Na foto, Alceu Collares (c), acompanhado (a partir da esquerda) por: Leonel Radde (PT), Márcio Bins Ely(PDT), Pedro Ruas(PSOL), Matheus Gomes(PSOL), Bruna Rodrigues(PCdoB) e Neuza Canabarro(Foto: Elson Sempé Pedroso/CMPA)

Vera Rosane de Oliveira, presidente estadual do PSTU-RS e da Secretaria Nacional de Negras e Negros do PSTU

É muito importante que não nos esqueçamos o que Solano Trindade nos ensinou. Um militante negro que perdeu seu filho na ditadura, pela luta contra o racismo e o sistema capitalista. Ou seja, não basta ser negro, pois “negros que escravizam e vendem negros na África não são meus irmãos. Negros senhores na América a serviço do capital não são meus irmãos. Negros opressores em qualquer parte do mundo não são meus irmãos. Só os negros oprimidos, escravizados, em luta por liberdade, são meus irmãos”.

Uma postura de raça e classe que se mistura com a própria vida e obra de Solano Trindade, um pernambucano, filho de um sapateiro e de uma operária, que se fez poeta, escritor, ator e diretor de teatro, cineasta, agitador cultural e militante negro e comunista, que se afastou da militância organizada no Partido Comunista Brasileiro (PCB) por discordar da visão predominante de que “o problema do negro brasileiro” era exclusivamente econômico, e não racial.

Nesta semana, a Câmara de Vereadores de Porto Alegre anunciou que fará uma homenagem ao ex-vereador (que também é ex-prefeito de Porto Alegre e ex-governador do Rio Grande do Sul) Alceu Collares. Tal homenagem foi proposta pelo vereador Matheus Gomes (Resistência-PSOL). Lamentavelmente, tal ato parece ter o apoio de todas as bancadas da esquerda que atualmente possuem assento na Câmara.

É fundamental dizermos que Collares, quando prefeito de Porto Alegre e governador do estado, não hesitou em seguir o mesmo modo de governar de qualquer branco, pois respondia aos interesses da burguesia branca que oprime e explora todos os trabalhadores, mas em especial negras e negros. Não podemos abstrair que foi Collares quem inventou o calendário rotativo, que, além de ser um caos como projeto pedagógico, foi nefasto à vida de mães e pais de nossa classe, em especial dos negros, que tinham de ter um aporte irracional para poder levar seus filhos à escola e trabalhar em média oito horas diárias. Como se isso já não fosse perverso, nas gestões do Collares, houve muita perseguição aos professores e demissões. Ocorreu uma grande greve dos trabalhadores em educação que durou 71 dias, na qual ele não titubeou em mandar bater nos educadores e perseguir os grevistas com perda de contratos e convocações.

Alguém que minimante saiba o peso que a mão armada do Estado tem na vida de negras e negros e dos trabalhadores em geral, se tivesse como centralidade a luta contra o racismo e não os interesses em defender a lógica deste sistema racista, machista, lgbtfóbico e explorador, buscaria outros caminhos para resolver os conflitos impostos pela sociedade de classes.

É muito importante desmascararmos a lógica de que basta ser negro e para estarmos no mesmo barco. Não! Dizemos que Collares não sofreu o racismo da mesma forma que os trabalhadores, pois o capitalismo, que se nutre dessa ideologia para explorar e oprimir, afeta todos os negros e negras, mas é fundamental dizer que de forma distinta, pois o povo negro trabalhador foi o que mais morreu de covid-19. São os que foram demitidos em massa e estão comendo lixo. Collares não sofre o racismo dessa forma, combinada com a exploração de classe, pois ele pertence à classe dos que exploram. Ele não é igual à merendeira ou à professora negra em quem ele mandou bater porque estava em greve.

Também é importante salientar ao vereador Matheus Gomes que uma bancada negra, do campo da nossa luta, num dos estados mais racistas de nosso país, não pode se prestar ao papel de dar a ideia aos trabalhadores negros e negras de nossa classe de que o caminho é o da conciliação de classes, pelo qual esqueçamos o que de nefasto homens e mulheres, mesmo que negros, fizeram contra a nossa luta e que, ao fim e ao cabo, nada fizeram pelos trabalhadores negros e brancos. Nossa luta é contra o sistema do capitalismo e do racismo.

Não vivemos em uma bolha onde o passado pode ser reescrito com título de honra ao mérito. E, mais, o parlamento, que constitui uma das principais engrenagens do aparelho de Estado da burguesia, não pode ser conquistado por nossa classe. E é tarefa de um parlamentar marxista mostrar todas as contradições para nossa classe e para negras e negros, e não fomentar estas ilusões.

Não devemos glorificar Obama por ser o primeiro presidente negro do maior país imperialista do mundo, pois além de ele manter a mesma lógica dos seus antecessores, vários negros foram assassinados pelo braço armado do Estado, e ele nada fez. Assim como não podemos vangloriar Collares por ser o primeiro negro em uma esfera de governo em nosso estado racista. Assim como não podemos vangloriar Sérgio Camargo, por ser negro e estar na Fundação Palmares, onde faz todo desserviço contra a população negra, inclusive dizendo que a escravidão foi benéfica ao povo negro.

Por mais que todos eles, em graus muito diferentes, tenham passado por situações racistas, é fundamental não passar a ilusão aos explorados e oprimidos de nossa classe de que a nossa dor por sofrer racismo se dá na mesma medida que a deles. Nunca será no mesmo grau o racismo que sofre uma mãe que perdeu seu filho assassinado pela polícia ou o que sofrem aquelas mulheres negras que têm de buscar comida no lixo porque estão desempregadas por causa da crise econômica que passamos. O governo Bolsonaro, bem como os demais governos dos estados e municípios, não estão ligando nem um pouco para tal situação, pois suas preocupações são garantir os negócios da burguesia em nome do capitalismo. Nossa luta não é a mesma de Obama, de Collares ou de Sérgio Camargo. Temos de destruir a exploração de classe que eles reforçam para destruirmos o capitalismo e o racismo.