recentemente, o funcionalismo da cidade de São Paulo também foi à luta defender sua aposentadoria, e os funcionários públicos federais poderão sofrer grandes ataques caso a PEC 32 seja aprovada. Esse cenário é fruto da tentativa de desmonte dos serviços públicos das cidades e do país visando aprofundar as privatizações a serviço dos interesses da burguesia nacional e imperialista.

Frentes amplas eleitorais e governos de conciliação de classe não vão resolver os problemas dos trabalhadores e do povo pobre

A reunião de Boulos, principal figura pública do PSOL, com o Prefeito Aprígio e os vereadores é parte da agenda eleitoral do pré-candidato para ampliar suas alianças e fortalecer sua possível candidatura ao governo de São Paulo. Da mesma forma como fez quando concorreu ao cargo de prefeito da capital paulista em 2020, Boulos procura alianças com partidos representantes da burguesia, dos ricos, para formar uma frente ampla eleitoral e tentar capitalizar o rechaço a Bolsonaro e ao PSDB em São Paulo.

E, enquanto em São Paulo Boulos busca aliados dos partidos da burguesia, a majoritária do PSOL em seu recente Congresso (não sem oposição de parte minoritária de seus próprios militantes), defendeu não lançar candidato próprio nas eleições de 2022, indicando que vai apoiar PT e Lula desde o primeiro turno. No mesmo Congresso, as correntes majoritárias do PSOL se recusaram a votar uma resolução que dizia que não participariam de um governo junto com a burguesia caso Lula fosse eleito.

Vale lembrar que o PT, para chegar à presidência em 2002, foi de mala e cuia para o lado da burguesia. Fez alianças com os empresários, recebeu rios de dinheiro dos bancos, como do Itaú e assim foi incapaz de resolver problemas estruturais do país: não fez reforma agrária, pois estava de braços dados com o agronegócio; não resolveu a falta de moradia, pois estava junto com empresas e construtoras que vivem da especulação imobiliária; retirou direitos dos trabalhadores, como o PIS e o seguro-desemprego, pois estava de mãos dadas com os grandes empresários.

Agora, Lula e seu partido querem aparecer como os grandes salvadores da classe trabalhadora e do povo pobre. Mas repetem a mesma fórmula: dar as mãos pros grandes empresários e buscar alianças com representantes dos partidos do centrão, da direita, ou seja, com o que há de mais podre na política brasileira. Lula está em plena negociação com o recente ex-tucano Geraldo Alckimin para compor o cargo de vice presidente de sua chapa. E, para compor o Ministério da Economia, nomes como do banqueiro Meirelles é cogitado. Dessa forma, ao estar junto com eles, suas promessas de resolver os problemas imensos dos trabalhadores e do povo pobre são mentirosas.

Além disso, infelizmente, o PT colocou o pé no freio na luta para derrubar o governo genocida de Bolsonaro. E assim o faz para ter mais chances na corrida eleitoral de 2022. A ideia é apenas sangrar Bolsonaro e não o derrubar.

O mundo todo vive uma gravíssima crise econômica que castiga ainda mais os trabalhadores dos países coloniais e semicoloniais como o Brasil. No caso de Lula vir a governar novamente, fará seu governo em meio a essa crise e, por estar mais uma vez, aliado a capitalistas e seus políticos, vai aplicar com muita força os planos neoliberais, seja retirando direitos e possibilitando aumento da exploração da classe, seja aprofundando o projeto de colonização e entrega do país para multinacionais.

Assim o PSOL, ao indicar que vai apoiar Lula desde o primeiro turno e fazer parte do seu governo poderá cometer dois erros graves: apoiar um governo de conciliação de classes e ser parte dele. E isso, caso venha a se concretizar, vai levar o PSOL, desde o Governo Federal, a defender os interesses dos ricos e dos grandes empresários contra os interesses dos trabalhadores e do povo pobre.

Boulos, portanto, ao permanecer no andar de cima e manter sua agenda eleitoral de negociação com o Podemos e outros partidos da burguesia em detrimento de apoiar a luta do funcionalismo público de Taboão escancara o projeto da majoritária do PSOL: o vale-tudo pela disputa eleitoral, a aliança com partidos da burguesia e a opção de estar do lado oposto da luta dos trabalhadores e do povo pobre.

Chamado à construção do Polo Socialista e Revolucionário

A atitude de Boulos corresponde ao projeto de conciliação de classes que foi aplicado pelo PT no governo. Governo sobre o qual pesa tanto a responsabilidade pela vitória de Bolsonaro quanto a responsabilidade de ter trazido o país até o desastre que estamos vivendo hoje.

A luta dos servidores de Taboão é muito importante por enfrentar os ataques do prefeito Aprígio à categoria. Mas, além do enfrentamento aos ataques diretos dos governos e patrões, a situação do país exige a construção de um projeto de independência de classe, aposto às movimentações que estão fazendo Lula e Boulos. Nós do PSTU somos, nesse sentido, parte da construção do Polo Socialista e Revolucionário, que defende uma saída dos trabalhadores para a crise brasileira. Estamos à disposição dos trabalhadores para apoiar sua luta, mas também nos colocamos à disposição para discutir um projeto socialista para o país.

No mesmo sentido, achamos correta a atitude dos militantes do PSOL Taboão diante da postura de Boulos. Em nota do dia 15, manifestaram que: “A direção do Psol Taboão da Serra não compactua com o encontro que houve ontem na cidade, do pré candidato a governador pelo PSOL Guilherme Boulos com o prefeito Aprígio (PODEMOS) e seus vereadores, do qual somos oposição. Sem nenhuma comunicação com a direção do partido na cidade, além de se reunir com o prefeito, Boulos passa na cidade pra fazer uma atividade eleitoral que contou com diversos militantes na mesa mas infelizmente também com figuras corruptas e oportunistas da velha política. Figuras que até ontem estavam em partido de direta e fazendo campanha pro Daniel Bogalho (PSDB), assessorando Análice Fernandes (PSDB), hoje sentam na mesa com Boulos dizendo que vai derrotar os tucanos em São Paulo.”

Nesse sentido, da mesma forma que consideramos importante a reação dos militantes do PSOL de Taboão, entendemos como muito importante que algumas tendências e lideranças do PSOL estejam construindo o Polo Revolucionário e Socialista, uma iniciativa que garante a independência da classe trabalhadora contra a capitulação da direção majoritária desse partido à conciliação de classes.

Assim, fazemos um chamado também aos militantes do PSOL de Taboão para virem compor o polo para construir uma alternativa de independência de classe, socialista e revolucionária para as lutas e as eleições. Chamamos para que assinem o manifesto e para que se somem na luta por um programa que defenda os serviços públicos e os servidores, que defenda a reestatização sob controle dos trabalhadores das empresas privatizadas; um programa que defenda moradia, saneamento básico e fim do extermínio e do encarceramento em massa dos negros; um programa que defenda saúde pública de qualidade, inclusive estatizando sob controle dos trabalhadores os hospitais particulares. Um programa urgente para combater o desemprego, a fome e a carestia. Finalmente, um programa que defenda um governo democrático dos trabalhadores e do povo pobre por meio de conselhos populares com a finalidade de utilizar a riqueza que produzem para satisfazer todas as suas necessidades, um programa revolucionário e socialista. Alternativa que garante que nossas figuras públicas não olhem as lutas do andar de cima e de mãos dadas com quem tira direitos dos trabalhadores e do povo pobre!