Daniel Macedo e Dirley Santos, do Rio de Janeiro           

Diante do quadro caótico que se aprofunda no Brasil, em meio à pandemia do novo coronavírus provocando quase 20 mil mortos e 300 mil casos confirmados (com grande subnotificação), nesta terça-feira (19/05) volta a ganhar destaque na imprensa o debate sobre o retorno das atividades do futebol. A iniciativa, amplamente divulgada pelas diretorias de Vasco e Flamengo, de procurar o presidente Jair Bolsonaro para dar celeridade às tratativas sobre a volta de jogadores aos gramados, joga água no moinho da política genocida que vem sendo a marca do governo Bolsonaro. Além disso, descumpre todas as orientações médicas sobre o combate a pandemia.

Em um momento em que o governo impulsiona uma cruzada contra médicos e cientistas, e seus militantes agridem enfermeiras em protesto, o médico Alexandre Campello, presidente do Vasco, usa da enorme popularidade da agremiação que dirige para avalizar essa política asquerosa e desumana.

Irresponsabilidade, populismo e ganância financeira

Mas não nos enganemos o que está por trás desta tentativa desesperada é o risco de perdas econômicas dos clubes e o desespero político de Jair Bolsonaro e seus aliados. Não é de hoje que Bolsonaro busca ampliar sua popularidade associando sua imagem aos clubes de futebol, como Palmeiras, Flamengo entre outros; além da própria Seleção Brasileira de Futebol. Ele segue o exemplo de seus ídolos da ditadura militar, como o general Médici, que frequentava o Maracanã com um radinho de pilha a tiracolo.

Como também não é novidade a postura desumana da atual diretoria do Flamengo, a mesma que se exibe com contratações milionárias e “chora miséria” para pagar indenizações às famílias dos dez jovens mortos no incêndio do Ninho do Urubu em 2019. Um trágico episódio da história rubro-negra, que completou recentemente um ano em fevereiro. Nenhum diretor do clube foi punido, ainda que o alojamento (na realidade, containers) em que os jovens estavam alojados estivesse, à época, funcionando sem o aval da prefeitura.

Já se estima uma grave crise geral nos esportes, podendo chegar a R$ 80 bilhões de dólares em perdas nas principais e mais ricas ligas do mundo, como futebol, o futebol americano, basquete, beisebol, automobilismo etc. Somente no futebol, em um estudo realizado pela empresa de consultoria KPMG, estipula-se a perda de 13% na arrecadação das competições que não puderem ser concluídas e uma queda no valor de mercado dos jogadores, que poderá superar os 20%.

No Brasil, mesmo o tão decantado Flamengo que, em março, no início da pandemia, sua direção dizia ter condições para se manter as atividades, sem riscos, por pelo menos três meses; desde o início de abril pressiona pelo retorno aos gramados. Outros clubes, em situação não tão “tranquila”, já ameaçaram ou mesmo realizaram cortes em salários de jogadores e funcionários. O Santos e o São Paulo são exemplos disso. Já o Corinthians e Vasco mantem os salários atrasados. Há também demissões em massa de funcionários em alguns times.

Neste cenário, os mais prejudicados têm sido os empregados e jogadores dos clubes considerados “médios e pequenos”, principalmente os que estão fora do eixo Sul-Sudeste. As diretorias de clubes como o Sport, Fortaleza, Remo e Confiança tem procurado propor alternativas ao realizar partidas virtuais com cobranças de ingressos ou doações, inspiradas em iniciativas semelhantes de clubes europeus.

Irresponsabilidade pode provocar uma volta arriscada

Em países da Ásia e da Europa, as atividades do futebol já tem retornado. Taiwan, Coreia do Sul e Alemanha são alguns exemplos. Na Alemanha, a volta se deu em meio a triste realidade de estádios completamente vazios e de jogadores receosos, que sequer se abraçavam em comemorações dos gols.

