Donald Trump foi derrotado em sua tentativa de se reeleger como presidente dos Estados Unidos. Desde que Joe Biden foi declarado vencedor, Trump ainda se recusa a reconhecer a derrota e faz acusações infundadas de fraude eleitoral.

Ele também faz uma batalha jurídica para, de alguma forma, reverter o resultado eleitoral. Tudo isso aprofunda a crise de legitimidade do sistema eleitoral bipartidário que tanto democratas quanto republicanos estão desesperados para resolver.

Nada vai mudar

Biden é, em grande parte, o candidato do establishment para restaurar a normalidade, ou seja, a ordem do país e da democracia neoliberal, uma democracia com a qual um número crescente de estadunidenses está desiludido e que continua decepcionando grande parte da população. O principal objetivo dos democratas nesta eleição era tirar Trump sem oferecer um programa para realmente resolver as crises do sistema de saúde, a pandemia da COVID-19, a profunda crise econômica, a devastação ecológica e ambiental e a injustiça racial com a violência e a repressão do Estado.

O que fica evidente com o resultado eleitoral é que o Partido Democrata não apresentou nenhuma solução significativa para as necessidades da classe trabalhadora e do povo oprimido. É por esse motivo que não ocorreu uma onda de votos em Biden. Ele concorreu com o programa mais conservador que os democratas podiam ter e foi o candidato do partido que sempre traiu suas promessas.

Nenhuma confiança em Biden

Depois da vitória de Biden, há pressões massivas por uma unidade para tirar o país e o regime da crise restaurando a legitimidade do sistema bipartidário; barrar o questionamento ao caráter burguês da democracia e à legitimidade do colégio eleitoral; e limitar a capacidade dos partidos independentes da classe trabalhadora de participar nas eleições.

Como se não bastasse, muitas pessoas têm dificuldades para votar devido a barreiras como impossibilidade de sair do trabalho, obstáculos burocráticos no processo de registro eleitoral, falta de informação entre outras. Vale lembrar que atualmente existem 44,5 milhões de imigrantes ou não cidadãos vivendo e trabalhando nos Estados Unidos que não têm direito a voto. Eles constituem 13,7% da população total. A estes, temos de adicionar entre 6 a 12 milhões de imigrantes sem documentos. Tudo isso demonstra o profundo caráter antidemocrático do processo eleitoral dos Estados Unidos.

O Partido Democrata já deu provas de que vai evitar qualquer desafio aos poderosos. No governo Obama, os bancos e Wall Street foram salvos com dinheiro público, enquanto os trabalhadores tiveram corte de salário, insegurança no emprego e serviços públicos subfinanciados. Foi a frustração com os Democratas que levou à eleição de Trump em 2016. Porém, após um período com Trump no poder, os interesses da classe dominante jogaram seu peso em Biden, visto por eles como um representante mais tradicional da política do país.

Biden foi senador por mais de quatro décadas e foi o vice de Obama nos oito anos de seu governo. Durante esse tempo, deixou explícito que é um representante do capitalismo imperialista dos EUA, como evidenciado por seu apoio ao encarceramento em massa promovido pelas leis de Bill Clinton; ao desmantelamento do estado de bem-estar; às guerras no Iraque e no Afeganistão; aos acordos de livre comércio; ao resgate financeiro de Wall Street; e às deportações em massa de imigrantes. Sua vice, Kamala Harris, foi procuradora-geral da Califórnia e tem responsabilidade direta pelo aumento das prisões para negros e latinos.

DECISÃO

O fator decisivo será a luta de classes

O destino da situação política nos EUA será definido pela luta de classes. Os trabalhadores enfrentam uma emergência em quatro frentes: sanitária, econômica, social e ambiental. Nem Trump nem Biden têm uma solução real para isso.

“Nosso único caminho a seguir é organizar e lutar por nossa sobrevivência e, no curso de nossa luta, construir as ferramentas de nossa emancipação: organizações independentes e democráticas da classe trabalhadora (precisamos retomar nossos sindicatos!) e a organização de um partido político independente que esteja enraizado na nossa classe e nas suas lutas, que ganhe experiência nas conquistas operárias e que possa propor uma saída independente, uma saída socialista”, diz uma nota do Workers’ Voice (Voz dos Trabalhadores), organização filiada à LIT-QI nos Estados Unidos.

A tarefa mais importante da esquerda dos EUA é a construção de um partido independente da classe trabalhadora com uma nítida política e um programa de classe. Todas as tentativas de reformar o Partido Democrata e transformá-lo em partido da classe trabalhadora continuarão fracassando, pois esse é um partido essencialmente burguês e imperialista. O apoio descarado do movimento de Bernie Sanders à campanha de Biden apenas fornece novas evidências disso.

ULTRADIREITA

O trumpismo acabou?

O trumpismo é produto da crise política e economia dos EUA e apela aos brancos pobres que se sentem esquecidos pelo sistema. O discurso pós-eleitoral de Trump tenta apresentar a ideia de que ele é um defensor dos empregos de um setor da classe trabalhadora, enquanto Biden é o candidato de Wall Street e dos banqueiros. O trumpismo também se apoiou no racismo, no machismo e no ódio às LGBTs. Por esse motivo, muitos grupos fascistas são atraídos e animados por Trump.

O trumpismo e o populismo de direita não terminaram com a derrota de Trump. Ao contrário, aumentou sua base eleitoral, mesmo após quatro anos de um governo desastroso, obtendo mais de 70 milhões de votos (7 milhões a mais que da última vez).

Esses votos não foram apenas de eleitores brancos da classe trabalhadora, mas também de um setor dos trabalhadores latinos na Flórida, em especial aqueles de origem centro-americana, cubana e venezuelana, devido à agitação de Trump sobre os perigos da “esquerda radical” e à sua estreita relação com o cristianismo evangélico por meio de Mike Pence, seu vice-presidente.

Trump continuará sendo uma força política importante dentro dos Republicanos. Ainda não está definido se manterá o controle ou não sobre o partido. O que se demonstra óbvio é que o trumpismo é expressão decadente do capitalismo e só poderá ser derrotado pela construção de uma alternativa de organização independente dos trabalhadores.