Unidade é para lutar e não conciliar

Defender Lula da Lava Jato não é responsabilidade dos trabalhadores

A prisão de Lula pela operação Lava Jato é considerada pelo PT e a maioria da esquerda uma perseguição política e, indevidamente, comparada às prisões ocorridas durante a ditadura militar, que governou o Brasil após o golpe de 1964 e durou vinte e um anos.

Em texto publicado no Facebook no dia 29 de novembro, Valério Arcary afirma que “Lula é um preso político”, e que “aqueles que lutaram contra a ditadura, inclusive aqueles que o fizeram com armas nas mãos, eram presos políticos.”. “Por isso, quando capturados, defendemos incondicionalmente…”, afirma ainda, o que dá a entender uma equivalência entre os atos praticados por um e outros e, ao final, conclui de forma simplista: “Mas defender a liberdade para Lula é, infelizmente, polêmico. O que além de errado, é muito triste. Porque vamos precisar de unidade na esquerda para nos defendermos…”.

Ora, a comparação e a conclusão são infames, primeiramente, com aqueles que lutaram contra a ditatura e, por isso, foram presos, torturados e assassinados, mas, também, aos que nesse momento chamam a unidade para lutar contra os ataques aos direitos dos trabalhadores e às liberdades democráticas que virão do governo Bolsonaro, porém discordam da narrativa política do PT, que não unifica e divide a classe trabalhadora.

A prisão de Lula neste ano é distinta das prisões realizadas pelos governos militares como, por exemplo, a própria prisão de Lula ocorrida durante a greve dos metalúrgicos do ABC em 1980. Naquele ano, Murilo Macedo, ministro do Trabalho do general João Batista Figueiredo, determinou a intervenção nos sindicatos e a prisão de Luis Inácio Lula da Silva, José Maria de Almeida, o Zé Maria (presidente do PSTU), e mais uma dezena de sindicalistas, que foram enquadrados na Lei de Segurança Nacional (LSN) e passaram trinta e um dias no DOPS de São Paulo.

As prisões provocaram uma forte reação, a greve dos metalúrgicos continuou por quase trinta dias, as mulheres fizeram passeata em São Bernardo do Campo e foi realizado o histórico Ato de 1° de Maio com mais de cem mil metalúrgicos no Estádio de Vila Euclides. O ascenso operário e estudantil iniciado a partir das greves no final dos anos 1970 levou, posteriormente, à derrubada da ditadura e à redemocratização do país. A Convergência Socialista, uma dos correntes fundadoras do PSTU, esteve desde o início na linha de frente das greves e da luta pela libertação dos presos políticos.

Diferentemente dessas prisões, a condenação de Lula a partir da operação Lava Jato, assim como de antigos aliados como Eduardo Cunha, Sérgio Cabral, não foi por lutar em defesa dos interesses dos trabalhadores como outrora no ABC, mas por se imiscuir na corrupção a partir das alianças com empreiteiras, banqueiros e notórios políticos corruptos como Temer, Sarney, Maluf, Sérgio Cabral, entre outros tantos. Parafraseando o ex-presidente, “nunca antes na história desse país” banqueiros, empreiteiras, multinacionais e políticos corruptos lucraram tanto com: “bolsa-banqueiro”, benefícios fiscais, financiamentos públicos, obras superfaturadas, desvio de dinheiro público e propinas.

Enquanto isso, medidas sociais compensatórias, como o Bolsa Família, não alteraram a enorme desigualdade social do país e somente disfarçavam a aplicação do receituário neoliberal. Em 2014, após a eleição de Dilma, foi realizado um verdadeiro estelionato eleitoral, que levou o país à maior crise econômica e social.

Documento preliminar elaborado para a reunião da Direção Nacional do PT, reunida no dia 30 de novembro em Brasília, e noticiado pela Folha de S.Paulo, afirmava que: “A guinada neoliberal dada em 2015, na política econômica, pesou mais que os nossos grandes acertos, contribuindo para a derrubada do governo Dilma Rousseff em 2016.”. Por motivos óbvios o documento foi substituído.

Devido às mazelas dos governos do PT, a classe trabalhadora não saiu às ruas em defesa do governo Dilma no impeachment, nem contra a prisão de Lula neste ano, ao contrário de 1980, apesar da campanha feita pelo PT e a maioria da esquerda. A ruptura das massas com o PT, que já havia se manifestado inicialmente nas jornadas de junho de 2013, se aprofundou e se expressou também fortemente nas urnas.

Creditar a vitória de Bolsonaro nas eleições à prisão de Lula como uma “das razões fundamentais”, dando quase como certa a vitória de Lula, caso tivesse concorrido, é minimizar a enorme polarização política e social que vive o país, a responsabilidade do PT na ascensão de Bolsonaro e, sobretudo, reduz a luta às eleições, atrela a classe trabalhadora à defesa do PT e enfraquece a luta contra os ataques aos nossos direitos porque divide os trabalhadores.

Reconhecer que a prisão de Lula não se deu “em função das ideias e interesses que defendem”, ao contrário do que Valério tenta fazer crer, não significa qualquer falso moralismo ou ilusão de imparcialidade ou neutralidade da Justiça. A Justiça, assim como todas as demais instituições que governam o Brasil, é de classe, é dos ricos e poderosos e não merece qualquer confiança, além do que são um bando de privilegiados como ficou mais uma fez demonstrado com o aumento dos salários dos ministros do STF.

A condenação e a prisão de Lula não acabaram com a impunidade e a corrupção no país mas a solução não é a impunidade geral como defende o PT. É preciso exigir a condenação e prisão de Temer, Aécio, Serra, Alckmin, Ônix e outros tantos, bem como, a prisão dos empresários corruptores e a expropriação e nacionalização de todas as empresas envolvidas nos escândalos de corrupção. Também é preciso fazer uma devassa no sistema financeiro e no próprio poder Judiciário, pois não é crível que o crime organizado e a lavagem de dinheiro, que correm solto no país, passem ao largo dos bancos e do judiciário.

 

As arbitrariedades e as ofensas ao devido processo legal e às garantias constitucionais da ampla defesa e do contraditório há muito ocorrem sendo os trabalhadores, pobres e negros suas maiores vítimas, inclusive, durante os governos do PT. O encarceramento em massa elevou a população prisional de 361 mil, em 2005, para 726 mil, em 2016. O processo judicial se transformou em instrumento de perseguição aos ativistas. Os 23 ativistas do Rio de Janeiro, para citar um exemplo, foram condenados por participarem dos protestos contra os desmandos e superfaturamentos das obras da Copa da FIFA 2014.

O novo governo não vai alterar este cenário. A pretexto de combater a corrupção, vai colocar seu prestígio e popularidade a serviço de um projeto autoritário e ultraneoliberal de ataques aos diretos dos trabalhadores para beneficiar banqueiros, latifundiários e multinacionais.

Por isso, a tarefa é construir a mais ampla unidade dos trabalhadores, funcionários públicos, desempregados, quilombolas, indígenas, estudantes para lutar em defesa da aposentadoria, dos empregos, da saúde, educação e, preparar as condições de uma greve geral.

A luta capaz de garantir a defesa de nossos direitos exige a mais ampla unidade e total independência política sob pena de ficar atrelada à defesa dos interesses eleitorais de Lula/PT e dividir os trabalhadores.

Vamos “golpear juntos e marchar separados”!