Por aqui, no início de maio, quando alguns forçaram uma primeira tentativa de retorno, se tornaram famosas as cenas de profissionais de saúde, vestidos com assustadoras roupas protetoras, enquanto realizavam exames em jogadores e comissões técnicas. Tentativa que não se concretizou por falta de apoio de governos estaduais e municipais, que se recusaram a dar aval a esta atitude irresponsável e desumana.

A própria diretoria do Flamengo, uma das que mais insiste em retornar as atividades logo, testou 293 pessoas e diagnosticou que três jogadores eram positivos para Covid-19. Isto ocorreu na mesma semana em que o time havia perdido pelo novo coronavírus seu massagista Jorge Luiz Domingos, o Jorginho, funcionário mais antigo do departamento de futebol do clube. Sabemos que basta apenas um jogador ou funcionário contaminado para se desencadear uma escalada de contágios.

Na mesma toada, a postura da Confederação Brasileira de Futebol (CBF), principal e a mais rica entidade do futebol brasileiro, tem sido digna de suas piores tradições. Por um lado, a entidade não dá assistência aos profissionais do mundo da bola (55% dos atletas profissionais recebem aproximadamente R$ 1 mil e outros 33% entre R$ 1.001 a R$ 5.000) que têm convivido com reduções de salários e encerramento de contratos e, por outro, se soma a pressão bolsonarista pelo imediato retorno das atividades futebolísticas.

Em vários países, a postura tem sido diferente. E muitos campeonatos já permanecem suspensos ou já foram decretados encerrados por antecipação, como na França, na Bélgica, Holanda e Argentina. Na Inglaterra, na Espanha e na Itália, apesar da forte pressão de empresários e dirigentes, continuam suspensos enquanto não definem um protocolo considerado seguro de retorno. Infelizmente, nestes países, assim como no Brasil, se percebe a ausência de uma postura mais atuante dos jogadores.

O esporte mais popular não pode ser usado para matar

É um completo absurdo que o futebol e as agremiações de grande apelo popular sejam usados em nome do lucro de alguns poucos dirigentes e empresários e para benefício de políticos, se tornando mais um elemento para furar o necessário isolamento social, que é o objetivo da política genocida de Bolsonaro.

Infelizmente, os dirigentes que estão à frente dos clubes envolvidos nesse conluio macabro com Bolsonaro, além de ampliar a possibilidade de contágio dentro do clube ao se reunirem, sem nem mesmo eles próprios estarem protegidos com máscaras e obedecendo as regras de distanciamento social, não respeitam a própria história das torcidas as quais dizem representar. Cabe aos torcedores das diversas torcidas, formadas em sua imensa maioria por trabalhadores e pobres, que lutam todos os dias pelas suas vidas, salários, direitos e contra a pandemia; repudiarem esse verdadeiro absurdo. Já existem iniciativas entre torcedores, inclusive do Vasco e o Flamengo, contrários às posições adotadas pelos dirigentes e pelo governo federal.

Desde a eleição de Bolsonaro, vem ganhando força em quase todas as torcidas dos times considerados grandes; torcidas antifascistas, que buscam questionar as atitudes machistas, racistas e homofóbicas dentro dos estádios, e que têm sem organizado dentro e fora das arquibancadas para defender esta genuína festa popular. Assim como lembram os seus mortos que lutaram por liberdade e justiça social.

Foi amplamente divulgada, mesmo com todo o bloqueio midiático, a homenagem a Marielle e Stuart Angel, ambos torcedores do Flamengo que tombaram na luta. Do mesmo modo a história vascaína é marcada pela luta contra o racismo, que é motivo de orgulho para sua imensa torcida e sempre cantada em São Januário. O mesmo racismo estrutural que está presente também nas mortes por Covid-19, de milhares de negros e negras no Brasil. Temos visto também iniciativas em torcidas de outros clubes, como a do Bahia e outros pautando causas sociais e populares. Nada é mais popular neste momento que a defesa da vida dos trabalhadores, sejam eles torcedores ou jogadores.

– Quarentena geral já!
– Não ao retorno do futebol!
– Não aos jogos sem torcida!
– Em defesa da saúde de jogadores, torcedores e demais profissionais do futebol!
– Fora Bolsonaro e Mourão!